Serge Daney. Biografia de um cinéfilo

No contexto do ciclo "Folheando Serge Daney" (cinema Medeia Nimas, Lisboa), será apresentado o livro Perseverança, uma longa entrevista com Serge Toubiana, onde o crítico francês se autorretrata através da cinefilia. Leitura vital e íntima, lúcida e romântica, com posfácio de um amigo: Paulo Branco.

Depois de O Cinema que Faz Escrever, lançado em 2015 pela Angelus Novus, livro que marcou o nosso primeiro encontro com os textos críticos de Serge Daney (1944-1992) numa tradução portuguesa, Perseverança renova agora a possibilidade de se chegar ainda mais próximo de uma das vozes fundamentais da crítica de cinema do século XX. Com a chancela The Stone and The Plot (a mesma editora que nos deu Ozu, de Donald Richie), este livro, composto essencialmente por uma grande entrevista conduzida por Serge Toubiana, é o mais íntimo que o leitor pode ficar de Daney, participando da sua idiossincrática paixão pelo cinema. Como dá conta Toubiana no prefácio, trata-se da história da vida de um cinéfilo "cuja cine-biografia estava a chegar ao fim." Gravaram as conversas em fevereiro de 1992; Daney morreria em junho, com sida.

Tal como em O Cinema que Faz Escrever, o texto que aqui antecede a entrevista é O travelling de Kapò (menção à famosa denúncia que Jacques Rivette fez, em 1961, do filme de Gillo Pontecorvo), um artigo absolutamente indispensável para se entrar na narrativa pessoal e na visão do crítico francês, porque funciona como um guia das origens deste cinéfilo. Foi o seu último texto para a revista Trafic, e deveria ser o primeiro capítulo de um livro que Daney tencionava escrever sobre o seu percurso de cinefilia. Consta que até o título fora escolhido: Perseverança...

O objeto que agora nos chega (ao mesmo tempo da tradução nos Estados Unidos), originalmente publicado em 1994, acabou então por responder à necessidade que o crítico tinha de deixar um testemunho; razão pela qual o amigo Toubiana recuperou o título que seria do gosto do próprio. E o certo é que, ao lermos Perseverança, a configuração desse testemunho tem menos que ver com um discurso oral espontâneo do que com um pensamento infalível e estruturado. A sensação é que Daney fala, longamente, como quem escreve - por vezes parece até que as perguntas de Toubiana se perdem no meio de uma torrente de palavras cuja clareza de raciocínio e romantismo cinéfilo (nunca nostálgico) organizam uma experiência íntima e irrepetível, com definições modelares, daquelas que apetece citar a torto e a direito. Por exemplo: "O cinéfilo não é aquele que ama e copia na vida os objetos e atitudes que amou pela primeira vez no ecrã. É, simultaneamente, mais modesto e infinitamente mais orgulhoso: o que ele pede aos filmes é que perdurem enquanto filmes."

Nas páginas de Perseverança deparamos com o rapazinho que cresceu rodeado de mulheres (a mãe solteira, a avó e uma tia) e que procurou no cinema a figura lendária do pai ausente; o bom aluno; o viajante crónico; o grande apreciador de jazz, ténis e Mizoguchi; o crítico dos Cahiers du Cinéma (cujos destinos dirigiu entre 1973 e 1979), que passou para o jornal Libération e, um ano antes de morrer, fundou a revista Trafic; o espectador que se punha do lado das personagens secundárias, os "losers" dos filmes franceses, e que inclusive sentia um profundo mal-estar por ser francês. A sua homossexualidade, aqui exposta sem filtros, torna-se aliás uma forma de chegar a alguns temas curiosos, como seja a fealdade física de alguns atores franceses, por oposição aos americanos: "Não havia nada para mim naquele rebanho francês; nada que assinalasse o desejo. (...) Bastava ver Cary Grant, James Stewart, Robert Ryan ou Henry Fonda nos anos cinquenta, com os seus cabelos platinados, para saber que era ali que estava o charme e a sedução, que ali nascia o desejo de ser raptado. Ainda hoje é possível viver isto entre cinéfilos: fala-se dos atores de que se gosta, dos que não se gosta (...). Posso dizer que, mitologicamente, os meus pais cinéfilos não são franceses."

No fim, a cinefilia era tudo, e a vida confundia-se com outra narrativa maior ("digo a mim próprio que tenho a idade do cinema moderno, um pouco menos de cinquenta anos, ainda. E que não envelheceremos juntos"). Mas é também o olhar sobre a cultura, o comunismo, a televisão e o estado do "país do Cinema" que nos atira para reflexões verdadeiramente lúcidas e independentes - independência, por sinal, a característica de Serge Daney que vemos o produtor Paulo Branco sublinhar no seu posfácio sobre esta personalidade com quem privou nos anos 1970 em Paris.

Perseverança será apresentado no cinema Medeia Nimas, em Lisboa, numa data a definir, no âmbito do ciclo "Folheando Serge Daney".

dnot@dn.pt

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