De que falamos quando falamos de futebol? Pois bem, com frequência falamos de confrontos pueris e absurdos montados no pequeno ecrã televisivo, “análises” empoladas até à dimensão de sermões que alimentam uma telenovela quotidiana, retórica e repetitiva. De vez em quando, quem nos liberta dessa tristeza mediática e da sua monotonia comunicativa pode ser uma “coisa” (que merecia outra atenção em muitos canais televisivos) a que damos um nome nobre — cinema. Dito de outro modo: no arranque do 79º Festival de Cannes, o primeiro grande acontecimento chama-se The Match e tem como tema central um jogo de futebol. Qual? O que opôs as seleções de Argentina e Inglaterra nos quartos de final do Mundial de Futebol de 1986, no Estádio Azteca da Cidade do México.Até mesmo os espetadores menos atentos aos acontecimentos do futebol, seus dramas e mitologias, saberão que esse jogo se tornou uma referência lendária por causa do golo fantasma — o célebre golo com a “mão de Deus” — com que Diego Maradona (1960-2020) inaugurou o marcador aos 51 minutos. O pequeno génio argentino (1,65m de altura) saltou com o guarda-redes inglês, Peter Shilton (1,85m), e “cabeceou” a bola para dentro da baliza inglesa... Como? A resposta é simples: usando a sua mão esquerda. .Realizado por uma dupla de cineastas argentinos — Juan Cabral/Santiago Franco — The Match está muito longe de ser uma mera “revelação” do facto de o golo de Maradona não ter sido legal. Ou seja: esta não é uma lição patrocinada pela ideologia do VAR (que, obviamente, não pertence a estas memórias), como se as imagens apenas existissem para garantir um conhecimento “puro” de todos os gestos humanos. O filme recorda, aliás, que tudo aconteceu num contexto futebolístico e televisivo bem diferente, mostrando como o gesto de Maradona só se tornou claro várias horas depois do jogo, quando começaram a ser divulgadas as imagens dos fotógrafos presentes no estádio. Ironia insólita, The Match revela as atribulações que fizeram com que a foto mais explícita (com a mão de Maradona a tocar na bola), ainda que obtida por um argentino, tenha sido conhecida em todo o mundo com a assinatura de um inglês.A questão da autoria da fotografia do golo está longe de se esgotar numa curiosidade burlesca. Em boa verdade, trata-se de um detalhe, e dos mais perversos, no interior de um complexo processo histórico de dissidências entre a Argentina e o Reino Unido. Esquematizando, importa lembrar que o ambiente vivido antes, durante e depois deste jogo mítico (realizado no dia 22 de junho de 1986) não pode ser desligado de uma conjuntura marcada por muitas formas de rivalidade entre as duas nações, por vezes expressas de forma bélica.Essa rivalidade envolveu episódios emblemáticos desde o século XIX até à Guerra das Malvinas, que ocorrera cerca de quatro anos antes, quando a Argentina ainda estava sob o jugo de uma ditadura militar (vencida em 1983) e Margaret Thatcher liderava o governo do Reino Unido (posição que manteria até finais de 1990). Sem esquecer que, no plano futebolístico, as dissidências eram também radicais desde o jogo dos quartos de final do Mundial de 1966 em que os ingleses eliminaram os argentinos num confronto que estes cunharam como o “roubo do século” (como é sabido, trata-se do único Mundial ganho pela Inglaterra, contra a Alemanha, depois de ter eliminado Portugal nas meias-finais).Extraordinário no dispositivo narrativo (cinematográfico, justamente) de The Match é o facto de a complexa teia de todas estas memórias — desportivas, políticas, figurativas e simbólicas — ser encarada e tratada como um imenso mapa de factos e referências que nos pode ajudar a compreender melhor o fenómeno futebolístico. Mais do que isso: as formas da sua inscrição social.Lineker & ValdanoPara que tal aconteça, os realizadores convocam um coletivo de notáveis, formado por elementos das duas seleções que ficaram também para a história como protagonistas daquele match. O inglês Gary Lineker e o argentino Jorge Valdano surgem, por assim dizer, como narradores principais, estando acompanhados por Oscar Ruggeri, Ricardo Giusti, Jorge Burruchaga, John Barnes, Peter Shilton e Julio Olarticoechea. Surgem numa espécie de estúdio virtual, filmados a preto e branco, vendo e comentando uma notável antologia de materiais de arquivo que nós, espectadores na sala, vamos também descobrindo. O resultado é tanto mais envolvente, muitas vezes emocionante, por vezes comovente, quanto a história que nos é contada não surge enquistada em forma de “tribunal” sem recurso, sendo tratada como um fascinante painel humano recheado de contrastes e contradições.O jogo terminou com a vitória da Argentina por 2-1, tendo como outro capítulo fundamental (devidamente detalhado pelo filme) o prodigioso segundo golo de Maradona, marcado quatro minutos depois do primeiro, na sequência de uma corrida impressionante pontuada por seis dribles a jogadores ingleses (incluindo o final, a Peter Shilton). Seria mais tarde consagrado como o “golo do século”. Resumindo: estamos perante uma genuína celebração que nasce de uma paixão contagiante pelo futebol, o que é óptimo — e também pelo cinema, o que é ainda melhor.