Eis uma estreia realmente excecional: Ursos Não Há, do iraniano Jafar Panahi (Prémio Especial do Júri no último Festival de Veneza), é um objeto de cinema fascinante e inclassificável, projetando-nos numa reflexão tão primitiva quanto atual. A saber: qual a dimensão política do ato de filmar? Ou ainda: como é que uma imagem se relaciona com o mundo à sua/nossa volta?.Ursos Não Há coloca em cena o próprio Panahi, a dirigir uma rodagem, no mínimo, insólita: os técnicos e atores estão a filmar numa cidade turca, enquanto ele vai dirigindo os trabalhos, através do seu computador, a partir de uma aldeia iraniana, próximo da fronteira com a Turquia. Como bem sabemos, esta é uma narrativa que não pode ser dissociada de dados muito concretos da vida artística e pessoal do autor..Aliás, como separar uma coisa da outra? Desde que foi preso, em 2010, acusado de fazer filmes de "propaganda" contra o governo do Irão, Panahi tem sido um verdadeiro exilado interior, sobrevivendo no país do cinema. As muitas atribulações a que tem sido sujeito incluem a proibição de filmar durante 20 anos e, mais recentemente, um novo período na prisão por ter questionado as autoridades sobre a situação de Mohammad Rasoulof - realizador de O Mal Não Existe (2020), já estreado nas salas portuguesas -, também ele encarcerado..Uma coisa é certa: a sua filmografia não se extinguiu. Logo em 2011 logrou mesmo realizar o espantoso Isto Não É um Filme, refletindo a situação de prisão domiciliária a que, na altura, foi sujeito - escusado será dizer que o título define todo um programa de resistência e alegria criativa. Depois disso, assinou filmes como Closed Curtain (2013), Taxi (2015) e Três Rostos (2018), os dois últimos também lançados no mercado português..Panahi não é um cineasta "ilustrativo", não faz filmes "descritivos" sobre o que tem estado a viver - até porque a personagem do cineasta de nome "Panahi" tem tanto de auto-retrato como de derivação irónica, potencialmente burlesca. Afinal de contas, os habitantes da aldeia, em nome de um respeito com o seu quê de ambíguo, chamam-lhe "Sr. Engenheiro"....Uma maneira sugestiva de dar conta do que acontece em Ursos Não Há talvez seja dizer que há nele algo de "hitchcockiano", ligado ao sentido primordial do "suspense". A saber: a realidade em que as personagens se movem parece condenada a não fazer sentido, desafiando todas as certezas dessas personagens (e também do espectador...) e atraindo um exercício em que se confrontam "inocentes" e "culpados"..Digamos, então, que a rodagem de Panahi à distância está longe de funcionar de modo equilibrado. E não só por causa da distância: o casal que conhecemos na abertura, planeando a sua saída do Irão usando passaportes falsos está longe de ser uma ficção, já que a sua experiência ecoa de forma muito direta a situação dos próprios intérpretes....Entretanto, a simpatia que o "engenheiro" suscita na aldeia vai ser posta em causa pelo facto de Panahi ir fotografando muitos dos seus habitantes, crianças, jovens e idosos. Acontece que ele terá fotografado uma jovem na companhia de um rapaz que não é o noivo que, em nome da tradição, lhe está prometido desde o seu nascimento... De tal modo que o conselho dos anciãos lhe pede que lhes mostre a imagem que, em qualquer caso, Panahi garante que não existe..Tudo isto está longe de se resumir a episódios pitorescos, mais ou menos televisivo, para "ilustrar" as singularidades do povo. Em boa verdade, Panahi é um dos grandes autores realmente políticos da atualidade, não por razões panfletárias ou propagandísticas, antes porque sabe colocar em cena os mecanismos de poder que contaminam todas as relações humanas, mesmo as supostamente mais banais ou indiferentes..Os atores do filme que está a ser rodado na Turquia devolvem-lhe as tensões que o ato de fazer cinema pode envolver, do mesmo modo que os conflitos na aldeia (nada anedóticos, como se verá) são expressões dramáticas de um contexto em que qualquer imagem do "outro", mesmo a mais cândida, arrasta alguma forma de poder. Por contraste, os ursos que circulam à noite pelas ruas da aldeia são uma simples derivação, essa sim, anedótica, da complexidade do tecido social - ou como lhe diz o aldeão que o conduz à reunião com os anciãos: "Um disparate, histórias inventadas para assustar." Porquê? Porque "os nossos medos dão força aos outros.".Este labirinto de factos vividos e factos imaginados, pontuado por perturbantes sinais de violência moral, faz lembrar a obra de Abbas Kiarostami (1940-2016), outro nome grande do cinema do Irão de quem, aliás, Panahi foi assistente. Muito a propósito, a estreia de Ursos Não Há surge em paralelo com a reposição, em cópias restauradas, de dois títulos de Kiarostami: Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987) e Trabalhos de Casa (1989) - em simultâneo, ambos são editados em DVD e disponibilizados nos videoclubes (NOS, Meo, Vodafone e Nowo). Enfim, são dois cineastas que, recusando ideias feitas e estereótipos narrativos, nos ensinam a liberdade do olhar..dnot@dn.pt