Quando perguntam a António Cabrita como consegue lançar quatro livros em nove meses a resposta é simples: “Tenho sempre cinco livros escritos por avanço”. Está explicada a quantidade, mas falta saber sobre a pluralidade dos registos literários deste quarteto: contos, poesia e romance. Qual entusiasma mais o leitor? Também tem uma explicação: “As opiniões dividem-se e não há unanimidade sobre se preferem o poeta ou o ficcionista”. E o que prefere o autor? Demora um pouco a responder: “Creio que era a poesia, afinal já tenho mil e tal páginas de poesia editada.” Hesita um pouco e acrescenta uma alternativa: “Acho que já escrevi demasiada poesia, portanto agora gostaria de fazer um livro que enxugasse toda a produção e me desse a ver as linhas mestras que atravessam toda essa aparente diversidade como se a observasse pela primeira vez. Se tudo ficar exposto, talvez tenha a coragem para estar uns anos largos sem publicar mais poesia, além de que estou numa fase em que preciso de experimentar outras coisas na prosa e com mais fogo, porque a prosa exige muito mais método e tempo.”Começa-se pelo livro mais recente, Da Santidade - Na Perspetiva dos Pangolins, apresentado oficialmente na Cinemateca Portuguesa na semana passada. Um romance que Cabrita antecipa poder criar-lhe problemas no país onde esteve a viver nas últimas duas décadas: Moçambique. De regresso definitivo a Portugal, após ter exercido várias profissões, escrito e publicado vários livros, a nova obra é uma espécie de acerto de contas com a situação política moçambicana: “É uma sátira política, aquela que eu achava que devia às pessoas boas que existem em Moçambique e para as quais eu sentia que devia pronunciar-me sobre o que vi e assisti num país que tem todas as condições para ser maravilhoso e não o pode ser devido aos impasses provocados por uma classe política e um regime corrompido, podre e inútil.” Questiona-se se os dirigentes moçambicanos repetem a acusação habitual que o Brasil encontra na colonização portuguesa para se desculparem, uma situação que António Cabrita nega: “As novas gerações já não se socorrem dessa bengala porque o problema não está aí, antes no facto de os antigos libertadores se terem tornado nos tiranos.”Como é que Cabrita ficciona esta sátira? Descreve o romance: “É a história de um jovem jornalista muito aguerrido que não aceita as pressões sobre o jornal que vêm do ambiente político ao querer fazer umas reportagens em Cabo Delgado, principalmente com entrevistas às crianças-soldado integradas em milícias. Foi este o expediente a que recorri para revelar certas práticas correntes e obscuras que estão a acontecer.”O retrato que decidiu escrever sobre a situação do regime moçambicano não é feito por quem desconhece a realidade. António Cabrita esclarece: “Fui para lá viver com 45 anos, uma boa idade para compreender o que se passa, e mantive sempre um olhar minimamente crítico sobre o que me rodeava. Estava bem antes no semanário Expresso, mas queria ganhar experiência e textura humana para ter mais condições para escrever livros. Não queria ser como os jovens autores portugueses de agora, que nos seus livros apenas se vê a reprodução do que acontece na televisão e no cinema, sem qualquer densidade humana por lhes faltar experiência de vida. Como sentia essa necessidade, apanhei a boleia da minha mulher, que é moçambicana, e fui para África como professor de comunicação social. Esqueci-me foi de fazer a única pergunta necessária: qual é o salário? Ao saber, senti-me um idiota, porque tinha saído do meu país para ganhar quatro vezes menos. Tive de ter várias ocupações, mas mantive religiosamente metade do dia para mim e para escrever.”Cabrita cumpriu o desejo de publicar e durante esses vinte anos editou igual número de livros, entre os quais quatro em Moçambique e outros quatro no Brasil. O primeiro romance, A Maldição de Ondina, surge numa época conturbada da sua vida com as autoridades moçambicanas responsáveis pela renovação do visto, devido a crónicas que publicava no jornal Savana: “A editora portuguesa a que apresentei o romance queria que amaciasse o romance e em vez de o fazer enviei para uma editora de São Paulo; passada uma semana, tinha o contrato na mão, o livro saiu e foi finalista do Prémio Telecom (atual Oceanos).” Os prémios e a presença nos autores finalistas não é uma situação rara em António Cabrita apesar desta ausência do território nacional, tanto que em 2024 venceu o Prémio Baptista-Bastos com Se não me quiseres amar agora no Inverno, tendo também uma presença constante nas listas do PEN Clube com três livros finalistas e um de poesia vencedor, o Anatomia Comparada dos Animais Selvagens.Qual das vivências, em Portugal ou Moçambique, será mais inspiradora na criação de tantos personagens que coloca nos seus livros? António Cabrita pensa uns segundos antes de escolher: “Há um fenómeno engraçado nessa área e que se prolongou durante algum tempo em muitos dos livros: uma espécie de heteronomia. Vivia em África e escrevia livros que nada tinham a ver com esse continente. Dou o exemplo de um livro de que gosto muito - infelizmente foi um enorme fracasso – e que se chama Fotografar Contra o Vento. É uma história pícara sobre dois homens que se encontram em Espanha, um vai de Lisboa para Madrid vestido de toureiro para tentar uma oportunidade na praça de touros de Las Ventas e cruza-se com um ex-jornalista de Barcelona que esteve no Afeganistão. Ao encontrarem-se a dado momento das trezentas páginas do romance, tornam-se uma dupla do género Dom Quixote e Sancho Pança. Foi um livro escrito em Maputo a tratar de Espanha, ou seja, este é um bom exemplo de como posso estar distante fisicamente mas a minha cabeça comportar-se como a de um verdadeiro astronauta: a ver a Terra do ponto de vista da Lua.”Num dos seus últimos romances, O Que o Céu Permite, António Cabrita já tem a atenção centrada em Moçambique. Explica: “Apesar de ser um tempo em que já estava com um pé fora do país, foi uma altura em que comecei a focar-me mais em Moçambique como território e como tema.” Se é esse o cenário do romance mais recente, o Da Santidade - Na Perspetiva dos Pangolins, Moçambique também já estava presente no livro de contos Make Sequóias Great Again, apesar da “concorrência” dos Estados Unidos da América e de Trump na temática geral. A razão dessa “concorrência” tem a ver com coincidência de situações anormais que ambos os países vivem, como refere: “O título de Sequóias tem a ver com a sigla MAGA e pretende ser satírico. Eu estava a colecionar contos e apercebi-me que Trump surgia em alguns. Então pensei no choque que Trump teria se apostasse nestas árvores ao saber que a sua madeira pouco utilidade tem a não ser para fazer palitos e fósforos. Com a sua megalomania, ele decretara que os caixões americanos teriam de ser feitos da madeira da sequoia e o que acontecia é que não mantinham a estrutura e ruíam.” .Também não faltam situações anómalas no caso de Moçambique, como a que se deu com os seus alunos da universidade, como conta: “Em 2007, quiseram debater comigo uma história que dera origem a uma reportagem na televisão e que tinha a ver com um assunto singular e que os pusera em dúvida sobre a possibilidade de acontecer: na periferia de Maputo uma mulher tinha parido um bule e quatro chávenas. Os alunos queriam discutir comigo se tal era possível ou não, curiosamente uma parte deles não acreditavam enquanto a outra parte estava a favor do pensamento mágico e que tudo podia acontecer. Ou seja, a realidade é sempre superior à nossa imaginação e não é preciso inventar nada, daí que se possa dizer que não há muita diferença entre o realismo mágico e as atitudes de Trump. É o mesmo tipo de superstição, é o mesmo tipo de procedimentos, com os quais se está a destruir, por exemplo, a Educação em ambos os países.”Quando se aponta no mais recente romance, Da Santidade - Na Perspetiva dos Pangolins, um forte registo de autoficção, António Cabrita concorda: “Sim, mesmo que muitas vezes isso tenha estado sempre nos meus textos. No Éter tinha um conto longo sobre o meu primeiro beijo, ou seja, por vezes parto de 80% de ambientes vividos num livro e 20% é invenção pura, noutros é o oposto, 20% é vivido e 80% é imaginação. Também existem livros de transição, em que invento tudo; posso dizer que é como nos meus títulos: não têm um padrão. Resultam do que sinto enquanto estou a escrever e tanto pode ser como aconteceu no ano passado ao publicar um livro infantil e também um de poesia erótica ou pornográfica, Bicho Carpinteiro, com aguarelas magníficas da Bárbara Assis Pacheco. Gosto dessa versatilidade e de dar alternativas em livros que sejam caldeados pela esperança e não apenas um olhar sobre a realidade, muitas vezes de derrota e conformismo. Tem a ver com a prática da escrita e de já não fazer autocensura.”O regresso a Portugal confronta António Cabrita com a realidade nacional, daí que se questione o que pensa do estado da literatura portuguesa? Responde com calma: “Se tem coisas interessantes, ao mesmo tempo acho que está num estado caótico. No entanto, no meio desse caos há coisas boas e emergem vozes excelentes, como a do Valério Romão e do seu último livro, O Desfufador.” Ainda dá uns poucos exemplos, mas nunca com um à-vontade de quem se reencontrou com o melhor cenário literário. Não termina sem deixar um projeto no ar: “Tenho quase pronto para publicar um diário avultado com memórias das duas décadas que passei em Moçambique…” .DA SANTIDADE – NA PERSPETIVA DOS PANGOLINSAntónio CabritaTeodolito220 páginas .MAKE SEQUÓIAS GREAT AGAINAntónio CabritaThe Poets and Dragons Society150 páginas .SE NÃO ME QUISERES AMAR AGORA NO INVERNO, QUANDO?António CabritaThe Poets and Dragons Society277 páginas .VIAGEM AOS CONFINS & VOLTAAntónio CabritaThe Poets and Dragons Society150 páginas DERIVAS RADICAISEntre os livros que não podem passar despercebidos neste tempo de derivas está O Primeiro Fascista, do historiador Sergio Luzzato. Por vários motivos, como se pode confirmar em apenas dois parágrafos exemplares: “Era um facto que o Marquês de Morès tinha uma visão de futuro. Foi pioneiro de uma guerra contra a raça judaica que atingiria o seu auge em França e na Europa de 1942”; “Mas Morès deve ser reconhecido como um dos pais do fascismo não só por ter aplicado a velha metáfora do fascio a uma nova ordem hierárquica, adoçando-a como uma panaceia interclassista”. O investigador já publicou duas obras interpretativas dos piores anos da civilização europeia do século passado, sobre Mussolini e Primo Levi, e este ressuscitar de uma figura bem ao sabor da atualidade, considerado um demagogo de carreira e que não resistiu a tentar ser um campeão do antissemitismo e um “libertador de todos os parasitas que devoram a França”. Num tom de quase romance tal é a fluidez da sua escrita, está-se principalmente perante um livro de História sobre como se faz e desfaz um perigoso protagonismo político. A ler. .O PRIMEIRO FASCISTASergio LuzzatoZigurate509 páginas