Sean Penn e Bono vão à guerra

Dois documentários muito mediáticos no Festival de Berlim. Sean Penn a querer ser herói ao lado de Zelensky em <em>Superpower </em>e Bono, dos U2, a recordar a libertação de Sarajevo em <em>Kiss the Future</em>. Ontem no Forum foi ainda a vez de <em>Cidade Rabat,</em> filme de maturidade íntima de Susana Nobre.
Publicado a
Atualizado a

Já foi bad-boy, símbolo sexual, cineasta com potencial, ator de excelência e agora é sobretudo um ativista. Sean Penn, ajudado pelo realizador Aaron Kaufman, foi à Ucrânia fazer um documentário sobre um povo e a democracia e apanhou o começo da invasão de Putin. Superpower é por estes dias o filme mais mediático do Festival de Berlim, mesmo que esteja fora-de-competição. E percebe-se: está do lado de um especial televisivo, muito mais do que do cinema.

O que vemos é sobretudo uma agitação com câmara ao ombro, muitos desfoques e aparato. O resto é o que se sabe: a história de uma invasão e da resistência de um povo. Para quem acompanha há um ano esta guerra, Superpower não traz nada de novo. Penn é a estrela, de capacete, colete anti-balas, quase sempre a fumar e com cara de sono. Podia assumir a ego-trip mas tenta em vão disfarçar: o filme parece ser uma ação de Relações Públicas para o seu lado de ativista nobre e de bom americano. O homem parece querer um Nobel e endeusa o presidente Zelensky, visto aqui como "ser humano tremendo", ou seja, um santo que unificou um país. Diria até que este tipo de propaganda é tudo o que não interessa aos interesses da Ucrânia, ou seja, um lado educativo e bem intencionado que soa a demagogia pura e em que Sean Penn está na linha da frente a 150 metros do inimigo para provar que é corajoso e brinca com o facto de estar armado com uma faca. Uma colagem ao espírito dos documentários radicais da Vice, onde a câmara quer ser jovem à viva força e publicitar uma vibração de "perigo".

Ontem na conferência de imprensa, Penn apresentava-se algo rabugento, ele que precisamente recusou muitas entrevistas. Superpower talvez até tenha validade para abrir os olhos de quem possa subestimar a importância do atentado ao símbolo da democracia que é este ataque de Putin à Ucrânia, mesmo quando só apresenta o olhar ocidental. Do ponto de vista cinematográfico tem realmente muito poucas ideias, desperdiçando a possibilidade de ser um filme sobre um filme que Sean Penn quis fazer.

Também fora da competição, Kiss the Future, de Nenad Cicin-Sain, olhar documental sobre as memórias do cerco de Sarajevo a partir do olhar do ativista Bill Carter e a forma como conseguiu sensibilizar os U2 para a questão do massacre sérvio na Guerra dos Balcãs. Longe de ser um demonstrativo de vaidade da banda irlandesa, é um documento sério sobre o que se passou em Sarajevo e a forma como uma comunidade de artistas resistiu através da música e das artes. Documentário do lado do rock e do punk que resiste aos primeiros minutos demasiado didáticos e se transforma depois numa celebração emocional do poder da música. É claro que importa gostar dos U2 e não ter pé atrás com o papel de Bono Vox na vontade de partilhar um rasgo de esperança e saudar os bósnios durante e depois do pesadelo do cerco. Por certo, é realmente comovente a forma como Bono se recorda do mítico concerto dos U2 logo após o cessar fogo e o lado de ativismo durante a tour Zoo Tv. Aliás, torna-se mesmo obrigatório ver o momento em que o vocalista perde a voz de emoção no famoso concerto que uniu um povo. Precisamente o oposto da ida à guerra de Sean Penn.

Felizmente, na variedade está o ganho e no Fórum o melhor cinema português teve a visão de Susana Nobre, que, depois de No Táxi do Jack, empenha-se de cabeça num filme todo escrito e planeado. Cidade Rabat é a história de Helena, uma mulher a resistir ao luto da morte da mãe e de uma solidão que a faz cometer erros. Um pequeno grande manual sobre a vida de adulto numa Lisboa com os tempos dramáticos certos.

Mais uma vez, Susana Nobre a filmar com um charme discreto uma ideia sempre próxima de um real nada empolado. Talvez se possa usar a palavra orgânico, inclusive na direção de atores, onde há uma Raquel Castro de um rigor desconcertante, porventura a compor uma versão da própria realizadora. Cidade Rabat é uma epopeia íntima que pede para ser tratado com cuidado, muito cuidado, por quem o queira ver...

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt