San Sebastián gelou com os dentes de vidro de Earwig

Louis Garrel desfilou charme francês em San Sebastián, mas o festival teve a sua primeira desilusão Earwig, de Lucile Hadzihalovic, terror armado ao pingarelho.

Se nas ruas da cidade velha há copofonia até às tantas e multidões sem máscara, dentro das salas continua o respeito máximo pelas regras sanitárias. É como se o cinema fosse o templo de proteção derradeiro e lá fora das salas, na vida real, o caos estivesse instalado.

Pela passadeira vermelha, o festival faz tudo como deve de ser, chegando mesmo a anunciar que a carpete da respetiva passadeira será alvo de reciclagem. A mesma carpete que não pára de receber estrelas, de Antonio Banderas a Penelope Cruz, passando por Vincent Lindon, Luis Tosar e Louis Garrel, este último para apresentar La Croisade, filme realizado e protagonizado por si, uma mensagem ecológica em formato de "filme juvenil".

O ídolo francês anunciou que vai estar em Sintra para o Leffest e num encontro para a imprensa aproveitou para garantir que esta geração de miúdos que segue o combate ativista de Greta Thunberg tem muito maior sentido de responsabilidade social que a sua. La Croisade passou na secção Pérolas e é uma pequena pérola de engenho narrativo, uma hora e pouco de cinema genuinamente interventivo com poder de fantasia, um romanesco fresquíssimo e uma homenagem a Goonies.

La Croisade é uma pequena pérola de engenho narrativo, uma hora e pouco de cinema genuinamente interventivo com poder de fantasia.

Se as sessões estão sempre esgotadíssimas mas com a cadeira do lado vazia, a receção a Earwig, de Lucile Hadzihalovic, na competição oficial, foi das mais frias que em muitos anos por aqui se viu. Não deixa de ser espantoso perceber que o público tão hospitaleiro da gigante sala Kursall tenha estado tão silencioso no final da sessão, mesmo quando a apresentadora pediu um forte aplauso para os atores e para a realizadora. Este conto gótico sobre uma criança com dentes de vidro não causou impacto.

Uma co-produção europeia sempre sisuda e com uma lentidão que é figura de estilo e na qual os sinais do medo são sempre anestesiados com uma estilização demasiado formal. Hadzihalovic está a fazer o tão na moda "body horror" com o discurso de metáforas sobre o corpo mas a sua relação com a progressão narrativa é pedante e quase sempre aborrecida. Nem mesmo nas sequências de sangue e transgressão o filme parece acordar. Para já, esta disfunção de género é a primeira anomalia de um festival que arrancou com muita força.

E enquanto se aproxima a vinda de Johnny Depp, homenageado desta edição, são muitos os que prevêem manifestações de grupos feministas. Desde que a direção anunciou este prémio que o debate está lançado: numa altura em que Hollywood cancela um artista pelos efeitos do processo de Amber Heard, a sua ex-companheira, pode um festival separar o homem do artista? Depp é o elefante na sala deste festival.

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