Tiago Guedes e a filha Maria: um filme dentro da cabeça de uma menina de 10 anos

Depois do sucesso de "A Herdade", o realizador Tiago Guedes estreia quinta-feira "Tristeza e Alegria na Vida das Girafas", um filme sobre a morte, a crise e o fim da infância protagonizado pela sua filha, Maria Abreu.

"A mulher que era minha mãe chamava-me girafa por eu ser muito alta para a minha idade mas por vezes penso que é por eu ser um animal imaginário." Girafa tem 10 anos e, além de muito alta, é também uma menina muito séria e que usa palavras que a maioria das crianças não usa. A culpa é da "Mulher que é sua mãe" que a ensinou desde muito cedo a utilizar o dicionário. Todos os dias, deixava-lhe recados escritos em código, espalhados pela casa em post-its amarelos, que ela depois tinha de descodificar utilizando os vários dicionários.

Mas a mãe da Girafa morreu e ela agora vive com o "Homem que é seu pai", um ator que se encontra "na situação de estar desempregado" e que passa a vida rodeado de papéis a tentar perceber como vai pagar todas as contas. Girafa, por sua, vez, está sempre acompanhada pelo seu urso de peluche, a quem chamou Judy Garland, e com quem tem delirantes conversas. Neste momento, a menina está a preparar um trabalho para apresentar na escola sobre o seu animal preferido, que é, obviamente, a girafa. E é por isso "imperativo" que veja o Discovery Channel. Só que o pai não tem dinheiro para pagar a televisão por cabo. Então, Girafa decide sair de casa um dia para tentar arranjar dinheiro.

Este era o ponto de partida para Tristeza e Alegria na Vida das Girafas, o espetáculo escrito e encenado por Tiago Rodrigues, que se estreou na Culturgest em 2011 e que agora chega ao cinema pelas mãos de Tiago Guedes. Estreia esta quinta-feira.

Assim que viu o espetáculo, Tiago Guedes ficou com vontade de fazer o filme. "Estava numa fase da minha vida em que queria falar muito de como é que se sobrevive à dor de uma perda e andava a ouvir outra vez as músicas do Manel Cruz e do Foge foge bandido. Quando vi o espetáculo, tudo se conjugou na vontade de fazer um filme com essas coisas todas", explica o realizador. "O desafio era bastante assustador porque eu gostei imenso da peça e é sempre perigoso mexer em coisas de que se gosta muito porque tem se medo de estragar."

Crescer pode ser doloroso

No palco a atriz Carla Galvão interpretava a menina Girafa; no filme, a criança é a atriz Maria Abreu, que na altura da rodagem tinha 11 anos. A seu lado, em vez de um boneco animado, como seria de imaginar (como acontece por exemplo em Ted, o filme de Seth MacFarlane), temos, tal como na peça, Tónan Quito a interpretar o enorme boneco de peluche. A solução era arriscada e o realizador sabia que esse seria um dos grandes desafios do projeto: "Queria transformar aquela Girafa numa menina mesmo e criar este universo ao mesmo tempo real e irreal. O palco leva-te para uma abstração, é o lugar do faz-de-conta; o cinema transporta-te à partida para um universo mais realista. E o que eu estava a fazer era ter uma criança de verdade mas manter aquele imaginário do boneco e havia esse desafio de conjugar isto sem ficar patético, ridículo ou esquemático".

Não fica patético nem ridículo nem esquemático, isso podemos dizer. Judy Garland é o amigo imaginário da Girafa e ao mesmo tempo é a porta para a complexa cabeça desta menina de 10 anos, a braços com sentimentos que ela própria não consegue explicar, com adultos que nem sempre sabem como devem agir e com um mundo cheio de injustiças e incongruências. Quando ela sai de casa e se põe a andar pelas ruas de Lisboa disposta a arranjar o dinheiro para pagar o Discovery Channel, vai-se cruzando com pessoas tristes mas que a querem ajudar, pessoas que se apresentam como amigas mas que afinal a roubam, pessoas que impõem regras e leis que nem elas próprias compreendem, pessoas que somos nós todos, a tentar levar as nossas vidas o melhor que podemos. Girafa acaba por ir ter com o primeiro-ministro para lhe pedir que faça uma lei que permita ao banco dar-lhe o dinheiro que ela precisa. Se é isso que é necessário, porque não se pode fazer essa lei?

Na altura da estreia da peça de Tiago Rodrigues falou-se muito de como esta refletia a crise económica que então vivíamos em Portugal. "Vivíamos? Ou ainda vivemos?", pergunta Tiago Guedes. "Saímos da dita crise mas as pessoas continuam com muitas dificuldades. Um ator desempregado é uma situação transversal, acontece em todo o mundo." Também por isso, apesar de quase não fazer alterações ao texto original, o realizador optou por retirar o nome do primeiro-ministro, que era Pedro Passos Coelho. "Custa-me porque eu gostava imenso desse momento, quando a Girafa o chamava pelo seu nome. Mas isso iria prender o filme a uma época. E assim isso não acontece. É intemporal", explica.

E fica o aviso para quem não viu o espetáculo: Judy Garland não é propriamente um teddy bear amoroso, é um urso rude e mal educado que de cada vez que abre a boca lança um chorrilho de palavrões cabeludos. "Sabemos que algumas pessoas vão reagir mal", prevê Tiago Guedes. "Mas se nós começássemos a limar o Judy Garland iríamos estragar a sua essência", acredita. "O Tónan decorou aqueles palavrões como se fosse Shakespeare, ele sabia a sequência exata das asneiras. E é forte, é um contraste às vezes até excessivo, e ganha um peso ainda maior por ele estar a dizer aquilo a uma criança, não a um adulto a fazer de criança. Ainda fica mais agressivo. Mas acho que isso faz parte dele e faz parte daquele lado obscuro que está dentro dela." E vale a pena, ainda que, por causa disso, o filme esteja classificado para maiores de 14 anos.

Maria concorda: "Com aquela idade, 10 anos, ainda não se sabe bem o que significam e como se usam os palavrões, só se sabe que se usam em momentos de raiva. Ela usa os palavrões todos que conhece, mete-os todos nas frases. Os palavrões mostram-nos aquela raiva toda que ela tem. E tanto fazem o urso uma personagem mais forte como também fazem a Girafa mais forte." E assim ficamos a saber que aquela menina, sempre tão séria, quase inexpressiva, que quase não se emociona, tem uma convulsão dentro da sua cabeça. "O urso é o que vai lá para dentro", confirma o realizador.

Tristeza e Alegria na Vida das Girafas fala sobre a dor de perder alguém e sobre o modo como a crise económica nos afeta mas é, também, um conto sobre uma menina que cresce. Tal como Capuchinho Vermelho quando sai da casa da avó ou como Hansel e Gretel quando regressam da floresta, no final da sua aventura por Lisboa, a Girafa não é mais uma criança perdida. "Na maior parte das vezes crescer dói muito", diz o realizador. "O fim da infância pode ser muito violento." E ele tinha razão: as letras das canções do projeto Foge foge bandido caem aqui na perfeição e são complementadas por músicas originais de Manel Cruz que criam um ambiente muito especial.

Um filme feito entre amigos

Maria Abreu, é preciso explicar, é filha do realizador e da atriz Isabel Abreu. "Fui eu que pedi ao meu pai para entrar no filme", conta Maria, que agora tem já 14 anos. Crescendo entre palcos e plateaus, Maria não só assistiu à peça Tristeza e Alegria na Vida das Girafas como, antes disso, tinha participado num workshop que o encenador Tiago Rodrigues tinha feito antes do espetáculo. E também já tinha trabalhado com Tónan Quito em Ricardo III (no Teatro Nacional D. Maria II, 2015). O pai ainda disse umas quantas vezes que não mas acabou por ceder: "Percebi não só que ela queria muito como conversei com ela e percebi que ela o iria fazer bem".

No entanto, Tiago Guedes avisou a produção que o pai iria falar sempre mais alto do que o realizador. "Isso para mim era muito claro. Ao colocar a Maria neste papel eu sabia que ia ter de a proteger. Mas não foi preciso. A verdade é que não houve dramas. Ela integrou-se muito bem e foi tudo simples."

Nem tudo. Após várias tentativas, o projeto não recebeu o apoio do ICA - Instituto do Cinema e Audiovisual e Tiago Guedes começou a ter vontade de desistir de fazer o filme. "O tempo estava a passar, a minha urgência em transformar aquela história em cinema também estava a começar a esmorecer, a Maria estava a crescer - por isso, nós, a produtora Take it Easy, decidimos avançar, com o dinheiro que tínhamos da RTP que era muito pouco mas que foi fundamental. Pedimos à equipa técnica e aos atores o favor de trabalharem nas condições em que tivemos de trabalhar. Depois tivemos um apoio do ICA para a finalização, o que deu para compensar as pessoas e pagar a pós-produção", explica.

Tiago Guedes não se cansa de agradecer a todos os que tornaram este filme possível. A começar pelos poucos atores, dois dos quais já tinham feito o espetáculo - Tónan Quito como o urso e Miguel Borges como O Homem que é meu pai e Anton Tchekhov - e ainda Tiago Rodrigues, que aqui faz o papel de primeiro-ministro. "Se não fosse isso seria impossível fazer o filme em três semanas, quase sem dinheiro, nas ruas de lisboa", admite Tiago Guedes. "Foi muito graças ao termos os atores já dentro das personagens e do texto que isto foi possível. E o facto de a Maria os conhecer a todos permitiu essa ligação logo."

"Toda a gente que estava lá queria muito fazer este filme", conta o realizador. "Alguns eram amigos, os outros ficaram amigos. Porque ninguém foi fazê-lo para ganhar dinheiro, por trabalho, foi uma coisa de paixão, de querer concretizar aquele projeto, e isso sentia-se no plateau. Foi uma rodagem muito dura para mim enquanto realizador porque estava constantemente a lutar contra o tempo e a ter que ser muito rápido das decisões, mas a equipa foi incrível."

Quando se viu agora no grande ecrã, Maria Abreu estranhou um pouco: "Era muito mais nova, parece que já não sou eu". Mas lembra-se que se divirtiu imenso durante toda a rodagem. E apesar de não ter voltado a trabalhar em cinema, já voltou aos palcos (participou em Teatro, de Pascal Rambert, no Teatro Nacional D. Maria II, em 2018) e não exclui a hipótese de continuar. Está no nono ano e indecisa entre ser veterinária ou continuar a trabalhar no teatro e no cinema: "Gosto muito de trabalhar com as pessoas que conheço e o D. Maria é como se fosse uma casa, porque toda a gente me conhece. Dá me um gosto enorme estar lá, nem é preciso estar a trabalhar, só estar no backstage já é bom, dá-me uma sensação no corpo de grande felicidade."

Um "ano raríssimo" para Tiago Guedes

Depois de todas as dificuldades, para Tiago Guedes a estreia deste filme é também um momento de felicidade. Aliás, ele consegue a proeza de não só estrear dois filmes no mesmo ano como ter ambos em exibição ao mesmo tempo. "Mas também estive dez anos sem filmar", lembra o realizador de A Herdade, recusando-se a ficar deslumbrado. "Fiz a Coisa Ruim e depois fiz o Entre os Dedos e estava cheio de ideias mas fiquei dez anos sem filmar. É muito dura essa frustração de ter uma vontade muito grande de fazer uma coisa e não conseguir fazê-la."

E conclui: "Quando faço um filme quero que seja o mais visto possível, e o facto de A Herdade ter estado em Veneza, em Toronto e de agora estar em cartaz há tanto tempo e com tantas boas opiniões deixa-me muito satisfeito. Portanto, este é um ano raríssimo que eu estou a aproveitar muito pois provavelmente nunca mais me vai acontecer na vida estrear dois filmes no mesmo ano."

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