Por detrás da etiqueta "Made in Bangladesh"

Um filme para conhecer a realidade de quem trabalha nas fábricas têxteis, em condições desumanas, longe da atenção mediática. Made in Bangladesh é uma história de mulheres assinada por uma mulher, Rubaiyat Hossain.

Imagine-se a produção diária de 1650 T-shirts numa pequena fábrica em Daca, Bangladesh. Depois, imagine-se que o preço de duas ou três dessas simples T-shirts equivale a um mês de salário de um só operário - no caso, de uma operária. E, finalmente, imagine-se a cara da operária quando lhe é revelada esta perversa lógica de mercado, estando ela a viver em grandes dificuldades, a trabalhar demais e, ainda por cima, com o marido desempregado, sendo a única a sustentar a casa.

A situação descrita é a da protagonista de Made in Bangladesh, filme de Rubaiyat Hossain que dá a conhecer a realidade por detrás das etiquetas de várias peças de roupa que encontramos à venda no shopping... e no nosso guarda-roupa. Shimu (assim se chama a jovem heroína) começa a descobrir, com a ajuda de uma jornalista, que tem direitos laborais, mesmo que estes lhe sejam completamente vedados pelos capatazes da fábrica onde trabalha. Pouco a pouco, ela, que é uma das melhores costureiras ali, vai juntando algumas das suas colegas e fazendo crescer a consciência de que é possível lutar por esses direitos de forma concreta, isto é, com a criação de um sindicato.

Naturalmente, o seu caminho estará cheio de obstáculos, dentro do sistema e da própria casa - o marido não apoia qualquer ideia de emancipação -, mas é a imagem pura da persistência e união feminina que interessa à lente de Hossain. Até porque Made in Banglandesh assenta num discurso genuinamente feminista, que procura, pelos seus meios, expor a condição das mulheres no Bangladesh. E fá-lo, desde logo, sublinhando os traços de uma cultura sexista, tanto do ponto de vista social como doméstico.

Em termos de tecido dramático, o filme apresenta algumas fragilidades, nomeadamente no aspeto demasiado funcional dos diálogos, muitas vezes sem nada mais a tratar do que o(s) seu(s) tema(s). Porém, não ficamos indiferentes às imagens, à honestidade refletida nos olhos da protagonista e à urgência do que é retratado. Algo que persiste no ouvido e na retina: o som agressivo das máquinas de costura a trabalhar em simultâneo e as cores vivas e intensas dos tecidos que abundam.

Coproduzido pelo Bangladesh, França, Dinamarca e Portugal (Midas Filmes), este é um olhar social de verdadeiro cunho feminino, que aponta as atenções para um cenário oculto, praticamente ausente da agenda mediática.

** Com interesse

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG