Sophie Marceau. "Senti-me muito amada em Correu Tudo Bem"

Aí está um dos "comebacks" do ano: Sophie Marceau, mágica e renovada em Correu Tudo Bem, de François Ozon, bela meditação sobre morrer com dignidade, a partir de amanhã nos cinemas. Conversa com uma verdadeira estrela do cinema europeu.

Uma star é uma star. Em França, na indústria de cinema, uma star impõe respeito e fascínio. Há cada vez menos estrelas dignas desse título...Catherine Deneuve, a rainha, Isabelle Huppert, Juliette Binoche, Isabelle Adjani, Virginie Efira, Marion Cotillard e num pedestal diferenciado a sempre "jovem" Sophie Marceau, ídolo adolescente dos anos 1980 graças à explosão La Boum e desde aí dama à parte do cinema francês, mesmo quando brilhou no oscarizado Braveheart, de Mel Gibson e foi Bond-girl vilã em 007- O Mundo Não Chega, ainda da fornada de Pierce Brosnan.

Agora é imperial no novo de François Ozon, Correu Tudo Bem, drama verídico sobre o suicídio assistido de um idoso que luta pela dignidade na hora do adeus. Marceau é a sua filha, encarregue de ajudar o pai na sua derradeira viagem. Um drama onde as nuances trágicas se confundem com a comédia de aperto no coração. Um grande filme, uma grande interpretação. Talvez por isso, a atriz esteja particularmente sorridente na ressaca da noite de estreia no Festival de Cannes. Com uma beleza serena e quase sem maquilhagem, Sophie Marceau falou ao DN sobre este filme que também fez parte da seleção do LEFFEST.

É a primeira vez que trabalha com o mais ativo cineasta francês, Francois Ozon. Vinha com alguma expectativa em concreto?
Acima de tudo, confiei muito nele. Este era um projeto perfeito para ambos. Tinha estado antes apenas com o François um par de vezes para um projeto dele que acabei por não fazer e do qual fiquei muito apaixonada. Nem quero saber porque não fui escolhida. Claro que me interessa muito o seu cinema, é um cineasta muito eclético e isso atrai-me. Gosto de surpresas. No caso deste filme, quando li o argumento fiquei muito convencida: estava muito bem escrito e sua secura era incrível - não havia ali espaço para algo piegas. Aliás, o François é alguém também muito afiado, seco e modesto, tal como a autora do livro, neste caso a personagem que interpreto. Aliás, quem vir o filme percebe que este papel é como que um presente para mim. O François ama os atores! E é de um pudor, de uma curiosidade evidentes. Foi uma bela prenda.

O que vai levar desta experiência?
A maneira como este filme foi feito em equipa, senti-me muito amada. Apesar de estar muito concentrada na personagem e no meu trabalho, consegui perceber todo esse espírito de equipa. Isso e o facto de ter um realizador que me dirigiu realmente, sentia que ele trabalhava o plano!
E o tema da eutanásia? Sabe que em Portugal a lei está em discussão? Afetou-a o tema?
Este filme não tenta ter uma posição política mas ao envolver-me com toda esta temática percebi que é importante tomarmos consciência disto tudo. Torna-se fundamental podermos refletir sobre a nossa morte e perceber que é o medo que nos torna um pouco loucos perante esta questão. Correu Tudo Bem é sobre como acompanhar aqueles que partem e pensarmos na nossa própria morte. Claro que a priori não é algo que me apeteça, enfim, pensar sobre o meu fim, mas estar perto dos que vão morrer, falar com eles e dizer-lhes que estamos a preparar tudo e vincar a nossa presença, é de uma grande utilidade: ajuda-os a irem em paz! Isso é celebrar a vida, sobretudo dos mais idosos! Diria que é um filme que deixa muitas questões no ar.

Em Cannes o filme teve uma aclamação muito bonita na sessão oficial...
Foi sim muito bonito nesta altura ter estado numa sala tão cheia! Fez-me perceber que fazemos cinema para partilhar por pessoas que amam o cinema...Foi um privilégio.

E não se torna fácil para si entender, depois de tantos anos nisto, que esta é uma das suas maiores interpretações em cinema?
Não! Acho sempre que dou sempre o meu melhor em cada trabalho! Em todas interpretações tento estar o mais próximo possível do meu desejo e daquilo que o realizador quer. Mas é ótimo para o filme que digam que é a minha melhor interpretação. A sério, mesmo para mim é ótimo ler isso. Todavia, nunca tenho essa distância para perceber se aqui estou aqui melhor do que em outros filmes. Porém, às vezes, não fico muito feliz com os meus desempenhos e, noutras, também não morro de amores pela maneira como o filme ficou montado.

Vá lá, não consegue admitir que aqui gostou de se ver?
Honestamente, não consigo. Essa distância nunca me permite ficar emocionada comigo mesma, apenas com a história.

No futuro, que tipo de papéis quer fazer?
Aí é que está: não sei. Desconheço a maneira sob a qual as pessoas projetam-me.

Gostava de arriscar mais?
Sim, isso sim. Mas tenho feito muitas primeiras obras de cineastas.


dnot@dn.pt

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