A primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira (1908-2015), Aniki-Bóbó, tem data de 1942. Só voltaria a assinar um filme, O Pintor e a Cidade, uma curta-metragem, em 1956. O que nos conduz a uma interrogação, porventura irónica, mas plena de objetividade: e se, “inventando” uma nova filmografia, disséssemos que entre essas datas importa não esquecer mais seis títulos? Quais? Eis a lista: Saltimbancos (1944), Resposta ao nº 327 e Documentário sobre Lisboa (ambos de 1945), Claire de Lune (1946), Angélica (1954) e Pedro e Inês (1955).Pois bem, essa filmografia imaginária está longe de ser abstrata. Pertence mesmo a um inventário recentemente concluído pela Casa do Cinema Manoel de Oliveira (CCMO), da Fundação de Serralves, através do segundo volume dos Projetos não realizados do cineasta (o primeiro surgira em 2024), incluindo apontamentos ou guiões de muitos deles. O mínimo que se pode dizer é que o legado de Oliveira se faz tanto dos filmes que realizou como das dezenas de projetos que não conseguiu concretizar, mesmo quando o seu desenvolvimento evoluiu até argumentos praticamente concluídos — são projetos que encontramos em todas as fases da sua carreira, com especial incidência nas décadas de 1960/70.O filme que serve de fronteira histórica aos dois volumes, precisamente O Pintor e a Cidade, sobre o notável aguarelista António Cruz, possui um importante significado prático e simbólico. Trata-se de um documentário que permite perceber a paradoxal insuficiência do rótulo de “documentarista” aplicado a Oliveira (por vezes de modo depreciativo). Em 1963, a sua segunda longa-metragem, Acto da Primavera, iria esclarecer esse que é, afinal, um elemento estrutural do seu universo.Assim, por exemplo, em 1957 e 1961, deparamos com projetos não concretizados de documentários, respetivamente sobre o vinho do Porto e as barragens do Douro. Mas há também casos de desmedida (e fascinante!) ambição ficcional que ficaram por filmar. O violento drama passional, O Preto e o Negro (1979), do qual existe uma planificação com 74 cenas, terá sido um dos mais elaborados — tinha como base uma “peça cinematográfica” de Vicente Sanches, autor do texto teatral que Oliveira adaptara em O Passado e o Presente (1971). Isto sem esquecer que, logo após a conclusão de Francisca (1981), Oliveira chegou a pensar na possibilidade de transpor para contexto português a novela Tonio Kröger, de Thomas Mann. O exemplo de Angélica é, de facto, uma das excepções que confirmam a regra: Oliveira pôde concretizar a sua ideia em 2010, com o título O Estranho Caso de Angélica (dois anos antes de O Gebo e a Sombra, a sua derradeira longa-metragem). .O longo e precioso prefácio de António Preto, diretor da CCMO, permite-nos perceber as singularidades e os enigmas dos dados agora coligidos: “Seria, pois, tentador afirmar que a filmografia de Manoel de Oliveira mais que duplicaria se adicionássemos aos filmes realizados aqueles que não realizou.” Que teria acontecido, por exemplo, se se tivesse prolongado a “veia modernista” de Douro, Faina Fluvial (1931)? E como seriam os “projetos de pendor social” dessa mesma década? Ou ainda, que caminhos tomaria a sua obra se tivesse podido concretizar o “aspecto cómico que caracteriza muitos dos argumentos da década seguinte”?A par desta edição, a CCMO lançou o quarto e último volume de Manuel de Oliveira e o Cinema Português (subtítulo: “Ontem como Hoje”), trabalho monumental com edição e curadoria de António Preto e João Mário Grilo, tendo como base o “arquivo pessoal do cineasta, depositado na Fundação de Serralves”. Estamos perante mais um exemplo modelar de toda uma equipa apostada em manter viva a herança de um passado criativo que continua a dialogar com o nosso presente.