O escritor colombiano Héctor Abad Faciolince diz que tem pouca imaginação, mas o seu novo romance prova o contrário
O escritor colombiano Héctor Abad Faciolince diz que tem pouca imaginação, mas o seu novo romance prova o contrário

Quem é operado ao coração perde todas as certezas

Héctor Abad Faciolince regressa com um romance que alterou em muito ao sobreviver.
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É um dos romances mais interessantes, mais bem elaborados, muito consistente e com uma narrativa que cola o leitor às suas trezentas e cinquenta páginas sem que se possa afastar. O título é Salvo o meu coração tudo está bem e o autor Héctor Abad Faciolince. Um escritor colombiano que, sem trazer ecos do realismo mágico de Gabriel García Márquez, impregna este romance de uma escrita em que uma sucessão de situações muito bem entrelaçadas confirma a tese de que uma história bem contada vale um livro. Mesmo que o autor negue essa capacidade de absorver o leitor e se considere parco de imaginação. Aliás, quem o ouvir falar até será capaz de pôr em dúvida uma genialidade narrativa que já vem de outros romances, como o Somos o esquecimento que seremos, um livro que o persegue e do qual muitos leitores se maravilharam ao ponto de se recusarem a ler outros títulos de Faciolince, de forma a manterem o encanto pelo autor através dessa única obra.

A história é simples e vem resumida na contracapa: “Um homem que aguarda um transplante de coração. Luis Córdoba é um padre amável, culto, corpulento, com um coração que mal lhe cabe no peito.” O texto desvenda ainda que o padre se vai hospedar numa casa sem escadas que o cansem, onde vivem duas mulheres e os seus três filhos. E revela outras situações que se vão ignorar por agora; é preferível ouvi-las da boca do escritor, que esteve recentemente em Lisboa e falou de Salvo o meu coração tudo está bem.  

Quando se pergunta como tem paciência para inventar tantas histórias que caibam num livro como as que fazem este, responde que “não foi difícil porque foi um livro escrito durante a pandemia e o confinamento fez com que quase todos se sentissem ameaçados de morte, o que é o motor deste livro. Não é um vírus neste caso, mas a ausência de um coração para lhe ser transplantado e o destino ser a morte.” A palavra “paciência” tem um sentido verdadeiro, como se vê pelo que dirá: “Perdi a paciência com o livro que estava a escrever, mais político, sobre Pablo Escobar e a perseguição de jornalistas do jornal em que trabalho, e surgiu esta ideia sobre algo que me estava muito distante: a vida dos padres. Então, quis saber como era e nasceu este romance.”

Apesar de não o referir de imediato, Faciolince tem consciência de que o assunto coração não veio do nada: “É verdade que não dominava a vida religiosa, nem o cinema e a ópera e a música clássica, que estão muito presentes, principalmente o da doença. Isso não me impediu de que sendo muito ignorante nesses temas não me tivesse transformado numa esponja capaz de absorver dos entendidos o que precisava. No fundo, é uma espécie de tradução dessas matérias desconhecidas para leitores tão ignorantes como eu de forma que entendam o que não parece interessante e que serão os temas principais deste romance.” O escritor confessa que essa investigação foi feita junto de amigos que dominam esses assuntos: “Todos me deram lições que eu transformei em literatura.”

Qual a razão para destacar o coração, insiste-se. Faciolince rapidamente revela a razão que até aí mantivera afastada, como se fosse um segredo que queria de fora: “Tradicionalmente, o coração é o órgão considerado o mais espiritual do corpo, quase imaterial, desde os tempos em que não era dada tanta importância ao cérebro. Antigamente, dava-se ao coração várias propriedades: a memória, o sentimento, o amor e a vida. No caso deste romance o que o coração representa é a mais pura corporalidade de um homem que renunciou ao seu corpo para ser casto, só alma, com poucos prazeres – a comida, a música, o cinema –, só que pouco a pouco dá-se conta de que a carne, o contato, a carícia, são muito importantes para dar razão à vida. No final, a máquina que mantém as pessoas vivas está longe de ser apenas um órgão hidráulico para representar o que somos em todos os aspetos.”

Héctor Abad Faciolince ainda evita referir a sua experiência pessoal que, decerto, terá facilitado o desenvolver do assunto coração. Até que diz: “Quando nos operam ao coração, todas as certezas desaparecem e não somos nada.” Essa foi também uma situação que aconteceu ao autor: “Comecei a escrever o romance quando soube que tinha um sopro no coração, uma coisa banal, mas conforme o livro ia avançando a doença foi-se agravando, e quando já ia muito avançado ouvi o ultimato: «Temos de o operar ou morre». Então, pensei que também poderia morrer na operação, e decidi avançar no romance o máximo possível e acabei por ter tempo para terminar e enviar à minha agente. Disse-lhe que se morresse era o que deveria ser entregue às editoras para publicar. Sobrevivi, tive essa experiência, e a partir daí pude entender o meu protagonista com outra capacidade. Então, quando ressuscitei, mudei várias partes do romance.”

Salvo o meu coração tudo está bem não é um romance apenas autobiográfico, mas muitas das sensações que viveu com a aproximação da operação a que foi sujeito alteraram a primeira narrativa e resultaram na leitura sôfrega que obriga o leitor a fazer. Perante a hipótese de morrer na operação, Faciolince garante que não teve medo: “O que senti foi tristeza por não continuar a viver. A vida, sendo dura, é muito bonita.” Regressa ao coração como órgão de sensações: “No coração humano existe o melhor e o pior, se não fizermos com que o primeiro vença, o que acontece é termos uma linha direta para o inferno.” Dá exemplos bem atuais: “Antes, os maus não podiam destruir o mundo totalmente, mas hoje sim, são capazes disso. Se Hitler tivesse bombas atómicas, tê-las-ia usado sem qualquer hesitação, daí que me assuste quando temos um Putin, um Netanyahu e um Kim Jong-un, que ao verem-se derrotados podem fazer qualquer loucura pois não se importam em destruir o mundo inteiro.”

O romance dedica também muita atenção à situação da Igreja Católica através do protagonista. Elenca padres bons e outros que são maus e aponta uma igreja com defeitos numa crítica continuada, demonstrada no pano de fundo da narrativa. Para o escritor esta é uma realidade: “Creio que a hierarquia eclesiástica tem causado muitos danos, como foi o caso da invenção do celibato, que pode ter tido sentido no passado, mas atualmente apenas provoca dor aos padres - deveria ser voluntário. Além de que os altos representantes da Igreja, como se tem visto na Colômbia, nem sempre estão em sintonia com os bons valores sociais.”

Além do celibato dos padres, é a instituição do casamento o grande foco do romance, que se pode resumir numa frase: quem está num casamento quer sair, quem está fora quer entrar. Faciolince considera que é neste ponto que a história do livro se torna muito autobiográfica: “Quando me separei da minha mulher e mãe dos meus filhos, um amigo nosso que era padre estava com um problema no coração. Ele foi viver lá para casa depois de eu sair e essa situação tornou-se muito literária, pois com o passar do tempo ele começa a ocupar o meu lugar na mesa das refeições, a substituir-me na relação com os que deixei para trás, e perguntava-me porque me tinha ido embora se toda a minha vida era boa, se tinha uma mulher maravilhosa, uns filhos belos e uma casa ótima. Enquanto esperava pelo transplante, disse-me várias vezes que se sobrevivesse deixava a vida religiosa e casava-se.” Este é também uma grande parte do enredo de Salvo o meu coração tudo está bem, que o autor reafirma ser muito autobiográfica nesta situação: “O que acontece com a família que recebe o padre e dentro da casa é que é a minha invenção, mas o cenário foi real.”

O que leva a perguntar sobre a sua fixação em histórias com muita autobiografia, como já acontecera com o seu pai no romance Somos o esquecimento que seremos, e que explica assim: “Eu não tenho muita imaginação, não sou muito culto, o que sei é escrever. Por isso, parto de histórias que conheço porque considero que a realidade pode ser muito literária. O que eu devo fazer é encontrar uma realidade vivida ou conhecida e a partir de uma situação que me parece literária, escrever uma história. E se tiver algumas lacunas, socorro-me dos meus amigos com memória e eles ajudam-me a preencher todos os vazios da narrativa. É assim que sou capaz de escrever os meus livros. No caso de Somos o esquecimento, o que parece ser a minha memória é antes a da minha mãe, dos meus irmãos e dos amigos do meu pai. Eles ajudaram-me a recordar e o segredo desse livro está no colocar na primeira pessoa aquilo que os outros se lembravam. A minha ficção era uma cópia das memórias dos que me rodeavam.”

É fácil desmascarar Héctor Abad Faciolince no que respeita a esta falta de imaginação e quando se lhe diz que mente o escritor ri-se. Só não se diverte tanto quando se o acusa de ter escrito um final infeliz. Será um castigo de Deus para um padre que não se portou bem? Responde: “Não. Nunca sabemos quando um final é feliz ou infeliz, basta que a pessoa morra antes de uma tragédia e não sofra por causa dela.”

SALVO O MEU CORAÇÃO TUDO ESTÁ BEM
Héctor Abad Faciolince
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