A notícia da morte de Robert Duvall — no dia 15, no seu rancho de Middleburg, Virginia, contava 95 anos — sugere-nos um retrato imediato: na melhor tradição da idade de ouro de Hollywood, ele foi um daqueles “eternos” secundários cujas interpretações acabavam por ser o principal acontecimento em alguns dos filmes em que participou. Será uma imagem sugestiva, mas insuficiente. Afinal, a sua composição de uma velha glória da música country a lutar com problemas de alcoolismo valeu-lhe um Óscar de melhor ator (principal, entenda-se) em Tender Mercies/Amor e Compaixão (1983), de Bruce Beresford — a solidão da sua personagem, vivida entre nostalgia e revolta, poderá simbolizar a memória que vamos guardar da sua “persona” cinematográfica.Duas personagens bastariam para lhe garantir um lugar especial na história e na mitologia de Hollywood. A primeira, sob a direção de Francis Ford Coppola, ficou como uma encarnação da trágica vertigem, de uma só vez militar e moral, da América na guerra do Vietname — é em Apocalypse Now (1979) que o seu tenente coronel Kilgore proclama, com inusitada alegria, a frase que se tornou lendária: “Adoro o cheiro do napalm logo de manhã!” Também sob a direção de Coppola, assumiu a figura de Tom Hagen, “consiglieri” e advogado da família Corleone em O Padrinho (1972) e O Padrinho-Parte II (1974) — Hagen desapareceu de O Padrinho-Parte III (1990), já que Duvall não aceitou ser pago por um valor que considerava demasiado baixo face ao salário de Al Pacino. . Um ano antes do primeiro Padrinho, a sua colaboração com Coppola já tinha passado por THX 1138, fascinante ficção distópica sobre um mundo em que as relações sexuais são interditas — com produção de Coppola e George Lucas a estrear-se na realização, é um título emblemático da geração que estava a transfigurar a paisagem industrial e narrativa de Hollywood.Até essa altura, Duvall foi emergindo como um ator de “transição”, já que as qualidades do seu talento num novo contexto de produção não podiam ser dissociadas de padrões eminentemente clássicos. Estreou-se num pequeno papel em To Kill a Mokingbird/Na Sombra e no Silêncio (Robert Mulligan, 1962), a partir do romance de Harper Lee, tendo surgido também, por exemplo, nesse inovador policial que é Bullitt (Peter Yates, 1968), contracenando com Steve McQueen, ou The Rain People/Chove no Meu Coração (1969), um melodrama com o seu quê de experimental, de novo com assinatura de Coppola. . Como outros atores revelados na transição das décadas de 1960/70, Duvall começou a trabalhar entre o teatro — do Gateway Theatre de Long Island até aos palcos da Broadway — e a televisão, nomeadamente em séries como Alfred Hitchcock Apresenta, A Cidade Nua ou Os Intocáveis. Os espetadores mais jovens associam-no, sobretudo, ao universo do policial e do thriller, através de títulos de grande impacto comercial como 60 Segundos (2000) ou Jack Reacher (2012), protagonizados por Nicolas Cage e Tom Cruise, respetivamente.Várias vezes tentado pela realização, a sua maior proeza nesse campo terá sido o drama intimista O Apóstolo (1997), que também escreveu e protagonizou, tendo-lhe valido mais uma nomeação para melhor ator. Entre papéis principais e secundários, obteve um total de sete nomeações, a última com O Juiz (2014), um drama de tribunal dirigido por David Dobkin, com Robert Downey Jr. no papel central. Os Olhos de Allan Poe (2022), de Scott Cooper, fica como o filme final da sua carreira de mais uma centena de títulos..João Canijo: Um legado cinematográfico sempre seduzido pelo teatro.Brigitte Bardot. Morreu a mulher que o cinema criou