Tarantino: o livro, antes do último filme

Muito se tem especulado à volta da produção do novo filme de Quentin Tarantino. Mas enquanto se espera por <em>The Movie Critic</em> - que o realizador anuncia como a sua derradeira longa-metragem -, há um livro que pode dar algumas luzes sobre a alma desse último projeto:<em> Cinema Speculation</em> é a primeira obra literária de não-ficção de um autor (des)educado por toda a ficção cinematográfica americana dos anos 1970.
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"Os espectadores podem reconhecer o meu trabalho ou rejeitá-lo. Considerá-lo bom, mau ou vê-lo com indiferença. Mas sempre abordei o meu cinema sem medo do resultado final. Um destemor que me vem por instinto - quer dizer, o que é que isso importa? É apenas um filme." Quase a meio de Cinema Speculation, depois de muitas páginas que nos elucidam sobre o que fez de Quentin Tarantino o realizador e a personalidade que é, através do relato da sua experiência de espectador de pouca idade e da sua análise diversa do cinema americano da década de 1970, deparamos com esta declaração voltada para a sua obra, com aparente desapego, recordando a época em que, atrás do balcão de um videoclube, ainda sonhava tornar-se realizador. Continua assim: "Porém, na idade certa (vinte e poucos anos) e na hora certa (os malditos eighties), o destemor demonstrado por Pedro Almodóvar foi um verdadeiro exemplo. Enquanto observava os meus heróis, os dissidentes do cinema americano dos anos 70, a aderirem a uma nova forma de fazer negócio apenas para permanecerem empregados, a intrepidez de Pedro ridicularizou os compromissos calculados deles." E esta, hein? Almodóvar a inspirar Tarantino? Só mais um pouco: "Sentado num cinema art house em Beverly Hills, a ver as imagens 35mm vividamente coloridas e emocionantemente provocantes de Pedro a tremular numa parede gigante - demonstrando que era possível haver algo de sexy na violência - convenci-me de que havia um lugar para mim e para os meus devaneios violentos na cinemateca moderna." E assim, tudo começou...

Importa esclarecer, antes do mais, que Cinema Speculation não tem por enquanto uma edição portuguesa, o que implica que os excertos anteriores sejam uma tradução minha. E no final do último, quando Tarantino escreve "a place for me", confesso que algures no meu cérebro comecei a ouvir o início da canção Somewhere, escrita por Stephen Sondheim e Leonard Bernstein e cantada pelos amantes de West Side Story (1957): "There's a place for us/Somewhere a place for us...". É menos descabido do que parece. Sobretudo durante a leitura de um livro que, tendo muito de cinefilia de choque, salpicos de sangue e violência, também sabe encontrar a veia do romantismo subentendido na paixão pelo cinema. Tarantino não estaria certamente a cantar Somewhere quando o escreveu, mas o sentimento belo de alguém que, diante de uma grande pantalha, experimenta a revelação do seu lugar no mundo, não pode senão vir acompanhado de uma banda sonora maravilhosamente piegas.

Posto isto, descobrir que Almodóvar, um cineasta espanhol, teve um efeito tão forte no jovem Tarantino - por essa altura já bem abastecido de conhecimentos de cinema americano -, tem o seu quê de surpreendente. Porque a verdade é que, ao percorrer as aventuras do pequeno Quentin (ou como ele chama a si próprio, "Little Q"), fica-se com a perceção de que estava tudo ali, naquela infância em Los Angeles demasiado próxima dos adultos, passada em salas de cinema onde era a única criança na plateia, alegremente inapta para compreender tudo o que acontecia no ecrã, mas proibida pela mãe e pelo padrasto de fazer perguntas idiotas. A mesma criança de 8 anos que assistiu à cerimónia dos Óscares de 1971, tendo visto todos os filmes nomeados - o seu favorito, M*A*S*H, de Robert Altman, mereceu três visionamentos do fedelho cinéfilo, só antes do dia da entrega das estatuetas!

Entra-se em Cinema Speculation calcorreando estas memórias orgulhosas de quem agradece o facto de a mãe lhe ter permitido colecionar edificantes sessões de cinema, em vez de ser obrigado a ficar em casa ao cuidado de uma ama. Quando se deu conta de que era o único a ter esse privilégio entre os colegas da escola, achou por bem interrogar a progenitora sobre o fenómeno estranho de os outros pais não deixarem os filhos verem os mesmos filmes que ele. Resposta: "Quentin, preocupa-me mais que vejas o noticiário. Um filme não te vai fazer mal". É tudo uma questão de compreender o contexto, explicaria ela mais tarde. Música para os ouvidos do menino.

Pode parecer, pela dimensão marcante dos anos formativos (que também inclui os filmes da blaxploitation e um trauma com Bambi), que Cinema Speculation se assume como uma autobiografia. E até certo ponto, isso é verdade: trata-se de uma autobiografia cinéfila, em que Tarantino fala de si através dos filmes que lhe estão colados à pele, ou através da memória mais tenra da experiência de os ver. Mas, na essência, o livro dá conta de um trabalho bastante mais complexo do que narrar recordações. Ao longo dos capítulos, que tanto se debruçam sobre filmes escolhidos a dedo, como fazem elogios a críticos de cinema ou examinam a chamada Nova Hollywood, o realizador americano oferece uma visão analítica que está longe do simples espírito provocador reconhecível na sua figura de enfant terrible. Tarantino esmera-se numa prosa de não-ficção (depois da versão romance de Era Uma Vez em Hollywood) capaz de nos envolver por um misto atrativo: o enciclopedismo de quem sabe bem nadar nas referências da época analisada (anos 70), indo além delas; a pesquisa que está na base dos textos, incluindo entrevistas a pessoas da indústria (prerrogativa natural de um realizador); e o estilo apaixonado e livre, que faz com que o autor se perca voluntariamente em deliciosos detalhes especulativos. Daí o título Cinema Speculation.

Como o próprio Tarantino reconhece, na comparação com alguns dos cineastas que venera - referindo-se em particular a Sam Peckinpah e Don Siegel -, a sua abordagem do cinema é a de um cultor dos filmes de género, ao lado de nomes como Walter Hill, John Woo e Eli Roth: "Enquanto estudiosos do cinema de género, fazemos isto porque amamos este tipo de filmes. Já eles [Peckinpah e Siegel] fizeram filmes de género porque eram bons nisso e porque foi para isso que os estúdios os contrataram." Esta consciência perspicaz da sua posição na Hollywood de hoje, e do que o move antes do aspeto prático de realizar um filme, reforça a ideia de que por trás do realizador sempre houve um crítico de cinema...

Relativamente a essa especulação, que deriva do facto de este sentir uma permanente vontade de partilhar com o mundo os seus filmes favoritos, e também as suas apreciações mais controversas, Tarantino disse em entrevista ao Los Angeles Times: "Escrever este livro fez-me respeitar ainda mais os profissionais da crítica de cinema, pelo simples facto de perceber que não poderia fazer o que eles fazem. Se o meu trabalho fosse ver todas as semanas os novos filmes e depois escrever o que penso, não consigo imaginar que fosse possível ter algo a dizer sobre tudo, a não ser dar um resumo do enredo e um veredicto de "bom", "mau" ou "indiferente". Com o livro, quis ir à procura de qualquer coisa peculiar que fosse interessante e sobre a qual valesse a pena falar."

Percebe-se esse entusiasmo em Cinema Speculation. Por exemplo, Tarantino consegue "falar" ao longo de três páginas exclusivamente sobre o minimalismo glorioso de um ator como Steve McQueen (em Bullitt, de Peter Yates) ou, mais à frente, imaginar o que teria sido Taxi Driver se Brian De Palma o tivesse realizado, em vez de Martin Scorsese (De Palma foi o primeiro a ter em mãos o argumento escrito por Paul Schrader). Tudo isto no meio de uma prosa veloz, que vai oscilando entre a sinceridade, a análise aturada, uma espécie de melancolia e aquela linguagem vibrante que ata o pensamento frenético. Porque, já se sabe, Tarantino escreve com a mesma voz com que fala.

A seguir à publicação de Cinema Speculation, Quentin Tarantino planeou o seu fim de carreira. Já desde o último Era Uma Vez em... Hollywood (2019) que falava em realizar só mais um filme; o seu décimo título. E esse filme, do pouco que se sabe, será a história de um crítico de cinema, na Califórnia dos anos 70, que escreve para uma revista pornográfica. Alguma relação espiritual com a literatura de Cinema Speculation? Pode-se especular.

Sem certezas sobre quase nada, a não ser o título The Movie Critic, a informação que o realizador tem libertado para a imprensa é de que se trata de uma personagem inspirada num crítico que ele realmente apreciou nos tempos da sua juventude, e que andaria na casa dos 30. Ou seja, tire-se o cavalinho da chuva: impossível dar o papel principal a Brad Pitt ou Leonardo DiCaprio, esclareceu já em entrevistas. Entretanto, surgiu nas últimas semanas o nome de Paul Walter Hauser (que ainda não foi oficialmente confirmado), e a ser essa a escolha, estamos perante o fabuloso ator que protagonizou um dos melhores filmes recentes de Clint Eastwood: O Caso de Richard Jewell.

Quanto à localização da rodagem, a revista Variety avançou, no início deste mês, o valor de 20 milhões de dólares em incentivos fiscais pelo estado da Califórnia. A garantia prática de que Tarantino regressará à "capital mundial do cinema", que já no anterior Once Upon a Time in... Hollywood proporcionara uma viagem à atmosfera do ano de 1969. Em tudo isto, há um destino que se cumpre.

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