Quando o teatro se mistura com a rádio

A peça Eu nunca vi um helicóptero explodir estreia a 22 de abril, com participação especial do jornalista Fernando Alves, da TSF, e encenação de Luísa Pinto.

A equipa trabalhou a primeira vez há dois anos quando fizeram uma peça de teatro adaptada do livro A vida no campo do açoriano Joel Neto. A diretora artística da Narrativensaio- AC, Luísa Pinto, revela que foi esta experiência em 2019 que motivou a elaboração da peça Eu nunca vi um helicóptero explodir com estreia no dia 22 de abril em Vila Nova de Famalicão. "Senti que essa peça não ficou completamente fechada e decidi construir uma história de raiz e desafiar" a especialista em literatura e tradutora Catarina Ferreira de Almeida e o escritor Joel Neto, acrescentou.

O espetáculo reflete a angústia de todo o processo criativo de um casal que vive confinado e que tenta escrever uma peça de teatro durante uma crise pandémica e uma crise conjugal. A peça faz também uma clara alusão às tecnologias emergentes dos tempos que correm: "Há um cruzamento entre diferentes ferramentas que imperam neste momento de tragédia global: a televisão, a internet, a rádio (...)", refere a diretora artística, mencionando ainda em entrevista ao DN que estas plataformas assumem um papel muito importante numa altura em que somos todos obrigados a viver à margem da realidade.

Luísa Pinto, encenadora e também atriz na peça, afirma que uma das particularidades desta exibição é a participação do jornalista Fernando Alves. O convidado especial entra em cena a apresentar as suas famosas crónicas, "Sinais", das manhãs da TSF. "É através das suas leituras de textos que o Fernando interpela a ação ao longo de toda a narrativa dando ao público nota do desenvolvimento da pandemia e das suas consequências sociais."

Luísa sublinha que a peça foi o resultado de um trabalho foi muito coletivo e garante que a equipa se entregou bastante: "Trabalhámos primeiramente online, os ensaios eram feitos através de plataformas digitais, e só depois presencialmente". Para a doutorada em estudos artísticos, num momento em que a cultura vive momentos conturbados causados pela pandemia de covid-19, a reabertura das salas de teatro tem tudo para correr bem: "As salas de espetáculo cumprem todas as normas de segurança. As pessoas estão desejosas de voltar aos teatros e o público assíduo sabe que estes espaços culturais são seguros."

O convidado especial, Fernando Alves, revela que estima muito os seus colegas de trabalho: "a cumplicidade desta equipa é um importante fator para se ultrapassarem as dificuldades". O jornalista da TSF refere que as experiências anteriores relacionadas com o teatro foram intimidadoras, no entanto, afirma em entrevista ao DN que esta experiência foi diferente: "desta vez foi muito simples, não me senti intimidado. É nítido que estou a fazer algo ligado à rádio e esse é o meu papel todos os dias" remata o locutor de rádio uma vez que já teve a oportunidade de realizar uma antestreia da peça presencialmente no dia mundial do teatro, a 27 de março.

Para o locutor de rádio, este espetáculo foi uma experiência bastante interessante pois "permite perceber que há linguagens diferentes que se podem cruzar" uma vez que a peça põe em diálogo uma série de reflexões, de realidades e ferramentas distintas. "O meu papel na peça é um momento de chamada à realidade" pois é através das suas crónicas que "o mundo lá fora entra na peça".

António Durães, protagonista da peça, garante que a encenação tem também uma outra peculiaridade interessante: "o objetivo é o de equivocar o público, a uma dada altura o público vai ser confundido, já não sabem quem conta o quê, o que é contado e quem é quem."

O ator, que se estreou profissionalmente em 1984, afirma que esta peça promete "divertir os espetadores" e causar um sentimento de identificação com as personagens: "o público vai rever-se nas vivências, nas dúvidas, nas problemáticas e no estado dos seres em plena pandemia."

Num momento em que a covid-19 tem condicionado o setor da cultura e é mais importante que nunca a sua valorização, António Durães deixa o seu testemunho: "Esta experiência teve muita entrega e muito afeto de todos. A equipa nunca baixou os braços, conseguimos resistir a um momento difícil e agora só desejamos partilhá-la com o público."

A peça é uma coprodução da Narrativensaio-AC com a Casa das Artes de V. N. Famalicão e a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo e está em exibição em Vila Nova de Famalicão nos dias 22, 23 e 24 de abril. A 15 de maio segue para Baião e termina a 22 de maio na Praia da Vitória, nos Açores. As sessões já estão fechadas mas a companhia promete reagendar outras datas para que o espetáculo continue em exibição. F.R.M.

dnot@dn.pt

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