Promover a Cultura nos Açores e não só

Promover a Cultura nos Açores e não só

É uma associação cultural, sem fins lucrativos, que agiliza a produção, apresentação e circulação das artes visuais. Opera a partir da ilha de São Miguel, nos Açores, mas ambiciona envolver comunidades do mundo inteiro. Jesse James é o seu mentor.
Publicado a
Atualizado a

A Anda&Fala – Associação Cultural promoveu uma ‘open call’ para a 6ª edição do PARES – Programa de Apoio à Atividade Artística nos Açores. Das 33 candidaturas recebidas, foram selecionadas 12 pela Comissão de Apreciação. Em entrevista ao DN, Jesse James, diretor artístico da Anda&Fala, explica como funcionam os apoios concedidos.

Como nasceu a Anda&Fala?

A associação surgiu com a primeira edição do Walk&Talk - Festival de Artes, em 2011. Desde então tem procurado construir um ecossistema cultural sinérgico e colaborativo, incentivando vivências partilhadas que estabelecem espaços de apoio e garantem recursos à pesquisa, troca de ideias e apresentação de projetos. Hoje, a associação organiza-se em torno dos seus projetos âncora: a vaga, espaço e projeto de programação contínuo, e o Walk&Talk, que se encontra em transição para um formato bienal. A partir desses projetos, a ação desdobra-se num conjunto de programas que potenciam redes de cooperação e de afeto como o PARES, o Prémio nova vaga, a RARA - Residência de Artesanato dos Açores, o Open Studios, o Programa de Públicos e as Residências Artísticas, bem como iniciativas de advocacia cultural.

O que é o PARES?

O PARES é um programa de partilha de recursos lançado pela A&F em 2019, que traduz o seu compromisso e contributo para a formulação de políticas culturais assentes na cooperação e na autonomia do fazer. Com uma percentagem do orçamento global da associação, no valor de 7.500 euros, apoia artistas e agentes que desenvolvem o seu trabalho nos Açores, através da atribuição de bolsas de micro-financiamento, a atividades de criação artística, de circulação de artistas/projetos ou de formação. O objetivo é impulsionar o trabalho de agentes culturais e sociais e o estabelecimento de novos artistas e atividades.

Como aderiu a comunidade?

O número de candidaturas tem vindo a aumentar todos os anos, o que reflete uma certa vitalidade do setor e o surgimento de novos agentes e projetos que podem beneficiar deste primeiro impulso. Este ano, recebemos 33 candidaturas de cinco ilhas.

Com que critérios foram selecionados os 12 beneficiados?

O principal critério é a fundamentação da candidatura e o que se pretende com a ação. Além de avaliar a pertinência artística ou conceptual das candidaturas, é importante perceber o seu contributo para o contexto onde se desenvolve - que agentes envolve, o que permite, que acessos cria, que desafios traz, como potencia a atividade artística e garante a sustentabilidade do ecossistema cultural açoriano. Nesta edição, considerou-se também importante garantir diversidade do ponto de vista geográfico (projetos no Corvo, Graciosa, Santa Maria e São Miguel), geracional e disciplinar, da música, às artes visuais e investigação.

Como vai ser confirmado que os projetos a que foi atribuído o apoio são concluídos no tempo em que é suposto?

Cada projeto é avaliado pela exequibilidade do seu orçamento e plano de atividades. Além das micro bolsas, o PARES prevê aindat rês horas de assessoria a cada candidatura selecionada, o que se tem revelado um instrumento fundamental na partilha de conhecimentos e competências técnicas, ou no desenvolvimento conceptual de alguns projetos. É uma forma de potenciar os projetos sem interferir na sua execução.

Como deve ser promovida a Cultura nos Açores?

Há uma evolução significativa nos últimos 10/15 anos, onde surgiram vários projetos, que deram importantes estímulos para a reflexão e construção de novas centralidades conceptuais, geográficas e operacionais, e que tiveram um impacto muito positivo numa nova geração de agentes culturais. Há um sentimento de afirmação coletiva que entende os Açores enquanto contexto de produção e apresentação artística, interessado em capacitar e apoiar o ecossistema cultural local, como em convidar e acolher propostas de outros lugares. A candidatura de Ponta Delgada - Açores à CEC 2027 comprovou (e potenciou) esse dinamismo, diversidade e articulação. Há, contudo, várias questões que devemos procurar melhorar e corrigir, até no sentido de salvaguardarmos o papel da cultura na construção e preservação da nossa democracia e autonomia. Tem havido uma relutância em colocar o setor cultural no centro das políticas de desenvolvimento do território e uma incapacidade de entender o seu papel transformativo, e os últimos três anos nos Açores foram completamente desastrosos nesse sentido, com uma tutela impreparada e incapaz de reconhecer a sua desorganização e completa falta de visão e estratégia, o que gerou muita instabilidade e precariedade. Não esquecendo a oportunidade desperdiçada da CEC27 por falta de compromisso político. E depois há uma suborçamentação crónica que acaba por limitar ambições e atrofiar qualquer estratégia de desenvolvimento. Como noutros setores, a ausência de investimento na cultura fragiliza a produção e a capacidade de gerar valor e retorno a vários níveis, sejam artísticos (conteúdos, conhecimento), sociais (afetivos, relacionais) ou económicos (turismo, comunicação, indústrias criativas). O setor cultural soube atualizar-se e desafiou-se nas questões, nos formatos e nas relações que agora sustenta (dentro do arquipélago e fora dele). Infelizmente, uma boa parte do poder político açoriano não acompanhou essa evolução e mantém-se agarrado a uma visão simplista e anacrónica do fazer cultural, cristalizada no património e na tradição, e com muita dificuldade em aceitar um presente diverso e inclusivo. Daí a urgência em colocar esses temas em agenda e convocar os agentes culturais e o poder político no sentido de formular políticas e ações mais concertadas e eficazes. O MOVA - Movimento pela Arte e Cultura nos Açores, do qual a Anda&Fala é membro fundador, é um grupo de reflexão e de pressão política que surge para pensar o presente e futuro das políticas culturais nos Açores, agregando agentes culturais e cidadãos de todas as ilhas do arquipélago.

Qual é a importância da cultura açoriana na sua abordagem à programação cultural?

Nunca nos interessou uma abordagem regional e fechada, mas antes uma programação que permitisse abrir espaços, introduzir ideias, colocar-nos em diálogo com outros territórios. A cultura açoriana existe para nós nesse contexto de troca, de conexão, e manifesta-se nos espaços que ocupamos e nas formas de fazer. Não acredito no “artista regional”, até porque durante muito tempo essa ideia criou um contexto artístico fechado. Os grandes ícones da cultura açoriana - da Natália Correia à Maria José Cavaco, souberam estar em movimento. Souberam ter mundo nas ilhas e dizer que as ilhas são mundo. É essa herança, e uma ideia de cultura em movimento, que sempre nos interessou. Prefiro a ideia de uma “cultura do lugar”, que parte das suas idiossincrasias mas que existe no contacto e na mutação. Fazer o Walk&Talk permitiu-nos ampliar essa ação e com isso rever os nossos próprios preconceitos e percepções sobre o nosso lugar, sobre a nossa periferia, de maneira a ressignificar velhas narrativas que tradicionalmente excluíam ou exotificavam esses contextos e comunidades para passarmos a valorizar em pleno o nosso território e as suas possíveis relações com o mundo.

Como é que colabora com artistas locais e grupos locais?

A visão estratégica que a Anda&Fala projeta para o contexto em que opera passa por estabelecer e nutrir essas redes de cooperação e troca que falamos anteriormente. Tornou-se sua missão e faz parte das suas responsabilidades enquanto associação cultural de utilidade pública. Projetos como o PARES ou o Prémio nova vaga focam o investimento no lugar e em quem produz a partir daqui. O espaço vaga tornou-se um espaço de encontro e de vivência, facilitando e acompanhando a comunidade artística. O Walk&Talk é o lugar de troca com o mundo. As Residências da RARA juntam artesãos açorianos e designers para co-produzir. E de forma transversal, o Programa de Públicos é fundamental na forma como nos relacionamos com o território e as múltiplas comunidades a que se dirige, atuando à escala da rua, do Bairro, da cidade e da ilha, e que surge dos princípios de acessibilidade, inclusão e democracia cultural.

Como é que equilibra a preservação da tradição cultural com a introdução de novas formas de expressão artística, inovação e tecnologia?

É uma questão com que todos na cultura nos debatemos e para a qual não tenho uma resposta concreta Contudo, há algumas coisas que me parecem fundamentais nessa procura de equilíbrio de forças e importâncias entre o “velho” e o “novo”. Primeiro, é o reconhecimento que há tradições/rituais que deixam de fazer sentido, seja por avanços tecnológicos, alterações sociais ou ajustes morais. Segundo, a cristalização forçada de uma tradição será (provavelmente) o anúncio do seu fim. A cultura de um lugar, as suas tradições e rituais estão obrigatoriamente em transformação, e a sua definição ou forma ao longo do tempo faz-se de alterações, acrescentos e aperfeiçoamentos.

É importante aceitarmos a mudança porque isso sempre aconteceu ao longo da história. Esse “estar em movimento” (no espaço e no tempo) permite que as “tradições” possam ser apropriadas e ressignificadas por outras gerações e entidades, adquirindo outras presenças e relevâncias.

Por outro lado, é preciso resgatar o conceito de “inovação” do advento do empreendedorismo, do progresso e do sucesso, centrais ao sistema capitalista em que vivemos, que procura sempre acelerar e maximizar os processos e a capitalização de resultados, e (potenciais) produtos. Tradição e inovação podem ser entendidos como lugares onde se experimentam vivências e saberes, onde se articulam ideias e se organizam processos que depois dão lugar a outras coisas. A nossa programação vive muito desse espírito de abertura e disponibilidade à mudança, por isso sempre nos interessou deixar os projetos num lugar de experimentação que reconhece a tentativa como processo e a falha como resultado. É assim que inovamos e criamos rituais/tradições.

Qual é a importância do apoio institucional?

O setor cultural açoriano é muito diverso e inclui agora estruturas profissionais, associações recreativas, coletividades e grupos informais, nas 9 ilhas. É importante desenhar-se uma estratégia e política cultural que reconheça as diferenças e entenda a importância de todos esses agentes, sem exceção. Estamos a um mês das eleições para a Assembleia Regional dos Açores e mantemos a nossa reivindicação de mais investimento na Cultura e na reformulação do atual sistema de apoios à criação, anacrónico e injusto. Queremos uma visão arquipelágica da cultura e uma presença intersectorial.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt