Longe, a 5,9 mil milhões de Km de distância da Terra, a sonda espacial Voyager 1 recebeu uma ordem proveniente de casa: apontar a lente focal de alta resolução da câmara fotográfica e captar uma definitiva e completa imagem do planeta mãe. Daí resultou um ponto, não mais do que um pixel numa foto enxameada por centenas de milhares de pixels. Pouco depois, naquele 14 de fevereiro de 1990, a sonda desligou as câmaras e rumou aos limites do Sistema Solar. A série de imagens com o nome Retrato de Família, tem na fotografia final da Voyager 1 o exemplar mais famoso. Um Pálido Ponto Azul (no original, Pale Blue Dot) fez-se uma espécie de ícone da nossa era. Um ponto tão ínfimo como frágil, como recordaria mais tarde o astrónomo e divulgador científico americano Carl Sagan na conferência que proferiu na Universidade de Cornell, em Nova Iorque, a 13 de outubro de 1994: "a Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica". Nesse mesmo ano, Sagan, nascido em 1934 e falecido em 1996, apresentava o livro Pale Blue Dot (Pálido Ponto Azul), hoje um clássico da astronomia, uma obra que se detém sobre o tempo e o espaço, traça a história do Homem, a sua epopeia no Cosmos e a perspetiva de um futuro em que a exploração e eventual colonização de outros mundos não é um cenário capturado à ficção científica. Carl Sagan, professor de Astronomia e Ciências Espaciais, olhou para esse devir e viu-o como uma condição necessária para a sobrevivência humana..A obra, agora publicada pela Crítica (chancela da editora Planeta) e renomeada Um Ponto Azul-Claro, contou com revisão e tradução do astrofísico português João Calhau, doutorado pela Universidade de Lancaster e investigador, "atualmente entre projetos. O que significa que terminei o meu contrato de investigador pós-doutorado que exercia no Instituto de Astrofísica das Canárias e estou presentemente no ciclo de candidaturas a outras posições que me permitam praticar investigação", adianta o cientista sem descartar que "permaneço aberto à hipótese de vir a trabalhar na indústria"..Ao homem que passou os últimos meses embrenhado na escrita de Sagan, cuidando de atualizar a informação, sem perder o norte ao original, pedimos um exercício de contenção, o de em poucas palavras encontrar a natureza desta obra: "é uma viagem. Uma viagem no Espaço. Pelo Universo, pelo Sistema Solar. Mas é também uma viagem pela nossa existência enquanto espécie. Uma viagem no Tempo. Uma descoberta ou redescoberta da nossa evolução, uma análise do que mudou na nossa maneira de pensar, de ver o mundo. E em como isso influenciou a nossa relação com o Cosmos. Vejo-o como uma aventura", resume. Uma aventura que, na escrita e tradução de João Calhau ganhou um novo título: Um Ponto Azul-Claro. Houve uma intenção nesta subtileza de palavras? Responde João Calhau: "foi principalmente uma questão de clareza, de linguagem. Embora uma tradução mais literal fosse mais diretamente ao encontro da mensagem da obra, em termos de expressão na língua portuguesa, não é comum utilizarmos a expressão "pálida" para nos referirmos a um tom de cor. A especificação de uma cor ser "clara" pareceu-nos mais normal na utilização do dia a dia e, depois de uma discussão acerca do assunto com a editora, foi a razão principal por detrás da escolha"..Carl Sagan, autor entre outras obras de Cosmos e Os Dragões do Éden, escreveu o seu Pale Blue Dot em 1994. Volvidos perto de 30 anos sobre o lançamento da obra, João Calhau olha-a como "uma abordagem bastante atual. A mensagem de Carl Sagan continua tão urgente e pertinente agora como na época. Deprimentemente, não parecemos ter prestado atenção aos avisos de Carl Sagan e de todos os outros cientistas seus contemporâneos. E agora encontramo-nos numa situação ainda mais precária do que na altura da publicação original. Diria mesmo que a mensagem é ainda mais relevante agora que no passado", enfatiza o astrofísico para acrescentar: "Carl Sagan adota uma abordagem humanista, de certa forma. Utiliza a evolução da espécie humana e da nossa sociedade e explora-a em relação ao Universo. Aborda a nossa condição enquanto humanos, a nossa curiosidade natural, a nossa sede de conhecimento, as nossas qualidades. Mas também os nossos defeitos, os nossos erros e como a ciência, a exploração espacial, o nosso entendimento do Universo, nos podem ajudar a sair deste buraco onde nos parecemos ter enfiado"..O livro abre com a viagem da Voyager 1 e a fotografia que tirou da Terra. Há momentos que mudam os nossos desígnios e a forma como encaramos o que nos rodeia. Esta foto de um planeta frágil, suspenso no vácuo, mudou a nossa perspetiva enquanto humanos? "De certa forma acredito que sim. E de certa forma não, em diversos níveis. O grande valor da fotografia foi o de colocar a nossa existência numa perspetiva relativa à imensidão e, de certa forma, frieza, do Universo. Não somos especiais, não somos importantes, à escala cósmica. Se desaparecermos amanhã, seja por uma catástrofe natural ou pela nossa própria mão, o Cosmos e a Natureza não se importarão com isso. Deixa uma impressão um pouco constrangedora. Mas ao mesmo tempo também pode ser, de certa forma, libertadora. Se não somos importantes, se não temos um propósito designado, fixo, somos livres de encontrar o nosso caminho no Universo. Mas também acredito que isto é algo que, no nosso íntimo, já sabemos. Portanto alterou a nossa perspetiva, de certa forma, mas também se limitou a confirmar o que já suspeitávamos".."Sou atormentado por uma necessidade eterna de coisas remotas. Adoro navegar os mares proibidos", escreve Sagan em Um Ponto Azul-Claro, ao citar Herman Melville em Moby Dick. Sagan aproveita o primeiro capítulo do seu livro para reforçar esta natureza andarilha dos humanos e di-los vagabundos. Porquê vagabundos? "Porque deambular de um lado para o outro está-nos muito literalmente no sangue. No ADN. Começámos como caçadores-coletores, viajantes que se instalavam num local, durante algum tempo, e se mudavam depois para melhores paragens, quando a vida o requeria. Os seres humanos não começaram a sua existência como seres sedentários. Mas mais do que vagabundos, sem a conotação social negativa que por vezes se associa com a palavra, penso que Carl Sagan nos identifica como exploradores, descobridores, como possuindo aquela faísca de curiosidade e sede de descoberta que até é muito característica dos Portugueses"..Carl Sagan afirma que o nosso mundo e a nossa espécie são centrais ao propósito e funcionamento do Cosmos. Como astrofísico, João Calhau vê nestas palavras uma evidência: "tanto quanto sabemos somos a única espécie inteligente em existência no Universo. Poderá haver outros seres inteligentes lá fora, mas, até agora, não temos prova, não temos certeza da sua existência. Mas a nossa inteligência, a nossa curiosidade, leva-nos a explorar o desconhecido, a tentar compreender o mundo que nos rodeia. E somos feitos de matéria estelar, a Terra, o Sol, todos nós seres humanos, plantas e animais, somos formados por átomos que tiveram a sua origem no início do Universo, com o Big Bang, e foram depois utilizados pelas estrelas para formar os elementos da tabela periódica que nos compõem. De certa forma, quando olhamos para o mundo à nossa volta, o tentamos compreender e explorar, é como se o Universo se estivesse a olhar a um espelho. Como o próprio Sagan disse: "Nós somos uma maneira de o Universo se conhecer a si próprio""..As palavras de Sagan no desfilar do seu Um Ponto Azul-Claro não se contêm somente a uma abordagem abonatória para com a humanidade. Também nos diz: "A Terra é um palco muito pequeno numa vasta arena cósmica" e acrescenta "não somos os atores principais do teatro cósmico". O livro é também uma lição de humildade? "Sem dúvida. Diria mesmo que é uma das mensagens principais. Existe uma certa arrogância enquanto seres humanos que tende a manifestar-se da pior das formas, no que respeita à nossa relação com o mundo que nos rodeia: ficamos com tendência a só considerar as perspetivas a curto-termo e a ignorar as consequências que as nossas decisões nos forçam a suportar a longo-termo. Basta olharmos para a situação da alteração climática e do aquecimento global. A utilização de combustíveis fósseis ao invés de fontes de energia sustentáveis já atualmente bem viáveis, simplesmente para suportar um aumento de capital imediato nas empresas que exploram essas áreas. É insustentável. É arrogante. É preciso que aprendamos essa lição"..Ao situar-nos no Universo, Sagan sublinha que este não foi feito para nós. "Basta olharmos lá para fora. Para além do nosso "quintal", desta creche a que chamamos Terra, o Universo é um local bastante hostil. Não apenas para nós, humanos, como para praticamente todos os tipos de vida que conhecemos. Radiação letal, temperaturas congelantes ou "fritantes", pressões esmagadoras ou vazios explosivos, não estamos preparados para sobreviver na maioria dos ambientes comuns ao Universo. Se o Cosmos fosse um local feito à medida dos seres humanos, não necessitaríamos de foguetões ou fatos especializados para viajarmos até à Lua. E é também um reforçar da mensagem inerente ao título da obra. Mas creio que o melhor a fazer para entender o que Sagan nos quer dizer será mesmo ler a obra", adianta o astrofísico..Em certo momento o autor escreve: "somos geocentristas desmontados, a esconder-se por detrás de uma aparência copernicana". Haverá um certo narcisismo na humanidade? perguntamos a João Calhau: "creio que sim. Mais uma vez, basta olhar para como abordamos a nossa relação com os recursos do Planeta. Raramente se pensa nas consequências a longo prazo, é sempre em termos do que nos beneficia agora e a nós pessoalmente. Ou então para as religiões atualmente vigentes no mundo, principalmente no Ocidente, como o Cristianismo: o ser humano é criado para reinar sobre os outros animais, somos feitos à imagem de um ser perfeito e omnipotente, somos o centro do Universo, e por aí fora"..Sagan é crítico em relação à forma como estamos a cuidar da nossa casa comum. No capítulo cinco detém-se na questão "Existirá vida inteligente na Terra?", o que podemos ler como uma descrença do autor na nossa capacidade coletiva de invertermos o sentido no caminho rumo ao abismo. Sobre a questão refere João Calhau que "não creio que se trate de descrença, e acho que Carl Sagan explora isso bem melhor, no livro. Penso que se trata mais de alarme. Sagan sempre foi um crente na humanidade, na nossa capacidade de, apesar de cometermos erros, corrigirmos as nossas falhas, sermos capazes de ver o melhor nas pessoas à nossa volta, de atuarmos de acordo com essas qualidades positivas. Mas é sem dúvida um aviso. Por muito que se seja positivo no que respeita à nossa existência enquanto humanos, por muito que possamos corrigir os nossos erros, urge que o façamos com rapidez e competência, porque o Tempo, o Universo, não espera por ninguém e estamos mesmo à beira do abismo. É melhor mudar de direção"..Um Ponto Azul-Claro é também um desafio, o de olharmos para o futuro e a encontrar no Cosmos o eventual destino da humanidade. Sagan diz mesmo que "a exploração planetária continuará a ser um investimento soberbo". Como astrofísico, João Calhau vê "a exploração espacial e do Universo como algo que sempre terá retorno face ao investimento, incluindo monetários, quando consideramos a possibilidade de aspetos como a prospeção de asteroides ou a possível terraformação de outros mundos. Mas penso que o grande valor da exploração planetária, mais do que a vertente económica, é a maneira como esta melhora a nossa compreensão do mundo que nos rodeia, nos permite aprender e nos avisa dos perigos inerentes às nossas ações. Vai mais longe do que apenas uma questão de investimento: é uma mais-valia só pelo que representa em termos do que podemos aprender e da nossa sobrevivência"..Na sua última entrevista, em maio de 1996, Sagan afirmou que "organizámos uma sociedade baseada na ciência e na tecnologia, na qual ninguém entende nada sobre ciência e tecnologia, e esta mistura combustível de ignorância e poder, mais cedo ou mais tarde, vai explodir na nossa cara". Passarem quase três décadas. Como cientista tende a subscrever as palavras de Sagan? é a pergunta final que deixamos a João Calhau. "Sim, em grande parte. Embora ache importante sublinhar e deixar claro que o problema não é devido à população. Regra geral as pessoas demonstram-se interessadas e acredito que todos desejamos aprender sobre assuntos que nos interessa. Isso é especialmente claro no que respeita a Astronomia. Lembro-me que os antigos eventos da Astronomia no verão atraiam todos os anos as pessoas ao descampado, à praia, onde quer que o profissional fosse, para fazerem perguntas, aprender e apreciar a beleza do Universo pelo telescópio. O facto de tais eventos já não existirem é uma expressão clara do problema. Mas com as novas tecnologias é mais fácil as pessoas ligarem-se umas às outras e com isso vem o bom e o mau. Por um lado, a informação e temas para aprendizagem, lazer, e relacionamento interpessoal estão-nos muito próximos, principalmente com o advento da Internet. Mas com essa facilidade de dispersão de informação vem o reverso da moeda: é também mais fácil espalhar boatos sem fundamento, espalhar desinformação e, em casos mais extremos, medo. Incentivar o extremismo. Uma população bem informada consegue filtrar todos os dados que lhe chegam e separar de modo informado os factos dos boatos", enfatiza o astrofísico, para acrescentar que "uma sociedade que saiba como a tecnologia e a ciência funcionam consegue compreender o que se pode atingir com elas bem como as limitações e problemas inerentes à sua utilização. E isso leva naturalmente a um melhoramento da nossa condição enquanto população, enquanto sociedade. Por isso, como Sagan, defendo a educação da população, tecnológica e cientificamente. É necessário os governos, de todos os países, investirem eficaz e consistentemente na literacia científica da população. Mas não só: nós, os cientistas, temos também o dever, a obrigação de divulgar as descobertas, explicá-las de forma clara e compreensível, de ajudar na educação de todos nós".