A expressão “rebelde sem causa” entrou no vocabulário da cultura popular através de um filme de 1955: Fúria de Viver, de Nicholas Ray, no original, precisamente, Rebel Without a Cause. A sua eficácia simbólica resultava menos da revolta do protagonista, Jim Stark, interpretado por James Dean, envolvendo sobretudo a orfandade filosófica de um protesto (“sem causa”) encarnado por um filho em ruptura com os valores dos pais, da família e, no limite, do mundo dos adultos. Foi o princípio de um capítulo cinéfilo, indissociavelmente social e político, que a partir deste sábado vai ser o tema único da programação da Cinemateca ao longo do mês do agosto. O ciclo chama-se, naturalmente, “Rebeldes sem causas” e apresenta-se estruturado a partir de um curioso arco temporal: são 25 filmes made in USA, a maior parte produzida entre 1955, data de Fúria de Viver, e 1977, o ano em que emerge Tony Manero, o herói de Febre de Sábado à Noite interpretado por John Travolta, sob a direção de John Badham. .As rebeldias, as suas imagens e a sua imaginação, atravessam toda essa época. Dentro e fora dos EUA, vivia-se o fulgor das “novas vagas”, com o seu apogeu na década de 60. Foi um processo que conduziu à invenção de novas personagens, direta ou indiretamente implicadas na discussão de novos padrões de vida, do mundo do trabalho até às relações sexuais. A complexidade de tal conjuntura chama-nos a atenção para o carácter paradoxal do fenómeno: as novas “rebeldias”, mesmo quando parecem despidas de motivação, são convulsões emocionais que, de forma mais ou menos consciente, anseiam por “causas” em que possam ponderar as dúvidas do presente e pensar um futuro recheado de interrogações.Os órfãos do cinemaA imagem de James Dean ficou como ícone universal de tudo isso, o que, perversamente ou não, não pode ser separado do trauma da sua morte prematura, num acidente de automóvel, contava 24 anos — foi a 30 de setembro de 1995, poucas semanas antes da estreia de Fúria de Viver, a 27 de outubro. Para lá do período temporal já referido, o ciclo apresenta algumas “pontas soltas” do fenómeno, incluindo The Wild One (1953), de László Benedek, com Marlon Brando, e Os Marginais (1983), de Francis Ford Coppola — o primeiro impondo a matriz mil vezes repetida do “motard” errante, à procura do seu destino fora das regras comuns da sociedade; o segundo, lançando toda uma geração de novos intérpretes (Matt Dillon, Tom Cruise, Diane Lane, etc.) em personagens que, definitivamente, vivem uma orfandade muito real, assombrados pelo vazio de novos padrões geracionais e familiares. .Por estes filmes perpassa também uma “tendência” que contraria o simplismo ideológico segundo o qual foi preciso esperar pelo movimento #MeToo (e pelas suas causas) para que o cinema em geral, e a produção americana em particular, desse o devido valor às mulheres das suas histórias. Bem pelo contrário, este é também um período pontuado por fascinantes personagens femininas — e por uma galeria invulgar de atrizes. Observe-se o caso de Natalie Wood, presente em nada mais nada menos que cinco filmes a exibir, a começar, justamente, por Fúria de Viver — encontramo-la também em Esplendor na Relva (Elia Kazan, 1961), West Side Story (Jerome Robbins/Robert Wise, 1961), Amar um Desconhecido (Robert Mulligan, 1963) e O Estranho Mundo de Daisy Clover (de novo Mulligan, 1965). . Aliás, nomes e datas sugerem sucessivos cruzamentos e aproximações. Por exemplo, Warren Beatty, que contracena com Natalie Wood em Esplendor na Relva, está também, ao lado de Jean Seberg, em Lilith (Robert Rossen, 1964), Seberg que conquistara a aura de estrela com Bonjour Tristesse (Otto Preminger, 1958), adaptado do romance de Françoise Sagan. A saga feminina adensa-se se tivermos em conta que vai também ser exibido um filme realizado por Ida Lupino, Anjos Rebeldes (1966), a par do muito pouco visto Verão 42 (1971), em que a luminosa Jennifer O’Neill interpreta uma paixão “impossível” com um adolescente (mais uma realização de Robert Mulligan, decididamente um cineasta a justificar algum tipo de reavaliação). . A pertinência histórica e estética deste conjunto de títulos é tanto maior quanto nos ajuda a compreender que as formas de “rebeldia” que aqui se manifestam são o rigoroso contrário do imaginário publicitário que delas se apropriou — nos dias que correm, deparamos mesmo com personagens que reivindicam alguma ruptura com o “sistema” apenas porque adquiriram um novo modelo de automóvel ou passaram a usar determinado shampoo... Dito de outro modo: há personagens emblemáticas que, mesmo não assumindo qualquer tipo de protesto ou reivindicação, são “rebeldes” porque já não encaixam nas matrizes de pensamento e comportamento que moldaram o seu crescimento.Elvis, Warhol, etc.Dois títulos separados por apenas por dois anos — Easy Rider (1969), de Dennis Hopper, e A Última Sessão (1971), de Peter Bogdanovich — são sintomas muito especiais de todas estas atribulações. O primeiro, com Hopper e Peter Fonda nas suas motos imponentes, percorrendo as estradas infinitas de todo um país, gerou o seu próprio mito: uma espécie de western moderno, terminal e absurdo, espelhando uma época de cruel decomposição de valores existenciais. O segundo encenando a decadência de uma cidadezinha do Texas, em 1951/52: os jovens à deriva, alguns a aguardar a mobilização para a guerra da Coreia, vivem também marcados pela vulnerabilidade de um imaginário cinematográfico que já não encontra lugar para se exprimir — o título, recorde-se, remete para o encerramento da única sala de cinema da cidade e, em particular, para o anúncio da última sessão (The Last Picture Show). Pormenor nada secundário: foi também o filme de revelação de uma jovem atriz, Cybill Shepherd. . Os contrastes são ainda mais significativos, por vezes imbuídos de ironia, se tivermos em conta que por aqui encontramos também as canções de Elvis Presley (King Creole, 1958), as produções de Andy Warhol (Flesh, 1968), a parábola política segundo Arthur Penn (Alice’s Restaurant, 1969), ou o sarcasmo de Milos Forman (Taking Off e Hair, respetivamente de 1971 e 1979). Ou como diria Jim Stark, com a voz magoada de James Dean: “Já não sei o que fazer, exceto, talvez, morrer” — os filmes continuam a não deixar que o seu voto se cumpra, preservando a dádiva de preciosos momentos de consolação.