Pitou, o rapaz de sotaque francês a quem Amália se rendeu

Os 100 anos de Amália são evocados esta noite em Coimbra, num espetáculo que celebra o encontro da fadista com o compositor Alain Oulman. Não é só o fado, mas é o jazz que serve de base ao espetáculo "Pitou", à volta do álbum "Com que Voz", que também celebra este ano meio século. Tudo desenhado pela Tarrafo - Associação Cultural

Quando esta noite se iluminar o palco do grande auditório no Convento de São Francisco, em Coimbra, há de esbater-se qualquer ponta de ciúme no fado. "Pitou" (assim era tratado no seio familiar o compositor Alain Oulman) dá nome ao espetáculo que ali marca os 100 anos de Amália, numa cidade que canta o seu próprio fado.

"Amália nunca teve uma grande relação com Coimbra, à exceção do filme Capas Negras", recorda ao DN Adérito Araújo, que divide a direção artística com Catarina Gouveia, João Fong, Pedro Lopes e Tiago Almeida. Mas Coimbra não poderia ficar indiferente à figura, à música, ao legado de Amália. E por isso quis fazer diferente: "celebrar esse encontro artístico entre os dois, que acabou por alargar o espetro musical do fado". O ponto de partida para o espetáculo desta noite é esse, envolto no disco "Com que Voz", que saiu à rua em 1970. E por isso toda a cena musical - que assenta no jazz, na voz e na dança - acontece entre os temas que o compõem. "Cem anos depois de Amália ter nascido e 50 anos depois da edição do álbum, o que queremos agora é convidar a cidade a ser testemunha deste acaso feliz, levada pela dança do fado com outras vozes da música, entre corpos e imagens, até quem sabe cada um de nós poder chegar, em ousando, a esse encontro por que sempre vamos esperando".

Ao centro o piano e lá dentro uma voz em potência, "queda à espera de quem a descubra, de quem seja capaz de a fazer sua. Assim um dia se sentou Alain Oulman diante de Lisboa, diante da poesia, diante do fado e diante do mundo, a laborar no sonho de o cantar com a voz da Amália", descreve a sinopse. Foi assim que a Associação Tarrafo idealizou ser parte integrante do festival Correntes de Um Só Rio, juntar os artistas e evocar esse "encontro de imaginações e de militâncias, de exílios e de audácias, de tristezas e de vocações, vindos de muitos lugares e muitos tempos, só para que eles fossem capazes de os fazer soar por dentro de cada um de nós, como uma voz que afinal era a nossa".

Amália como Coimbra nunca viu

O espetáculo é aberto ao público desde tenra idade (a partir dos 6 anos) e começa com Madrugada de Alfama (David Mourão-Ferreira, Alain Oulman). Passa depois pois As mãos que trago (Cecília Meireles, AlainOulman); Meu limão de amargura (Ary dos Santos, Alain Oulman); Naufrágio (Pus o meu sonho num navio) (Cecília Meireles, Alain Oulman); Trova do vento que passa (Manuel Alegre, Alain Oulman); Cuidei que tinha morrido (Pedro Homem de Mello, Alain Oulman); Gaivota (Alexandre O"Neill, Alain Oulman); Havemos de ir a Viana (Pedro Homem de Mello, Alain

Oulman);Formiga bossa nova (Alexandre O"Neill, Alain Oulman); Cravos de Papel (António de Sousa, Alain Oulman); Maria Lisboa (David Mourão-Ferreira, Alain Oulman) e por fim Com que Voz (Luís de Camões, Alain Oulman).

Gravado em duas noites (7 e 8 de Janeiro de 1969) e editado a 25 Março de 1970, este disco foi considerado "o álbum perfeito" de Amália Rodrigues e, para muitos, o melhor alguma vez feito em Portugal.

Para o celebrar, a Tarrafo - Associação Cultural arranjou forma de "resistir à tentação do caminho mais simples, que era usar o nome de Amália como garantia de sucesso. Por isso optámos por focar na figura do compositor, Pitou - no seio familiar", explica Adérito Araújo, que Coimbra conhece bem do GEFAC e outras áreas culturais, além da universidade.

Alain Oulman, que era pianista, gostaria certamente de ver Luís Figueiredo esta noite nesse papel. Assim como Bernardo Moreira no contrabaixo, Bernardo Couto na guitarra portuguesa, João Neves na voz e Ricardo J. Dias no acordeão. Ele e Amália haveriam de apreciar esse encontro entre os bailarinos Clara Carvalho, António Bollano, Bárbara Cordeiro e Magnum Soares. Juntam-se os textos de Catarina Gouveia, enquanto o ator Igor Lebreaud dá vida a Pitou. A locução é de Maria Manuel Almeida e as vozes de Alexandre de Barros, Catarina Moura, Joana Dourado, Luís Pedro Madeira, Miguel Moura Madeira, Pedro Nuno Lopes, Rita Viola, Sílvia Franklim, Tiago C. Almeida. O vídeo e fotografia estão a cargo de Bruno Pires e Henrique Patrício.

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