Paulo Caetano: “Censo de 2025 registou 394 linces em Portugal e 2663 em toda a Península Ibérica, um máximo histórico“
Publicou Portugal Selvagem- Extinções e Regressos, com Miguel Brandão Pimenta como co-autor. O regresso do castor é o mais recente detetado? Há quanto tempo era dado com desaparecido do território português?
Sim. O castor-europeu é um dos casos mais recentes e mais surpreendentes de regresso. Em 2025 foram confirmados sinais da sua presença no Parque Natural do Douro Internacional, depois de mais de cinco séculos de ausência. A última referência documental conhecida remonta a 1446, pelo que estamos perante uma espécie que terá desaparecido de Portugal durante o século XV. É particularmente interessante porque o castor não regressou através de um programa de reintrodução em Portugal: chegou por dispersão natural a partir de populações soltas ilegalmente em Espanha. Apesar de tudo, é um bom exemplo de como a recuperação de uma espécie num país pode acabar por ter consequências para os territórios vizinhos.
Também há regresso de várias aves de rapina. Quais e onde?
Há várias histórias de recuperação. A águia-imperial-ibérica voltou a nidificar em Portugal em 2003, depois de ter estado ausente como reprodutora durante os anos 80 e 90, e tem vindo a recuperar a sua área de distribuição, sobretudo no Alentejo e junto ao Tejo Internacional. O abutre-preto também recuperou e voltou a nidificar no Alentejo em 2015, depois de mais de quatro décadas de ausência como reprodutor na região. São histórias que mostram que a natureza tem capacidade de recuperação, mas também que raramente o faz sozinha. Alimentação disponível, proteção dos locais de nidificação, redução da perseguição e programas de conservação, desenvolvidos por investigadores e associações, foram fundamentais.
O regresso dos ursos é mito ou existe essa possibilidade por causa da recuperação em Espanha?
Existe uma possibilidade real de o urso-pardo voltar a visitar regularmente o território português, sobretudo no Norte. A recuperação da população cantábrica aumentou a probabilidade de dispersão de jovens machos para oeste. Já houve registos confirmados em Portugal, incluindo no Parque Natural de Montesinho. Mas é importante distinguir uma incursão de uma população residente. A existência de ursos ocasionais em Portugal é perfeitamente plausível; estabelecer uma população reprodutora é outra questão, que dependeria de habitat, alimento, conectividade e, sobretudo, de aceitação social e políticas públicas de conservação adequadas. E, como sabemos, isso raramente é uma prioridade de quem nos governa.
O lince é um caso de sucesso?
É provavelmente o melhor exemplo português de que uma extinção pode ser revertida quando existe uma estratégia de conservação consistente - neste caso concreto desenvolvida por Espanha e que nós acabámos por integrar. O lince desapareceu como reprodutor de grande parte do território português e regressou através de um programa ibérico que envolveu reprodução em cativeiro, libertações, recuperação de habitat e monitorização. Os resultados são extraordinários: o censo de 2025 registou 394 linces em Portugal e 2663 em toda a Península Ibérica, um máximo histórico. Mas não significa que o problema esteja definitivamente resolvido.
Como se interessou por esta temática?
O meu interesse vem de há muitos anos e cruza o jornalismo, a investigação e o documentário. Sempre me interessou perceber a relação entre as pessoas e a natureza e, sobretudo, aquilo que acontece quando essa relação se transforma. O desaparecimento de uma espécie conta quase sempre uma história sobre nós: sobre a caça, a agricultura, a transformação da paisagem ou as alterações climáticas. Este livro permitiu-me olhar para essa história pelo lado inverso: não apenas através das extinções, mas também dos regressos.
Como funcionou a parceria com Miguel Brandão Pimenta?
Foi literalmente um trabalho a quatro mãos. Dividimos a escrita dos capítulos, mas não dividimos a investigação. Fizemos pesquisas bibliográficas, consultámos trabalhos científicos e académicos, documentos históricos e jornalísticos e entrevistámos investigadores e protagonistas. Depois partilhávamos tudo. Mesmo quando um capítulo estava atribuído a um de nós, o outro continuava envolvido na investigação. Já trabalhámos assim noutras obras e existe entre nós uma grande cumplicidade. Muitas vezes uma descoberta feita por um de nós acabava por alterar ou enriquecer o capítulo do outro.
Das ilustrações de Patrícia Furtado no livro há alguma de que goste mais?
É difícil escolher uma, porque a Patrícia conseguiu fazer uma coisa particularmente importante: não ilustrou simplesmente os animais; ilustrou as histórias que contamos sobre eles. Mas se tiver que escolher algumas, diria que adoro a do lince e do abutre-preto. Mas tenho um carinho especial pelas ilustrações das espécies extintas, porque há qualquer coisa de muito poderosa em dar novamente presença a um animal que já só conhecemos através de ossos, documentos ou descrições antigas. É uma espécie de regresso impossível — e talvez seja precisamente isso que torna essas imagens tão interessantes. Se tiver mesmo de escolher, diria que adoro a do lince e do abutre-preto.
