Sons de Vez, um festival de serviço público

No ano em que atinge a maioridade, o Sons de Vez é a prova que a descentralização cultural é possível, mesmo com propostas por vezes consideradas arrojadas, e com isso criar novos públicos. A edição 18 arranca este sábado, com os Dead Combo.

é conhecido como o "primeiro festival do ano", mas nem sempre foi assim, quando surgiu, há 18 anos, o Sons de Vez era um corpo estranho no panorama cultural português. Tratava-se, afinal, de festival realizado no inverno, dentro de um auditório, numa pequena vila do interior e duração de um mês. "Na altura, quando ligava para Lisboa, para agendar as bandas, ninguém sabia onde ficava Arcos de Valdevez", brinca o organizador do festival, Nuno Soares, que já então desempenhava as funções de diretor da Casa das Artes de Arcos de Valdevez. "Orgulho-me de ter ajudado a criar uma marca, Arcos de Valdevez, que hoje é conhecida em todo o país, por causa do turismo de natureza, da gastronomia e do património, mas também um bocadinho devido a este festival", sublinha o responsável, reconhecendo que apesar da realidade do concelho ter mudado muito em 18 anos, a interioridade ainda se faz sentir: "Existem mais e melhores estradas, mas as estradas que trazem pessoas de fora também levam as de cá".

À época, o objetivo "passava por engendrar um evento que atraísse pessoas de fora ao concelho e, ao mesmo tempo, apresentar aos residentes alguns artistas que, de outra forma, nunca ali atuariam". Metas mais que atingidas, num festival que, de alguma forma, acabou por mudar o paradigma da política cultural no interior. "Quando começámos, era muito improvável que algumas daquelas bandas fossem convidadas a tocar em auditórios, mas tivemos total abertura por parte da proprietária do espaço, a Câmara Municipal, que sempre nos deu total liberdade para programarmos como bem entendíamos", sustenta Nuno.

Uma decisão que acabou por fazer escola na região: "Já há outros concelhos a confiar mais nos programadores, no sentido de lhes darem liberdade de trazerem apostas mais arrojadas". Tal como sempre fez o Sons de Vez, que, "no início, era ainda mais alternativo do que é hoje". A programação, sempre feita em parceria entre Nuno Soares e José Costa, tenta sempre ser "o mais eclética possível" em termos de estilos musicais, como mais uma vez acontece este ano, com propostas que vão do heavy-metal ao fado. "Há sempre umas noites que sabemos de antemão que vão encher, como este ano com os Dead Combo, os Capitão Fausto ou a Carminho, mas pretendemos sempre dar a conhecer algo novo ao nosso público".

Ao longo destas dezoito edições foram muitos os artistas que o Sons de Vez viu crescer. Gente como Marta Ren, que se apresentou pela primeira vez no Sons de Vez "ainda como vocalista da banda Sloppy Joe"; Os próprios Dead Combo, uns dos cabeças-de-cartaz deste ano, cuja estreia, em 2006, "coincidiu com o lançamento do segundo álbum" do duo; Ou até mesmo, no ano seguinte, os Moonspell, com um concerto que serviu de apresentação a Memorial, "o álbum que os fez explodir em Portugal", quando já eram uma banda de bastante sucesso no estrangeiro. "Veio gente da Alemanha e da Holanda de propósito, que acabou por pernoitar na vila, só para assistir a esse concerto", recorda Nuno.

E se dúvidas houvesse do acerto da decisão, os números falam por si: Em 18 edições do festival já passaram pela Casa das Artes mais de 22 mil pessoas e quase 200 artistas, apesar da lotação ser apenas de 232 lugares. "Esse intimismo é um dos principais trunfos deste festival, tanto para o público como para os artistas", defende o programador, dando exemplos como os de Paulo Furtado, nome recorrente no festival, que passa os concertos a trocar piropos com as filas da frente, ou de Jorge Palma, quando este trocou de lugar com uma rapariga do público - "ela foi para o piano, tocar a Menina do Mar, e ele sentou-se na plateia, a ouvi-la". E no final dos espetáculos, é comum encontrarem-se todos no bar da Casa das Artes. "Consegue-se quebrar aquela distância que quase sempre existe nos concertos", diz Nuno, para quem "esta informalidade também faz parte da identidade do festival". O Sons de Vez começa já amanhã, com um concerto já esgotado dos Dead Combo e prolonga-se até ao dia 28 de março, sempre ao sábado e com o início dos espetáculos marcado para as 23 horas.

SONS DE VEZ


Casa das Artes de Arcos de Valdevez, 8 de fevereiro a 28 de março
Dead Combo. 8 fev. €15
D´Alva. 15 fev. €5
Pedro e os Lobos. 22 fev. €5
Capitão Fausto. 29 fev. €10
Maria João Fura + Omiri. 7 mar. €5
Reckham + Paus. 14 mar. €8
Nó Cego + Tarantula. 21 mar. €5
Carminho. 28 mar. €15

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