Steven Spielberg celebrará os seus 80 anos no dia 18 de dezembro. Se a passagem dos anos gera um desejo de reactivação das memórias mais queridas de cada ser humano, não há dúvida que os títulos recentes da sua filmografia começam por ser exercícios de tocante nostalgia. West Side Story (2021) levou-o a reinventar um clássico do musical, datado de 1961, indissociável da sua formação como espectador; depois, Os Fabelmans (2022), centrado num adolescente fascinado pela realização cinematográfica, nasce de um olhar claramente autobiográfico. Chega-nos agora O Dia da Revelação — a partir de quarta-feira nas salas —, notável variação sobre os “encontros imediatos” dos humanos com entidades extra-terrestres.A referência a Encontros Imediatos do Terceiro Grau (1977) é, obviamente, incontornável. Realizado logo após o sucesso de Tubarão (1975), o filme cristalizava a paixão do jovem Spielberg pela possibilidade de existência de formas de vida noutras galáxias. Mais do que isso: os seres dessas galáxias mostravam-se empenhados em visitar um minúsculo pontinho do universo a que damos o nome de Terra — e faziam-no pacificamente. Daí que o próprio Spielberg considere O Dia da Revelação como a conclusão de um tríptico que se prolongou com o emblemático E.T. - O Extra-Terrestre (1982), por certo um dos fenómenos mais populares de toda a história do cinema.Memórias de RoswellComo é fácil perceber pelo trailer de O Dia da Revelação, as visitas de extra-terrestres continuam a ser o cerne da questão. Mas já não se trata tanto de encenar a expectativa de mais uma visita de naves de outro mundo, mas sim de contar uma história precedida de muitos “encontros imediatos”. Evitando revelar mais do que é devido, ficando pelas informações do referido trailer, diremos que esta é a epopeia de Daniel Kellner (Josh O’Connor), especialista em segurança informática — Daniel teve acesso a muitos dossiers sobre visitas de extra-terrestres que o governo dos EUA manteve em rigoroso segredo, mais exactamente desde o lendário incidente de uma nave espacial de origem desconhecida que, em 1947, se teria despenhado na região de Roswell, no Novo México. Ora, Daniel está decidido a tornar pública toda a informação que coligiu — será o “dia da revelação”. .Para lá das relações com a obra anterior de Spielberg, duas componentes, uma de estilo narrativo, outra de natureza simbólica, transformam O Dia da Revelação num objecto tão singular quanto fascinante. Assim, através de um jogo subtil de revelações que, cena a cena, vão abalando as nossas certezas, este é um filme com uma lógica de “thriller” como há muito não víamos no trabalho do seu autor — num paralelo inesperado, mas sugestivo, justifica-se mesmo que evoquemos a respiração arfante desse filme tão mal conhecido que é Sugarland Express/Asfalto Quente (1974), primeira longa-metragem de Spielberg para cinema (três anos antes rodara Duel/Um Assassino pelas Costas, um telefilme). Ao mesmo tempo, o espírito ecuménico de O Dia da Revelação lembra as experiências em que ele mais se aproximou dos valores específicos das fábulas, com inevitável destaque para Sempre (1989) e O Amigo Gigante (2016), também dois títulos pouco divulgados da sua filmografia.Há um subtexto político na odisseia de Daniel que os mais precipitados poderão ler como uma banal diatribe contra a governação dos EUA. Aqui, a dimensão política (que, obviamente, existe em qualquer filme) nasce de um conceito visceral, anímico, porventura animista, da própria comunidade que, segundo Daniel e os seus pares, tem sido privada de uma avalanche de informações a que tem direito. Daí a importância nuclear da personagem de Margaret Fairchild (Emily Blunt, numa composição tão rica e complexa que será “obrigatório”, no mínimo, nomeá-la para um Óscar). .Margaret apresenta a meteorologia num canal regional de televisão — mensageira do tempo, acabará por se impor como figura de um tempo transcendental, já que, começando por não ter consciência do que lhe está a acontecer, responde a um genuíno chamamento religioso. A linguagem dos extra-terrestres baralha as suas palavras, quer dizer, as acções do seu corpo, mas a sua entrega à causa da “revelação” provém de uma força imponderável que carece de uma designação radical: uma alma.“That’s entertainment!”Spielberg não se tem cansado de dar entrevistas dando conta da sua crença de que não estamos sós no universo. Evitemos, porém, reduzir O Dia da Revelação a um inquérito “policial” para provar a existência de prováveis visitas de extra-terrestres. A dimensão religiosa do filme é exterior a qualquer credo particular porque, em boa verdade, decorre de um princípio rudimentar. A palavra assim nos ensina: na sua significação primeira, “religião” envolve a ideia de “ligar” e “religar” — primeiro, na vertical, a uma entidade superior; depois, horizontalmente, entre os membros de uma determinada comunidade.Daí a interrogação cinematográfica, ou melhor cinéfila, que é também um desafio filosófico: que comunidade se celebra em O Dia da Revelação? Pois bem, o próprio cinema, quer dizer, a comunidade que nasce e renasce da comunhão dos espectadores com o espectáculo. .Ao longo da sua multifacetada carreira de contador de histórias, Spielberg, brilhante artesão dos mais sofisticados recursos tecnológicos, nunca desistiu de combater a ilusão (industrial e artística) de que o espectáculo e a sua dádiva — “that’s entertainment!”, diz o refrão clássico — resultam da mera acumulação de tais recursos. Em meados de abril, na primeira acção promocional de O Dia da Revelação (na convenção CinemaCon, em Las Vegas), sublinhou mesmo duas questões vitais para o futuro do cinema: primeiro, o alargamento da presença dos filmes nas salas; depois, a urgência de contar “histórias originais” — são revelações que justificam o nosso religioso empenho.Na companhia dos extra-terrestresENCONTROS IMEDIATOS DO 3º GRAU (1977): A visita dos “aliens” a uma zona rural do estado de Indiana passa pelo olhar encantado de uma criança e, depois, pela visão de um cientista francês (interpretado por François Truffaut). O filme possui um inconfundível emblema sonoro na música de John Williams e, em particular, na série de cinco notas com que se inicia o “diálogo” com os extra-terrestres. Citação a ter em conta: a frase do cartaz — “Não estamos sós” — reaparece, agora, em O Dia da Revelação..E.T. - O EXTRA-TERRESTRE (1982): Desta vez, o extra-terrestre que, acidentalmente, perde a “boleia” da sua nave encontra um duplo no menino interpretado por Henry Thomas. De tal modo que estes novos “encontros imediatos” são, de facto, uma reinvenção de uma das mais ancestrais questões do mundo das fábulas: a que lugar pertencemos? Ou ainda: como regressar a casa? O boneco de borracha do extra-terrestre, criado por Carlo Rambaldi, é todo ele material, alheio a qualquer efeito digital..O MILAGRE DA RUA 8 (1987): Com Spielberg como produtor, eis uma variação pouco habitual das histórias com alienígenas: os protagonistas são um simpático casal de idosos (Hume Cronyn/Jessica Tandy) visitados por uma “tribo” de pequenos extra-terrestres que os ajuda a preservar o seu apartamento de Nova Iorque contra duvidosos interesses imobiliários. Matthew Robbins, o realizador, colaborara no argumento de Asfalto Quente (1974), primeira longa-metragem para cinema de Spielberg..GUERRA DOS MUNDOS (2005): Eis a excepção que confirma a regra. Isto porque, inevitavelmente, na adaptação do clássico de H. G. Wells, a visita dos extra-terrestres não é pacífica, não suscita qualquer tipo de diálogo — a guerra é o cenário destes “encontros imediatos” protagonizados por pai e filha (Tom Cruise Dakota Fanning), num cenário que não é estranho à tradição dos filmes-catástrofe. A versão final da história é de David Koepp, agora argumentista de O Dia da Revelação..SUPER 8 (2011): Se Spielberg foi o inspirador de uma nova geração de Hollywood, este é um filme sintomático disso mesmo. Com realização de J. J. Abrams, e Spielberg como responsável pela produção, a aventura dos adolescentes que filmam o descarrilamento de um comboio (com uma câmara Super 8, precisamente) evolui como uma descoberta simultânea dos extra-terrestres e dos poderes mágicos das imagens cinematográficas — como se fosse uma autobiografia do próprio produtor.