A obra do padre António Vieira representa para o historiador José Eduardo Franco uma visão abrangente dos portugueses.
A obra do padre António Vieira representa para o historiador José Eduardo Franco uma visão abrangente dos portugueses.

Sobre o vício português da inveja

O historiador José Eduardo Franco, grande conhecedor da obra do padre António Vieira, recupera as opiniões do religioso sobre um dos males nacionais. Com prefácio de Rui Tavares.  
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O título do mais recente ensaio do investigador José Eduardo Franco, A inveja é o vício de Portugal, vem diretamente da obra do padre António Vieira, da passagem em que o religioso formulou tal opinião nesses termos: “[a inveja] é vício da nação portuguesa”. No entanto, as duzentas páginas que retratam o pensamento e o legado de Vieira não se ocupam apenas desse “vício” nacional que desde há séculos atrofia quase todos os portugueses, antes vai mais longe na radiografia que realiza do mestre humanista que em muito tem marcado o investigador. Como refere: “Há três décadas que o estudo e foi o tema da minha primeira tese, por sugestão de um professor. Considerava Vieira um autor difícil e resisti inicialmente porque o achava um monstro sagrado e inacessível. Contudo, ao entrar naquele mundo, foi impossível largá-lo após ter a visão de quanto era abrangente”.

O historiador foi um dos responsáveis pela publicação em trinta volumes da obra completa do padre António Vieira, um empreendimento editorial (Círculo dos Leitores) que contou com quinze tentativas fracassadas anteriores, tendo, como diz, aumentado a perceção da obra: “Ao ler toda a obra, percebi ainda melhor a sua riqueza extraordinária e confirmei a razão de uma admiração nacional e internacional que muitos têm. Vale a pena lembrar que nos anos 1970 existiu uma associação de vieiristas na Alemanha, bem como de várias instituições a ele dedicadas noutros países. Desde então, nunca mais larguei Vieira, até porque há sempre um tema qualquer que trato e constato que ele já o abordou de alguma maneira”.

Essa é também uma das razões para a escolha das epígrafes do livro: um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen e uma citação de José Saramago. Justifica: “Vieira tornou-se uma verdadeira escola de língua, de bem falar, bem escrever e bem pensar. Daí que muitos escritores se tenham tornado discípulos de Vieira, como é o caso do mais insuspeito, José Saramago, que considerava que a língua portuguesa nunca foi tão bela como quando falada por este jesuíta. Até diz num dos Cadernos de Lanzarote que muitas vezes quando queria inspirar-se regressava aos textos de Vieira, nomeadamente aos sermões.”

O historiador José Eduardo Franco.
O historiador José Eduardo Franco.Foto: D.R.

José Eduardo Franco acrescenta no que respeita aos escritores: “É impossível não referir Agostinho da Silva, Miguel Torga, Vergílio Ferreira e, principalmente, Fernando Pessoa. Foi o poeta que o elevou ao estatuto de imperador da Língua Portuguesa no seu livro Mensagem, e até refere no Livro do Desassossego que foi Vieira que o converteu à língua portuguesa, visto que a sua formação era a língua inglesa da África do Sul, e que o fez dizer «A minha pátria é a língua portuguesa». Ou seja, tornou-se uma espécie de mestre dos grandes autores até hoje.”

Quanto ao “vício” nacional da inveja, o historiador recorre ao exemplo de vários estrangeiros que confirmam esta situação, pois afirmam exaltar mais as realizações portuguesas do que os próprios habitantes do país. Qual a razão para os portugueses se valorizarem tão pouco e desde sempre é a questão que se põe ao investigador. Responde: “É uma situação que já vem de trás, pois já em 1536 Fernando Oliveira o dizia e Vieira é da mesma opinião dois séculos depois e irá desenvolver esse tópico com muito mais profundidade. Oliveira dizia que os portugueses eram pouco diligentes em estabelecer por escrito a memória dos nossos feitos, o que nos tornava invisíveis. Vieira referia que o português não tem amor próprio e só o que vinha de fora é que era bom.”

Uma situação que tem a ver com o título que José Eduardo Franco escolheu e que também fez de Vieira uma vítima, como explica: “Ele próprio foi muito invejado, criticado e atacado. Desde logo pela Inquisição por defender reformas importantes e, se houve um período em que foi protegido por D. João IV, após a morte do rei a governação já não foi tão favorável a Vieira, tendo caído em desgraça e sido vítima de rancores e de inveja. Em essência, Vieira era também um psicólogo e, tal como Eduardo Lourenço fez a psicanálise do povo português em O Labirinto da Saudade (1978), ele já tinha feito isso no século XVII nos sermões, nas cartas e em tudo o mais. Ou seja, considerava que a inveja é um ato da humanidade, mas em Portugal revelava-se de forma mais forte. Distinguia a inveja boa da inveja má, no entanto para Vieira a que vingava mais em Portugal era a inveja má e não a inveja boa.”

Ao escolher este ângulo para o novo livro, estará o historiador a refletir sobre o estado em que o país se encontra? A resposta é curta: “Exatamente”. Elabora a realidade: “Era minha intenção publicar este livro há algum tempo porque todos passamos por isto em Portugal. Sempre que alguém tenta fazer uma obra grande, vêm logo as vozes da derrota a tentar abatê-la. É uma situação muito recorrente, além de um constante pessimismo. Que se revê facilmente no mundo da política, no das relações familiares, no das relações académicas e profissionais, ou seja, a inveja está disseminada por todo o lado. Vieira já o dizia no seu tempo e, creio que ainda hoje o sentimos na pele. Daí que publicar este livro tenha uma intenção: olharmos para nós e sentir necessidade de repensar a sociedade.”

Uma certeza indiscutível é que Vieira era muito eloquente na palavra, situação de que estamos muito longe tal a mediocridade na prática da língua portuguesa. Seria hoje ouvido com prazer? O historiador defende que “deve ser lido e ouvido, de forma que inspire a mudança sobre o que de errado acontece em cada tempo.”

Se se quiser apontar um “desvio” do bom caminho na obra do padre António Vieira, o dedo inclina-se sempre para a sua reflexão sobre o Quinto Império nos livros História do Futuro e Clavis Prophetarum, de carácter profético e messiânico. José Eduardo Franco concorda que foram textos muito polémicos ao longo dos últimos séculos mas essa é uma crise que “já foi resolvida”. Explica: “Até dentro da própria Companhia de Jesus, Vieira era muito valorizado pelos sermões e a retórica, mas não no caso desses dois volumes, considerados delirantes e sem interesse. O que aconteceu foi que durante muitos séculos desvalorizou-se a parte da obra em que pensou o futuro da humanidade, do mundo e de Portugal, a partir da utopia do Quinto Império. No entanto, a partir da segunda metade do século XX dá-se um movimento de valorização do pensamento utópico e, tal como Ernst Bloch, Mircea Eliade e Lévi-Strauss, os utopistas deixaram de ser pessoas delirantes ou paranóicas como se dizia de Vieira nesse aspeto, e passam a ser vistos como pensadores que conseguem ver mais além e antecipam futuros alternativos que se concretizaram ou não, contudo são importantes para projetar uma humanidade diferente e melhor. A crítica negativa a Vieira, em muito devido a Teófilo Braga, é substituída por uma excecional valorização por estudiosos como Lucian Boia ou Raymond Cantel, bem como António José Saraiva, e Cantel até considera que Vieira foi dos pensadores utópicos mais extraordinários da Europa na época moderna e dos mais generosos porque defendia uma utopia inclusiva e não uma refundação seletiva como Campanella ou Thomas More. A Segurança Social e as Nações Unidas são ideias já existentes nessas obras de Vieira.”

A INVEJA É O VÍCIO DE PORTUGAL

José Eduardo Franco

Temas e Debates

231 páginas

Diário de Notícias
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