Sinais de fogo vindos da Galiza  

Galardoado com o Prémio do Júri Un Certain Regard em Cannes, O Que Arde chega às salas portuguesas quase como um "filme da época", mas a sua conotação incendiária é muito mais coisa de cinema do que tema sazonal.

A primeira longa-metragem do franco-galego Oliver Laxe (n.1982) a ter entrada no circuito português, depois da antestreia no LEFFEST, é um objeto delicado que cresce dentro de linhas minimais. Apenas isto: um homem condenado por fogo posto sai da prisão e faz o caminho de volta para casa da sua velha mãe, no alto das montanhas da Galiza, retomando com ela uma vivência rural quase extinta. O Que Arde, título distinguido em Cannes e nos Goya, observa a quietude dessa existência bucólica, os silêncios e diálogos curtos, para assentar na paisagem natural e deixar que esta fale por si. Pouco sabemos sobre o homem, Amador, ou sobre a mãe, Benedicta, mas a sua interação formosamente árida é a génese de um filme toldado pela ameaça latente de um incêndio, ainda na memória de outro que devastou a província.

O próprio realizador faz aqui o caminho de volta à terra dos seus pais, onde passou grande parte da infância e adolescência, e retira desse vínculo íntimo com a Galiza uma expressão dura; tanto a dureza que diz respeito à vida no campo, como aquela que está espelhada no rosto do protagonista, de olhos tristes, escuros, com segredos e prenúncios. A aldeia não poupa no burburinho em torno do seu regresso, e perto de casa estão a remodelar uma habitação para fins de lazer. O discurso "moderno" do potencial turístico da região começa a invadir um quotidiano de hábitos "antigos", ligado aos animais e à horta, e parece ser nesse discreto antagonismo que Laxe coloca o fósforo.

Tudo nos dias de Amador, que se limita a andar pelas montanhas para pastar as vacas, se afigura névoa de fumo, acompanhada pelo lirismo de uma cirúrgica banda sonora - entre a ária Cum Dederit, do Nisi Dominus de Vivaldi, e o tema Suzanne, de Leonard Cohen - que eleva o despojamento do retrato rústico.

Num dos momentos perfeitos deste belíssimo filme, mãe e filho estão sentados a olhar para os eucaliptos, numa tarde abrasadora, enquanto ela come um pedaço de pão e ele lhe fala sobre essas árvores cujas raízes sugam a água e estrangulam as espécies à volta. Benedicta apenas comenta: "Se elas fazem sofrer as outras é porque também sofrem". E talvez nesta frase tão simples, que humaniza uma planta lenhosa, esteja contida a tal aspereza lírica de O Que Arde. Oliver Laxe não está à procura de uma agulha moral nem de uma ilustração compacta da questão dos incêndios na Galiza, é antes movido por uma interrogação sobre o mundo rural e pelo mistério do fogo que se conjuga com a sabedoria da natureza. A sensibilidade da sua abordagem agarra-se a pouco mais do que os tons do verde envolvente, luz e sombra e a combustão lenta da narrativa, que se apresenta ténue.

Quando as chamas vêm a sério, há quem não queira largar a sua casa, perante a insistência dos bombeiros - uma imagem que o espetador já tem bem presente através das televisões. Mas aqui o labor indomável do fogo impõe reverência à câmara. Não há quase nada que lhe resista. Somente o amor estóico de uma mãe pelo seu filho.

*** Bom

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