Há sons que pertencem a um lugar. Em Cascais, durante décadas, um deles foi o Fado. Ecoava pelas casas típicas, fazia parte das noites da vila, cruzava-se com o mar e com as histórias de quem ali vivia. O tempo foi mudando hábitos e fechando portas, mas não apagou a memória. Agora, essa memória voltou a ganhar vida. Não entre quatro paredes, mas precisamente onde nasceu: na rua.É essa a essência da Rua do Fado, projeto promovido pela Câmara Municipal de Cascais, em parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Cascais e com direção artística de Miguel Capucho. Mais do que um ciclo de concertos gratuitos, a iniciativa assume-se como uma forma de devolver o Fado ao espaço público, aproximando artistas e público num ambiente de grande proximidade e recuperando uma tradição profundamente ligada à identidade cascalense.O sucesso foi praticamente imediato. Ao fim de apenas duas sessões, centenas de pessoas encheram largos e escadarias históricas da vila, confirmando que o Fado continua a ocupar um lugar muito especial no coração de quem vive e visita Cascais. Famílias inteiras, turistas, residentes e muitos idosos passaram a encontrar, ao domingo ao final da tarde, um ponto de encontro onde a música se transforma também em memória coletiva.Foi precisamente esse reencontro entre a cultura e o espaço público que motivou o nascimento do projeto. Para o presidente da Câmara Municipal de Cascais, Nuno Piteira Lopes, a Rua do Fado representa "um compromisso assumido e cumprido", devolvendo à vila "uma das expressões culturais mais profundas da identidade portuguesa" através de concertos gratuitos e abertos a toda a população..Uma visão que Miguel Capucho diz ter encontrado desde o primeiro momento. O diretor artístico recorda que a ideia ganhou força depois do sucesso do ciclo de concertos realizado no ano passado na Santa Casa da Misericórdia de Cascais, quando ficou evidente que o espaço já não conseguia responder à procura do público."Sentimos que as pessoas precisavam disto. O projeto tinha mesmo de vir para a rua. Nunca poderia ser um projeto fechado. Tinha de ser um projeto para que todos pudessem desfrutar dele, sem qualquer restrição", afirma.No ano em que Cascais ostenta o título de Capital Europeia da Democracia, Nuno Piteira Lopes considera que o projeto ganha um significado ainda mais abrangente. "Mais do que uma programação musical", afirma, a Rua do Fado pretende criar "uma experiência cultural acessível a todos", devolver a cultura às ruas, aproximar os cascalenses das suas tradições e transformar espaços históricos, turísticos e culturais em palcos vivos de Fado.Essa democratização do acesso à cultura é precisamente uma das dimensões que Miguel Capucho mais valoriza. O diretor artístico explica que a aposta na gratuitidade e em horários acessíveis tem permitido chegar a públicos que, muitas vezes, ficam afastados da oferta cultural. "Temos vindo a receber pessoas de todas as idades, mas sobretudo uma faixa etária que considero absolutamente fundamental. São pessoas mais velhas que, muitas vezes, teriam dificuldade em assistir a um espetáculo se não fosse gratuito e realizado a esta hora." Mas a Rua do Fado não vive apenas da memória. Vive também da renovação. Ao lado de nomes consagrados, a programação abre espaço às novas gerações de intérpretes. "A nossa missão não passa apenas por trazer artistas reconhecidos. Queremos também mostrar as excelentes vozes que existem hoje no Fado e dar-lhes oportunidade de chegar ao público”, acrescentou Miguel Capucho.Essa aposta ganha ainda maior significado numa vila que mantém uma ligação histórica ao Fado. Nuno Piteira Lopes lembra que "Cascais sempre foi terra de Fado", por onde passaram algumas das maiores figuras da música portuguesa, como Amália Rodrigues, Carlos Zel e Manuel de Almeida, sublinhando que essa herança continua viva através das novas gerações de intérpretes e músicos que levam esta arte a Portugal e ao mundo..A escolha dos palcos também não foi feita por acaso. Os concertos realizam-se em alguns dos locais mais emblemáticos de Cascais, precisamente onde residentes e turistas se cruzam diariamente. Para Miguel Capucho, esta é também uma forma de apresentar uma das maiores expressões da cultura portuguesa a quem visita o concelho. "A melhor forma de mostrarmos a nossa identidade aos turistas é encontrarmo-nos com eles naturalmente. Escolhemos estrategicamente largos e praças onde passam muitos visitantes e é curioso perceber que quase nenhum continua o caminho sem parar para ouvir. Eles acabam por fazer parte da nossa festa."A programação prossegue no próximo domingo, 19 de julho, no Largo de Camões, com Gonçalo Castelo Branco e Inês Vasconcelos. Seguem-se Miguel Capucho e Maura Airez, a 2 de agosto, no Largo da Praia da Rainha, Hélder Moutinho e Célia Leiria, a 16 de agosto, no Jardim Visconde da Luz, e o encerramento do ciclo, a 13 de setembro, no Passeio Dona Maria Pia, com Gonçalo Castelo Branco e Maura Airez. Todos os espetáculos começam às 19h00 e têm entrada livre.No futuro a ambição passa por manter a Rua do Fado para lá do verão e transformá-la numa presença permanente na vida cultural do concelho. .Silêncio que se vai #escutar o fado