Robert De Niro — pelas ruas de Nova Iorque.
Robert De Niro — pelas ruas de Nova Iorque.

'Taxi Driver': 50 anos de um clássico

Se há filmes genuinamente lendários, Taxi Driver é seguramente um deles. Nele se cruzam os talentos do realizador Martin Scorsese e do argumentista Paul Schrader — estreou-se há 50 anos.
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Quando revisitamos as memórias de Hollywood em 1976, surge a referência incontornável de Rocky, o filme que transformou Sylvester Stallone numa estrela universal. Para lá do sucesso nas salas de todo o mundo, a saga do pugilista Rocky Balboa, cujo argumento Stallone também escrevera, conseguiu a proeza, para muitos impensável, de arrebatar o Óscar de melhor filme do ano. Os mais nostálgicos, ou apenas mais objetivos, gostam de acrescentar que entre os que não receberam qualquer estatueta dourada estava um filme que também não podemos esquecer. O seu título? Taxi Driver - estreou-se no dia 8 de fevereiro de 1976, faz agora 50 anos.

Sejamos pragmáticos. Não fará sentido demonizar Stallone por causa do impacto de Rocky. O seu filme, dirigido por John G. Avildsen (que também ganhou o Óscar de realização), distinguia-se pela arte e o engenho de recuperar as emoções de um modelo dramático de heroísmo enraizado na grande tradição clássica de Hollywood (o convencionalismo das sequelas que protagonizou é, apesar de tudo, outra história). Seja como for, Taxi Driver recebera quatro nomeações - melhor filme, melhor ator (Robert De Niro), melhor atriz secundária (Jodie Foster) e melhor música (Bernard Herrmann), mas não obteve qualquer Óscar. Sim, é verdade: o realizador, Martin Scorsese, não foi nomeado...

Jodie Foster, 12 anos, a contracenar com De Niro.
Jodie Foster, 12 anos, a contracenar com De Niro.

Entre os “não-nomeados” (estranha categoria...) estava também Paul Schrader, autor do argumento, afinal um dos mais brilhantes narradores americanos, como argumentista e realizador, ao longo destes últimos 50 anos. Viria a estrear-se na realização com Blue Collar (1978), tendo o seu momento de maior glória comercial com American Gigolo (1980), sem esquecer que voltou a colaborar várias vezes com Scorsese, nomeadamente nos argumentos de O Touro Enraivecido (1980) e A Última Tentação de Cristo (1988). Nos Óscares, obteve a sua primeira (e até agora única) nomeação graças ao argumento de No Coração da Escuridão (2017), que também realizou.

A saga de Travis Bickle

Com uma performance comercial muito consistente, para mais consagrado, em maio de 1976, com a Palma de Ouro do Festival de Cannes (por um júri presidido por Tennessee Williams), Taxi Driver esteve também no centro de muitos confrontos de ideias que não podem ser dissociados das convulsões temáticas e estéticas, posteriores à reconfiguração dos estúdios clássicos, que o cinema americano estava a atravessar. Emergia, em particular, uma questão que, em boa verdade, nunca deixou de pontuar a história moderna do cinema. A saber: a representação da violência. Ou ainda: a existência (ou não) de um código, de uma só vez estético e ético, que define o que é possível, eventualmente legítimo, “mostrar” num ecrã de cinema.

Os espetadores que conhecem o filme (a partir de 1 de março, estará de novo disponível na plataforma Filmin) não poderão deixar de associar tais discussões ao extremismo das vivências de Travis Bickle, o motorista de um taxi nova-iorquino que De Niro assume numa das suas mais complexas, e também mais míticas, interpretações. Aliás, importa não esquecer o contexto social e político em que surgiu Taxi Driver. A gestão de Nova Iorque estava à beira da falência e, em algumas zonas, as ruas da cidade eram o palco violento dos circuitos de drogas e prostituição. Num delírio tão voluntarista quanto irracional, Bickle comporta-se como um “anjo” vingador - diz ele, na voz off que assombra todo o filme: “Um dia, uma chuva a sério virá, lavando toda a porcaria das ruas”.

'Taxi Driver' ficou ligado a muitos debates sobre a violência.
'Taxi Driver' ficou ligado a muitos debates sobre a violência.

O ponto de fuga dramático da cruzada “purificadora” de Bickle acaba por ser a personagem de Iris, a muito jovem prostituta interpretada por Jodie Foster - tinha 12 anos na rodagem de Taxi Driver. Com um começo de carreira ligado à publicidade (filmou o seu primeiro anúncio aos três anos de idade) e a algumas produções dos estúdios Disney, afinal não era estranha ao mundo de Scorsese, já que integrara o elenco de Alice Já Não Mora Aqui (1974).

A odisseia de Bickle vai-se intensificando como uma missão de “libertação” de Iris, ela que existe dominada pela chantagem emocional de “Sport”, o proxeneta interpretado por Harvey Keitel. A sua transformação física, a par das armas de fogo que vai comprando, sinaliza um processo que desemboca numa cena de extrema violência, cena essa que acabou por se tornar também um símbolo dos riscos temáticos e formais de um cinema americano atento aos dramas internos da sua sociedade. Para nos ficarmos pelo contraponto do trabalho de Sidney Lumet, autor da geração anterior à de Scorsese, lembremos que é por esta altura que ele realiza títulos tão emblemáticos como Serpico (1973) ou Um Dia de Cão (1975), ambos protagonizados por Al Pacino.

Trilogia de talentos: Paul Schrader, Martin Scorsese e Robert De Niro.
Trilogia de talentos: Paul Schrader, Martin Scorsese e Robert De Niro.

Por amor de Nova Iorque

Travis Bickle é também um veterano que transporta os traumas da guerra do Vietname. Não que o filme utilize tal referência como uma “explicação” simplista da personagem - Scorsese nunca foi um cineasta de esquematismos “psicológicos”. O certo é que tal referência coloca também Taxi Driver num ponto de viragem dos grandes estúdios de Hollywood que, dois anos mais tarde, produziriam dois títulos que rasgaram caminhos para lidar com a herança da guerra: O Caçador, de Michael Cimino, e O Regresso dos Heróis, de Hal Ashby. Tanto basta para reconhecer também que Scorsese é, sempre foi, um cineasta genuinamente político.

O compositor Bernard Herrmann na companhia de Orson Welles.
O compositor Bernard Herrmann na companhia de Orson Welles.

Taxi Driver ocupa um lugar central na coleção de ficções com que Scorsese tem abordado a sua cidade de Nova Iorque. Mean Streets (1973), também com De Niro e Keitel, entre nós lançado como Os Cavaleiros do Asfalto, poderá ser encarado como uma espécie de prefácio a Taxi Driver. Depois, desde New York, New York (1977), com De Niro e Liza Minnelli, um melodrama musical que valerá a pena redescobrir, a O Lobo de Wall Street (2013), com Leonardo DiCaprio, passando por essa luminosa evocação do século XIX que é A Idade da Inocência (1993), há em Scorsese uma obstinação realista que não desdenha, bem pelo contrário, as derivações quase surreais que a história coletiva contém ou sugere. No limite, talvez se possa mesmo dizer que um filme como Gangs de Nova Iorque (2002), também revisitando o século XIX, tem tanto de hiper-realismo social como de delírio formal “roubado” ao universo da ópera.

Não necessariamente de ópera mas, em qualquer caso, de transfiguração musical, importa falar a propósito dessa obra-prima dentro de uma obra-prima que é a banda sonora original de Bernard Herrmann. A sua música, sincopada, jazzística e estranhamente melódica, ficaria como o derradeiro trabalho de um compositor genial que começara em Hollywood com Citizen Kane/O Mundo a Seus Pés (1941), de Orson Welles, tendo sido também um colaborador essencial de Alfred Hitchcock, nomeadamente em Intriga Internacional (1959) e Psico (1960). Herrmann não assistiu à estreia de Taxi Driver, já que faleceu poucas horas depois de ter terminado as gravações da sua banda sonora. A concluir o genérico final do filme podemos ler esta legenda: “A nossa gratidão e respeito por Bernard Herrmann: 29 junho 1911 - 24 dezembro 1975”.

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