“Tento mostrar nas minhas nigerianas a força que demonstram perante tudo o que enfrentam”
FOTO: Gerardo Santos

“Tento mostrar nas minhas nigerianas a força que demonstram perante tudo o que enfrentam”

Oyinkan Braithwaite fez sucesso com o romance de estreia 'A Minha Irmã é uma Serial Killer', nomeado para o Booker. Agora publicou 'Maldição de Família'. A romancista esteve em Lisboa e conversou com o DN sobre a sua redescoberta de África depois de viver na Europa.
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Nasceu na Nigéria, foi criada na Grã-Bretanha, onde estudou na universidade, e regressou a África. A minha questão é: esta longa experiência no estrangeiro oferece-lhe uma perspetiva mais objetiva do quotidiano do seu país, no qual voltou a viver?

Sim, acho que sim. Acho que em certa medida, tenho essa perspetiva mais objetiva por ter estado fora da Nigéria, por ter passado os meus anos de formação em Inglaterra. Assim, o meu primeiro contacto com a Nigéria, quando regressei, foi voltar a viver e interagir com a cultura local no dia-a-dia. Fui estrangeira durante algum tempo antes de me tornar uma local de novo. Sabe, eu até tinha sotaque britânico, mas o meu sotaque entretanto mudou. Eu própria mudei enquanto vivia já de novo na Nigéria. Nesses primeiros anos observava as coisas à distância. E ensinou-me muito, na verdade, sobre o quanto das coisas que consideramos óbvias são aprendidas. Por exemplo, para alguém que não é nigeriano, ou para uma pessoa branca, olhando para os nigerianos, pode pensar: “Ah, são todos iguais, são todos nigerianos.” Mas o nigeriano médio consegue arriscar um palpite sobre a tribo da qual uma pessoa vem, porque existem diferenças físicas. Quando me mudei para a Nigéria, não conseguia distinguir uma tribo da outra. E agora ainda não sou perfeita nisso, mas consigo arriscar um palpite. Talvez não consiga dizer a tribo exata, mas posso dizer, “ok, aquela pessoa é provavelmente do norte, aquela pessoa é provavelmente do sul, aquela pessoa é provavelmente do leste”, apenas com base na aparência ou no sotaque do inglês, pois há sotaques diferentes dependendo da tribo. Então, isso de inicio dava uma ideia de distância. Há algumas expressões que os nigerianos dizem no dia à dia que eu acho, “isto é uma coisa estranha de se dizer. Por que razão diria isso?” Porque eu não cresci nesse meio. Mas hoje em dia sinto-me mais nigeriana do que outra coisa. É como se a Nigéria me tivesse absorvido completamente.

As personagens femininas predominam nos seus romances, mesmo que estes sejam muito diferentes. Isto é apenas uma opção criativa, porque, para si ou para as suas histórias, é mais fácil usar mulheres? Ou talvez exista um espírito de ativista e queira falar sobre as mulheres?

Acho que é uma mistura dos dois, e acho que, em termos de ativismo, quando escrevo é sob o ponto de vista de uma mulher, claro. Mas não penso em termos de ativismo propriamente dito. Não penso que seja uma ativista agora, mas já vi mulheres subjugadas, mulheres a sofrer, mulheres ignoradas, mulheres a viver casamentos realmente terríveis. E estas eram mulheres instruídas, não são mulheres incultas. Na verdade, instruídas ou não, não faz mesmo diferença. Já vi mulheres a suportar coisas que não deveriam ter de suportar, e isso incomoda-me muito. Assim, gosto de escrever sobre isso.

Existe a ideia de que a mulher é muito poderosa em África devido a haver tradicionalmente sociedades matriarcais. É verdade ou mito?

Não acho que seja um mito. Historicamente, acredito que as mulheres eram muito fortes e, nos tempos modernos, também acredito que continuam a ser muito fortes, mas existem diferentes tipos de força e penso que é isso que tento mostrar no meu trabalho. Por exemplo, só porque alguém talvez deixe o homem da sua vida safar-se de certas coisas, essas mulheres ainda são capazes de sair e trabalhar de manhã à noite. Vão cuidar de muitas, muitas crianças. Suportarão famílias que não são gentis com elas e sobreviverão a isso. Trarão dinheiro para o lar. Criarão filhos fortes. Isso é força. Mesmo que noutras áreas não seja muito forte, mesmo que deixe alguém safar-se de coisas que não devia, existem diferentes tipos de força e manifesta-se de diferentes formas. Assim, acho que o que tenho visto à minha volta na Nigéria é que as mulheres são sobreviventes. E o que tento mostrar nas minhas personagens, e talvez nem sempre concorde com as escolhas que elas fazem, é a força que demonstram perante tudo o que enfrentam.

Diz que as mulheres têm força, mas também admite que a vida é mais difícil para uma mulher na Nigéria.

Hesito em dizê-lo [risos]. Mas sim, acho que, em comparação com os homens, ainda existem muitas leis que os favorecem e nos desfavorecem. Penso que na Nigéria é mais difícil para uma mulher divorciar-se e ficar com os filhos. Acho que, de um modo geral, as coisas são mais difíceis. Não sei se estamos a monitorizar a diferença salarial entre homens e mulheres e todos estes outros aspetos da vida em que acho que é muito mais difícil para uma mulher. E experimentei isso. Fiquei surpreendida quando era mais nova e namorava, na casa dos 20 anos, com a quantidade de rapazes que tinham visões machistas e mentalidades patriarcais. Perguntavam-me se cozinhava, e coisas que nem achava típicas de gente nova, e nem sei em que ano isso aconteceu [risos].

Sendo a Nigéria um país tão grande, tão populoso, tão multiétnico e multirreligioso, é possível dizer que é uma escritora nigeriana quando há tanta diversidade? Ou a sua perspetiva é mais a de uma cristã do sul? Por exemplo, um muçulmano do norte da Nigéria pode identificar-se de alguma forma com a sua escrita?

Acho que essa é uma boa pergunta. Algumas pessoas que conheço dizem que se consideram parte da sua tribo antes de serem nigerianas. Eu nunca pensei dessa forma. Sinto que sou nigeriana em primeiro lugar e iorubá em segundo, mas tem toda a razão ao dizer que sou cristã e moro em Lagos, no Sul, a minha experiência será muito diferente da de alguém que mora em Kaduna ou até mesmo mais longe. Kaduna nem fica tão ao norte assim, há cidades muito mais ao norte. Algumas dessas regiões eu nunca visitei, nunca estive lá, nunca vi sequer partes delas, são tantas ... Eu já visitei mais lugares na Inglaterra do que na Nigéria. É por isso que às vezes, quando me fazem perguntas sobre a Nigéria, eu fico um pouco hesitante, porque, como apontou, é um país multicultural. E enorme. As condições climáticas variam de lugar para lugar, a cultura é diferente, o idioma é diferente, então, quando escrevo as minhas histórias, não estou a retratar a Nigéria como um todo. Estou a retratar uma parte muito específica da Nigéria. É na Nigéria que ambiento as minhas histórias, mas não é toda a Nigéria.

Deixe-me perguntar também sobre o efeito da abundância de material para escrever que a Nigéria lhe oferece. Tanto para um romancista se inspirar. Imagina vir a escrever um romance inteiramente, por exemplo, sobre pessoas brancas, britânicas por exemplo, sem terem origem nigeriana?

Bem, vou lhe dizer uma coisa: quando eu escrevia, desde os sete anos, eu diria, e dos sete aos 18 ou 19 anos, eu só escrevia sobre personagens brancos, nenhum personagem negro, certamente nenhum personagem nigeriano.

Com base na sua experiência de vida na Grã-Bretanha?

Com base na minha experiência, elas tinham cabelos longos e loiros. E eu não via nada de errado nisso. Essas personagens tinham cabelos ruivos ou qualquer outra cor, porque era tudo o que eu lia, era tudo a que eu era exposta.

Não era só a sua experiência de vida, mas também um reflexo das suas leituras?

Sim, também a minha experiência de leitura. Então, mesmo tendo passado alguma parte desse tempo na Nigéria, o que eu lia era literatura britânica ou americana. Só aos 18 ou 19 anos é que pensei: “Espera aí, isso é estranho. Sou uma jovem negra. Essas personagens que eu escrevo pensam como eu, falam como eu? São brancas porquê?”. A partir daí, parei de escrever personagens puramente brancas e comecei a escrever principalmente personagens negras. Eu ainda escrevia histórias que não se passavam na Nigéria, mas elas eram já com personagens negras. E quando voltei para a Nigéria, já adulta, foi quando comecei a apreciar a riqueza cultural do país e a apreciá-la do ponto de vista artístico.

Percebeu que tinha material abundante e sentia-se mais à vontade escrevendo sobre o que conhecia?

Como eu disse, a Nigéria tem um jeito de nos acolher, e acho que quando me tornei parte desse ambiente, quando me senti completamente acolhida, atraída e seduzida por ele, então simplesmente tornou-se natural. Mas eu também penso em histórias ambientadas na Inglaterra, sim, sim, penso em histórias que se passam na Inglaterra, e acho que um dia escreverei algumas, sabe, talvez sobre um nigeriano britânico. E ocasionalmente escrevo sobre personagens brancos, mas eles não são o foco da minha escrita.

Wole Soyinka, Nobel da literatura, é uma referência para si, e por ser nigeriano ou sobretudo porque é um grande romancista?

Eu li Wole Soyinka na escola e gostei muito. Ele é um escritor fantástico. Acabei por ir conhecendo todos os grandes nomes quando eu era estudante de literatura, então li Wole Soyinka, Chinua Achebe, todos eles... Mas acho que o meu amor pela literatura nigeriana não começou aí. Acho que tive que redescobri-los quando adulta.

Pode sugerir alguns livros por romancistas nigerianos?

Eu adoro As Vidas Secretas das Esposas de Baba Segi, de Lola Shoneyin . Acho hilariante, mas também sombrio, mostrando algumas das dificuldades que as mulheres na Nigéria enfrentam. É brilhantemente escrito e há uma peça de teatro que já foi encenada na Inglaterra, então fez muito sucesso. Há outro livro, Fique Comigo, da Ayobami Adebayo. Fomos lançadas na mesma época, e ela é outra escritora fantástica e esse livro também teve muito sucesso.

A profissão de escritor é muito solitária, mas está aqui em Lisboa a conversar com pessoas de diferentes países e línguas. Sente-se um pouco como uma estrela pop depois de nomeada para o Booker com A Minha Irmã é uma Serial Killer?

[Risos] Digo sempre que quando eu estiver a ganhar tanto dinheiro como a J.K. Rowling, vou tornar-me um pouco reclusa. Eu cresci numa época em que realmente não sabia como eram os meus autores favoritos, nem quais eram as suas visões políticas ou religiões. Eu simplesmente amava o trabalho deles. Então, quando me imaginei como escritora, não pensei que estaria sempre em evidência. E acho que ainda gosto dessa ideia de escrever sozinha e ser misteriosa. No entanto, não sei quanto a ser uma estrela pop, mas adoro conhecer leitores, como aqui em Lisboa, e ouvir as suas experiências e como eles se conectaram com os livros. Porque, como disse, quando se está a escrever, é muito solitário. Somos só nós e a nossa mente, não sabemos como isso vai afetar as pessoas, como vai tocá-las. Quando se tenta, acredita-se que as pessoas vão amar o nosso trabalho. Sim, então, ao conhecê-los, ouço não apenas que adoraram, mas que o livro os tocou ou os fez refletir. Às vezes, as pessoas dizem que esta é a primeira vez que ouvem falar da Nigéria, e isso faz-me sentir muito especial, porque é uma grande honra poder mostrar uma imagem do meu país. Eu sei que a Nigéria tem os seus aspetos negativos, mas também tem os seus positivos, e gosto de pensar que mostro isso quando escrevo sobre o país. Então, fico feliz que, às vezes, leitores que talvez eu nunca tenha conhecido me enviem fotos de pratos que aparecem nos livros. É essa união de todas essas culturas que realmente me emociona.

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