Os tristes salteadores dos ovos

Estreou-se nos cinema da NOS na semana passada e agora está a chegar à Netflix. Chama-se Aviso Vermelho e é uma excentricidade que junta Dwayne Johnson, Gal Gadot e Ryan Reynolds.

O espírito de Indiana Jones não passa por este filme de aventuras todinho marcado pelo código de estilo Netflix. Se é verdade que Ryan Reynolds cita a música de John Williams de Os Salteadores da Arca Perdida e brinca com Parque Jurássico numa piada acerca do apelido do cineasta e ator Richard Attenborough e o ambientalista David Attenborough, nada aqui é feito com a mestria e a seriedade de Steven Spielberg. Rawson Marshall Turber, cineasta brutamontes de Arranha-Céus, dirige a produção mais cara de sempre da Netflix com uma leveza que é sinónimo de descuido. Aviso Vermelho parece feito às três pancadas, um veículo dispendioso para juntar três das maiores estrelas de cinema da máquina de Hollywood, Ryan Reynolds, Gal Gadot e Dwayne Johnson. Tudo muito conscientemente preguiçoso e sem um engenho de exploração daquilo que poderia ser mais divertido numa história sobre ladrões de arte.

O enredo anda à volta de um agente do FBI caçador de ladrões de arte, John Hartley (Dwayne Johnson), apostado em aliar-se ao segundo ladrão de arte mais procurado do mundo, o solitário Nolan (Ryan Reynolds), para conseguir chegar ao paradeiro da sua rival, a ladra de arte mais procurada, O Bispo (Gal Gadot), misteriosa mulher capaz de ridicularizar a Interpol. Ao fim ao cabo, todos estão na pista de um terceiro ovo de ouro pertencente a Cleopatra, um dos tesouros de arte desviados pelos nazis no final da Segunda Guerra Mundial.

Pontuado pelo habitual humor algo seco de Ryan Reynolds, o filme segue uma fórmula de espetáculo de grande aparato: muitos décors pelo mundo fora, perseguições, explosões e as habituais reviravoltas metidas a martelo. No meio de tudo isto, algum descuido técnico - tanta insistência na manipulação digital faz com que o público nem sinta a escala milionária da empreitada. Os 200 milhões de dólares de orçamento não estão no ecrã e o filme falha naquilo que promete: humor espertalhão e na coreografia das cenas de ação. E outro dos problemas: o argumento vai ao estilo do modelo do filme de caça de tesouros e tenta também ter a fórmula do filme-de-golpe, mas na verdade nunca se decide e isso torna-se fatal...

Rotineiro e sem alma, o caso de Red Notice é uma lição de como Hollywood continua a fazer blockbusters cada vez mais industriais, cada vez mais encomendados. Se as vedetas se divertiram? É bem possível, mas essa diversão não passa para lá do ecrã...

Em Portugal, este é o primeiro grande lançamento de um filme da Netflix nos cinemas (Roma, de Alfonso Cuarón teve apenas lançamento limitado), uma semana antes de chegar à plataforma. Uma experiência sem resultados entusiasmantes, apenas 10 mil bilhetes vendidos no fim de semana passado. Resta saber se Não Olhem para Cima, a comédia-catástrofe de Adam McKay, com Jonah Hill, Jenniffer Lawrence, DiCaprio, Meryl Streep e Timothée Chalamet, se arrisca em dezembro a ter a mesma sina... Era bom que os espectadores portugueses quisessem mesmo ir ao cinema apesar de poderem esperar uma semana para o ver no "conforto" do streaming...

dnot@dn.pt

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