Porque andamos tão exaustos?

Depois da Organização Mundial de Saúde reconhecer o Burnout como doença, a medical coach Vânia Castanheira escreveu o livro Porque Andamos Tão exaustos? (Editora Arena). Em tempo de quarentena, esta é uma leitura que nos prepara para o regresso à vida normal.

«O que a Vânia precisa é de ir um mês de férias!»

Esta foi a frase que ouvi de um gastroenterologista em agosto de 2012, e que jamais esquecerei. Nem dela, nem da minha reação, a rir-me: «E quem é que fica no meu lugar?

A empresa vai colapsar. É impossível eu tirar férias.» A sensação de que somos insubstituíveis e, de alguma forma, super-humanos, é algo que pode parecer ridículo agora, mas que na altura era a mais pura realidade.

O médico, mais desesperado do que eu, ainda me disse: «Vânia, tem uma pangastrite crónica [o estômago todo em chamas] há mais de seis meses. Já lhe dei os medicamentos mais fortes que tenho para úlceras. Há mais de um ano que só dorme com remédios. Há dois que tem o cortisol, a hormona do stress, elevado. Não há mais nada que possa fazer a não ser tirar férias.»

Dois meses depois descobri um nódulo na mama que veio a revelar-se um cancro de mama triplo negativo (muito agressivo). E aí, sim, pude realmente tirar as tais férias. Descansar, desligar e recuperar. E sem culpa. É que afinal não tinha sido escolha minha - estava a ser obrigada.

Eu realmente senti, no mais profundo do meu ser, «agora posso descansar». Sentir que realmente era necessário parar não era suficiente. Na altura precisava de fatores externos que validassem as minhas necessidades e vontades.

A simples notícia do cancro não foi suficiente. Foi preciso um cancro mesmo agressivo para que tivesse de passar por todo o pacote de protocolo: cirurgias, congelamento de embriões, quimioterapia forte e radioterapia agressiva. Só assim tirei o tempo necessário para olhar para a vida a partir de mim e não a viver a partir da vida. Eu estava exausta. Exausta de tudo.

Chegava a casa e nem conversar queria. Normalmente envolvo-me demasiado em tudo o que faço, faz parte da minha personalidade. Seja em que área for, eu quero ser excelente, quero ajudar e preencher o que está em falta. Tenho tendência para ultrapassar os meus limites.

Claro que naquela altura nem sequer conhecia os meus limites. Essa palavra não existia no meu vocabulário. O meu Blackberry era uma extensão de mim. Quantos emails respondi de madrugada (trabalhava com pessoas em diferentes fusos horários), quantas notas fiz de ideias que surgiam sempre durante a noite. Fins de semana na praia, deitada na areia e a teclar no Blackberry porque o trabalho era uma desculpa social e familiarmente aceitável.

Ninguém questiona se o motivo é trabalho. Parece que ultrapassar todos os limites por trabalho é plausível, é aceitável, é compreensível e - pior - admirável. Cedia às exigências dos meus superiores e cobrava-me mais ainda pelas minhas próprias. Ninguém podia exigir mais de mim do que aquilo que eu mesma exigia.

Andava impaciente e intolerante, mas por fora sorria e mostrava-me disponível. Por dentro andava irritada e qualquer obstáculo frustrava-me. Sentia que estava tudo fora do meu controlo. Gosto muito de desafios. Eles fazem-me mover. Sou ansiosa e os desafios fazem com que a minha ansiedade seja canalizada para a criação. Mas os últimos anos da minha vida, antes do cancro, tinham sido muito desafiantes em termos pessoais e profissionais.

E a minha alma de bombeiro, que passava o dia a apagar fogos, misturada com a de supermulher, achava que dava conta de tudo. Acreditava realmente que se não conseguisse então é porque tinha um problema. E entrei num loop de negatividade: «Porque é que tudo me acontece? Acho que não sou capaz. Devo ter algum problema.»

No entanto, quando recebi o diagnóstico do cancro, a segunda coisa que pensei foi: «Eu sei porque é que isto me aconteceu. O meu corpo tentou avisar-me.» Já agora, o primeiro pensamento foi que tudo aquilo era uma piada e que deveria ser engano. Hoje conheço-me um pouco mais. Fiz e continuo a fazer um trabalho profundo de autoconhecimento, aquele que nunca se esgota e que se vai transformando através de novas conexões neurais.

Sei os meus limites e criei uma estrutura onde me respeito. Respeito os meus valores e os meus limites. Entendo melhor a noção do tempo e da definição dos vários papéis que exerço na minha vida. Criei um blogue onde contei a minha experiência e escrevi um livro.

São as histórias de dores pessoais que nos fazem mudar a trajetória das nossas vidas. Crescemos no amor e na dor. No entanto, na dor, crescemos muito mais depressa. Eu, com formação em Comunicação Social, a administrar uma empresa portuguesa de tradução no Brasil, a lidar com um cancro de mama triplo negativo aos 31 anos, com um ano e meio de casada e a querer engravidar, comecei a pôr a minha vida em perspetiva. Voltei-me para estudos e pesquisas.

Queria entender o que andávamos a fazer que nos estava a deixar tão doentes. Que relação tinham as nossas emoções, o que comemos e o que fazemos, com a nossa saúde física, mental e emocional?

O que é que eu ando a fazer a esta vida? Como é que a quero viver e quem quero levar comigo?

Impulsionada por querer responder a estas questões e por querer ajudar quem precisa, criei o blogue Minha Vida Comigo, um projeto social «Lenços da Solidariedade», publiquei três livros - um em Portugal e dois no Brasil -, dei uma palestra no primeiro TEDx feminino de São Paulo e, depois de diversas formações, acabei por me tornar Especialista em Gestão Pessoal de Saúde.

Ajudo as minhas clientes a viverem a Vida Delas Com Elas. Trabalho maioritariamente com mulheres. Algumas com cancro, outras que já tiveram cancro, algumas com doenças autoimunes e muitas no início de um Burnout.

Grande parte das mulheres que têm ou tiveram cancro, antes de terem recebido o diagnóstico, estavam a passar por algum grau de burnout. Outras estavam ou estão esgotadas em várias áreas da vida delas. Afinal, quem não está? No entanto, neste livro, vamos focar-nos especificamente no burnout.

E o que é o burn-out?

Basicamente é a síndrome de esgotamento profissional.

Este ano, finalmente, a Organização Mundial de Saúde (OMS), inseriu o burnout na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), como uma síndrome crónica de problemas associados ao emprego e ao desemprego, com o código QD85.

Na lista, o burnout é definido como «síndrome que resulta de um stress crónico no local de trabalho que não foi bem gerido». Também se destaca: «O burnout refere-se especificamente a fenómenos no contexto profissional e não deve ser aplicado para descrever experiências noutras áreas da vida», deixando assim o burnout fora do capítulo de Transtornos Mentais, Comportamentais ou de Neurodesenvolvimento.

É caracterizado como uma síndrome ocupacional, que pode levar a sentimentos de exaustão ou esgotamento de energia; aumento do distanciamento mental do próprio trabalho, ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao próprio trabalho; e redução da eficácia profissional. Até há poucos anos, o burnout só era associado a profissionais de saúde, levando muitas vezes ao suicídio e a longas licenças de afastamento de médicos, enfermeiros, cuidadores.

Hoje, pela crescente competitividade, pressão por produtividade, metas impossíveis, conflitos entre colegas, expectativas e frustrações profissionais, foco negativo nos problemas, falta de feedbacks positivos e características pessoais de personalidade, vemos cada vez mais pessoas insatisfeitas com as suas atividades profissionais, esgotadas, exaustas, desmotivadas, no limite. Alguns meses antes do meu diagnóstico, disse ao meu marido, meio a brincar, qualquer coisa como: «Se eu continuar com este ritmo ainda tenho um AVC, um ataque cardíaco ou um cancro.»

Foi ele quem se lembrou deste meu comentário nada responsável. Eu apaguei-o da memória. Nas páginas seguintes vamos falar sobre esta síndrome. Causas, como a reconhecer, consequências e o que pode ser feito para mudar o cenário e a rota que a nossa vida está a levar. Se queremos resultados diferentes daqueles que temos tido até agora é necessário que façamos as coisas de forma diferente.

A mais pequena mudança pode fazer a diferença. Para contextualizar, explico também um pouco como funciona o corpo e como está ligado à mente. O que acontece em termos neurológicos e hormonais. E sugiro dicas práticas de estratégias para implementar no dia a dia.

Vou usar, a título de exemplo, casos reais de clientes minhas. No entanto, os nomes e referências que as possam, de alguma forma, identificar, serão alterados de forma a proteger a sua privacidade. A minha sugestão para a leitura deste livro é que siga por ordem. Não salte capítulos. Nem leia de trás para a frente ou em ordem aleatória, nem a fazer outra coisa ao mesmo tempo. Foque.

Temos tendência para achar que somos multitarefas e vivemos na ansiedade de querer rentabilizar o tempo. No entanto, lamento informar, mas o nosso cérebro não é multitarefa. Ele apenas salta rapidamente de uma tarefa para outra. E enquanto continuarmos a abusar, só vamos causar mais ansiedade e sofrer as suas consequências quando em excesso.

No Capítulo 3 falaremos um pouco sobre o funcionamento do nosso cérebro (mas não salte já para ele). E quanto a «rentabilizar o tempo», tenha em conta que o tempo é igual para todos nós. Para que sejamos mais efetivos naquilo que fazemos, devemos priorizar e não correr contra ele.

E, se quer ter a oportunidade de fazer as coisas de uma forma diferente para experimentar resultados diferentes, priorize-se. Esta é a sua hora, o seu momento. Vale a pena. Lembro que este livro não substitui nenhum profissional de saúde, nenhuma consulta médica. Utilize-o como uma ferramenta de tomada de consciência e de auto-observação para que possa tomar as medidas que ache ser necessárias. O autoconhecimento é o tipo de conhecimento onde mais devemos investir. Quando estamos conscientes de nós, podemos ser e estar mais conscientes sobre o mundo.

E, quando terminar este livro, vai perceber a responsabilidade e o poder que temos nas nossas mãos. Boa leitura.

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