A obra de José Rodrigues Miguéis continua a ser reeditada, desta vez com Páscoa Feliz .
A obra de José Rodrigues Miguéis continua a ser reeditada, desta vez com Páscoa Feliz .D.R.

Reler os “clássicos”: Saramago e Miguéis

José Saramago lamentava o esquecimento em que vivia a obra de José Rodrigues Miguéis. Coincidentemente, estão agora juntos nas reedições de dois “clássicos” que chegam às livrarias.
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Desde o ano passado que deixou de ser preciso percorrer os alfarrabistas para encontrar os livros do escritor José Rodrigues Miguéis (1901-1980) e este ano a busca torna-se ainda menos necessária porque sai mais um seu título “clássico”, o Páscoa Feliz, após a publicação de Léah e Outras Histórias (1958) e de Um Homem Sorri à Morte (1959) –, estando previsto um quarto título até ao fim do ano. Desta vez não é na Editorial Estúdios Cor, onde José Saramago era diretor literário da editora responsável pela edição das obras do escritor, nem na Editorial Estampa que tem as Obras Completas, mas na Assírio & Alvim, que ultrapassou a questão que impedia um entendimento entre herdeiros que possibilitasse o regresso de Miguéis aos leitores.

No que toca ao segundo “clássico” que também regressa às livrarias em forma de (quase) álbum ilustrado estamos perante Ensaio sobre a Cegueira (1995) de José Saramago (1922-2010), um dos romances mais internacionais do autor, por ser de uma trama universalmente compreensível, e que sucede a O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o primeiro romance do escritor que deixa de ter como cenário o território português.

Definir como clássicos o Ensaio de José Saramago e o Páscoa de José Rodrigues Miguéis não será errado, afinal ambos já levam décadas sobre o seu lançamento.Ensaio situando-se num espaço urbano nacional que se tornou pouco habitual no escritor, mesmo que Lisboa fosse uma protagonista frequente de Saramago, tem no seu início um dos menos saramaguianos: “O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse.” No entanto, mal se vira a página, o autor entra em força na história que quer contar e vai desenvolvê-la no seu registo habitual ao terminar o parágrafo com duas palavras apenas: “Estou cego”. O romance está lançado e o labirinto abre-se aos personagens vítimas de uma epidemia, que é um pano de fundo para o questionamento constante do autor sobre os comportamentos da humanidade.  

José Saramago
José SaramagoD.R.

Ao contrário de Saramago, Páscoa Feliz é o romance [novela] de estreia de José Rodrigues Miguéis. Revela a sinopse da contracapa que a edição se deve a “um sindicato operário” e que foi posto à venda “a seis escudos o exemplar”, relatando a história do órfão Renato Lima, do seu julgamento e do destino reservado a quem não aceita certas regras. Tal como no romance de Saramago, também Rodrigues Miguéis lança a sua história com um forte início: “O juiz mandou-me finalmente erguer e, sem tirar os olhos dum maço de processos que tinha sobre a mesa, perguntou-me: Tem mais alguma coisa a alegar em sua defesa?”

Páscoa Feliz data de três anos antes da partida do autor para a América, onde se exila e morrerá. A temática retrata a sua época e a vidinha nacional própria do Estado Novo, temas que irá desenvolver na obra que escreverá até depois do 25 de Abril de 1974, deixando para trás uma marca ideológica do escritor numa carreira que não escapa à formação política de Miguéis. Mesmo que divirja posteriormente da ideologia que o levou a partir, os grandes temas orientadores dos seus personagens estarão sempre presentes. Estranhamente, ou em muito devido ao seu afastamento geográfico, a obra nem sempre tem o eco que a dimensão dos seus romances lhe poderia conceder em Portugal. Entre as exceções, está Léah e Outras Histórias, talvez o mais reeditado dos seus títulos. Também distantes de Miguéis estiveram quase sempre os seus pares literários, os quais critica frequentemente.

Qualquer um dos livros tem a particularidade de serem ilustrados. No caso de Saramago, pelo ilustrador Pablo Auladell e no de Miguéis por Maria Keil. Desenhos a preto e branco, que permitem visualizar a passagem do tempo através do traço dos dois artistas para as obras de escritores de idades e de vivências diferentes. A recuperação do trabalho de Keil é de parabenizar.   

Diga-se que este “regresso” de José Rodrigues Miguéis deverá ser acompanhado por duas leituras que em muito esclarecem a personalidade, a criação literária, bem como as razões para um esquecimento do escritor. A primeira, o volume José Rodrigues Miguéis / José Saramago – correspondência 1959 – 1971, com organização e notas de José Albino Pereira (Caminho, 2010); a segunda, a investigação Nos Passos de José Rodrigues Miguéis - Uma biografia escrita como um romance (Âncora, 2025), de Teresa Martins Marques, que tem entre as novas teses a do caráter autobiográfico de toda a obra do escritor. Lançada em junho de 2025, a autora sintetizou então à Lusa o seu trabalho, explicando que teve acesso a muitos documentos e revelações inéditas e que utilizou um modelo narrativo original de biografia como romance, em que coloca Miguéis em diálogo com a cientista Maria de Sousa (1939-2020). A investigação trata também de uma forma profunda a vida pessoal, bem como a atividade pública e política do escritor, um "convicto bolchevique" até ao fim dos anos 1940.  

PÁSCOA FELIZ

José Rodrigues Miguéis

Assírio & Alvim

135 páginas

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

José Saramago

Porto Editora

353 páginas

NOS PASSOS DE JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS

Teresa Martins Marques

Âncora

698 páginas

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O ator Virgílio Castelo assina uma “ficção” que não foge muito à realidade, pelo contrário tudo emana de cenários reais onde a “noite” da capital aconteceu. Por isso dá como subtítulo a este romance “autobiografia de toda uma geração” e o percurso que faz pela diversão na capital e arredores serve de pano de fundo a imensas histórias que, não tendo sido totalmente assim, quem foi delas contemporâneo dirá que se revê. Mais do que um romance, é a biografia de uma geração que foi feliz num tempo em que se descobria que o cinzentismo do Estado Novo estava enterrado.

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