Ópera ‘La Vera Costanza’ renasce neste sábado no Casino Estoril
Foi no âmbito de um mestrado em Musicologia Histórica na Universidade Nova que Diogo Gaio Chaves resgatou La Vera Costanza do baú da História. E até literalmente.
“Numa caixa na Torre do Tombo encontrei os custos da ópera representada em 1789 em Lisboa. Em réis. Uma soma difícil de transpôr para hoje, mas muito elevada de certeza. Era preciso pagar figurinos, cenários, cabeleireiro, azeite, cera, vidraceiro, tintas, enfeites, alfaiates e, claro, os cantores e os músicos”, realça o musicólogo, numa conversa que decorre na Sociedade Filarmónica União e Capricho Olivalense, onde decorreram os ensaios de La Vera Costanza, que depois de 237 anos esquecida, tem uma estreia moderna no sábado, dia 3, às 18.00, no Salão Preto e Prata do Casino Estoril.
“Para além dos sete cantores (cinco castrati e dois baixos) e oito bailarinos, encontramos referência a 20 comparsas (figurantes) para a ópera e mais oito para a dança que foi feita entre os dois atos, e uma orquestra com 32 a 35 músicos”, sublinha Diogo Gaio Chaves, que esclarece ainda que nas representações para a família real os papéis femininos, como a peixeira Rosina, estavam na época entregues aos castrati.
A representação no Teatro da Ajuda, que ardeu mais tarde como toda a Real Barraca (o palácio em madeira construído depois do terramoto de 1755), aconteceu quatro anos depois de uma primeira récita em Salvaterra de Magos, onde a família real passava o carnaval. Apesar da destruição de Lisboa, e do esforço de reconstrução, a Corte de D. José e depois a de D. Maria I nunca deixaram de assistir a óperas. “Entre o terramoto de 1755 e a abertura do São Carlos, em 1793, há cerca de duas centenas de produções de música dramática na Corte. Destas - excluindo serenatas e oratórias - encontramos apenas nove óperas de compositores portugueses: duas eram de Jerónimo Francisco de Lima, autor de La Vera Costanza”, acrescenta Diogo Gaio Chaves.
Envolvido na redescoberta está o Laboratório de Ópera Portuguesa (LOP), criado em 2022 com uma missão clara, explica a diretora Jenny Silvestre, que é “recuperar património lírico português que ficou perdido no tempo, voltar a trazê-lo à luz do dia e deixá-lo à disposição de todos, como mais uma parcela da nossa história”. Cada título recuperado serve também de “pretexto para nos aproximarmos de diferentes territórios”, acrescenta a musicóloga.
A ligação neste caso ao concelho de Cascais tem que ver com o mar, pois a protagonista de La Vera Costanza é uma peixeira, e muita da ação decorre numa aldeia piscatória (e, além da paixão de Rosina por um conde, mais não revelo do libreto, anónimo, embora atribuído em algumas fontes a Francesco Puttini).
“Em 2023, com a opereta Maria da Fonte, de Augusto Machado, o LOP trabalhou com a Póvoa de Lanhoso, onde se deu a célebre revolta. Maria da Fonte estreou no Teatro da Trindade em 1879 e só voltou a ser ouvida em 2023, no Grande Auditório do CCB. Nós só pegamos em património que nunca mais foi feito, e por isso é que são estreias modernas”, explica Jenny Silvestre.
Nas instalações da Filarmónica, nos Olivais, quem assiste ao ensaio dirigido pelo maestro João Tiago Santos percebe que é uma ópera cómica. No final do século XVIII a obra de Jerónimo Francisco de Lima serviu para comemorar o aniversário do príncipe D. João, o futuro D. João VI, que haveria de salvar a dinastia atravessando o Atlântico e estabelecendo no Rio de Janeiro a capital do império dos Bragança, ao ponto de Napoleão Bonaparte, que depôs vários reis, dizer que o português fora o único que o enganara.
O mesmo libreto italiano inspirou Joseph Haydn, que levou a palco a sua própria La Vera Costanza ainda antes do compositor português. “A qualidade da La Vera Costanza de Jerónimo Francisco de Lima não é de todo inferior à de Joseph Haydn”, realça Jenny Silvestre, que, além de diretora do LOP, é cravista.
“A obra enquadra-se absolutamente no gosto da ópera cómica italiana daquela época. Apesar de estarmos a falar de um período que nem pouco mais ou menos tem a globalização de hoje em dia, havia um gosto musical que era conhecido pela Europa fora. Havia, de facto, uma linguagem mais ou menos universal, com o italiano como língua da ópera, sobretudo para um compositor como Jerónimo Francisco de Lima, que vem de Nápoles completamente impregnado”, afirma João Tiago Santos.
Para o maestro, com uma carreira internacional e que atualmente vive na Suíça, esta La Vera Costanza é um desafio. “Uma obra fechada num manuscrito é como se não existisse. Está morta, e no fundo nós estamos a tentar ressuscitá-la. A surpresa foi agradável, tanto pela qualidade da música como por todo o potencial da história em termos cénicos. Mas o trabalho de adaptação é grande: há coisas que funcionariam no século XVIII e que hoje em dia não. A partitura teve de ser revista e corrigida: Tudo está escrito à mão, por vezes não se percebe se isto é um dó, ou um si, ou um ré. Muitas passagens exigem escolhas. É preciso tomar uma opção e dizer: aqui vamos”.
Conclui o maestro que a ausência de gravações é uma faca de dois gumes. “Não temos de nos estar a comparar com a gravação deste cantor, ou com este maestro. Ao mesmo tempo, não temos referências. Houve também cortes, porque a obra é bastante longa. O resultado nunca será igual ao original: a história é uma coisa que podemos tentar reconstruir, mas ela nunca vai ser igual”, diz João Tiago Santos, que nos convida a descobrir esta ópera portuguesa resgatada do tal baú da História.

