Os filmes que poucos conhecem dos cineastas do momento

Os realizadores da moda do cinema americano não apareceram num estalar de dedos. Quase todos têm um percurso de evolução assinalável e a maioria fez filmes que por esta ou aquela razão não tiveram visibilidade. São obras que agora ganham estampa de preciosidades...

Para compreender um pouco melhor as virtudes nos novos autores de Hollywood acaba por ser importante não deixar como perdidos os filmes menos conhecidos desses cineastas. Filmes que na sua maioria são raros e desaparecidos em combate em Portugal. Tratam-se de pistas para uma evolução daquilo que é também conhecida como "novíssima Hollywood", na qual uma série de vozes diversas não produz um efeito de correnteza mas sim uma pluralidade de registos e linguagens. E nessas obras menos conhecidas estão absolutas pérolas que importa descobrir.

Irmãos Safdie
Heaven Knows What (2014)


Depois de Diamante Bruto (2019), Josh e Bennie Safdie tornam-se na dupla de realizadores da sua geração com maior consagração. Foi como o chegar ao Olimpo. Tratava-se de um drama de suspense sobre a angústia de um jogador compulsivo à beira de perder a família e a credibilidade como negociante de diamantes. Um filme em modo de perfeição a remeter para um certo cinema free nova-iorquino, em que a maior referência é Abel Ferrara.
Antes, alguns anos, fizeram um filme que teve problemas de circulação internacional. Chamava-se Heaven Knows What e era uma pequena grande pérola, um drama intimista que confirmava um apego pelas personagens perdidas de uma Nova Iorque das ruas escuras e sujas, neste caso seguindo as pistas de uma jovem junkie nova-iorquina e a sua espiral de dependência.
Heaven Knows What é de uma tristeza absorvente, um filme sem peripécias narrativas, apenas um contigente de um segmento de tempo. O espectador limita-se a deixar-se ir. Em Portugal apenas passou no LEFFEST, tendo os manos Safdie apresentado todas as sessões.

Taika Waititi
Hunt for the Wilderpeople (2016)


É injusto olhar para o neozelandês apenas como o criador do sucesso Jojo Rabbit. Antes dessa sátira que venceu o Óscar de melhor argumento, já o seu nome tinha alguma aclamação, sobretudo graças à série de vampiros divertidos O Que Fazemos nas Sombras, que lhe granjeou a fama de "Tim Burton dos antípodas".
Em Hunt for The Wilderpeople conta a história de um par improvável: um menino maori obeso e o seu excêntrico tio adotado (grande, enorme interpretação de Sam Neil) em fuga pela floresta neozelandesa como medida de protesto por uma injustiça social. Em pleno mato vão aprofundar a sua relação e fortalecer uma cumplicidade masculina. Um belíssimo filme sobre o mundo dos adultos e das crianças e o poder da rebeldia. Filmado com soluções visuais sempre imaginativas, assume-se também como uma comédia que manda às urtigas as regras dos filmes juvenis. Um objeto de humor insurreto que facilmente ganhou o peso de obra de culto.
Este ano ou para o próximo, a sua insolência volta aos ecrãs com Next Goal Wins, comédia com Michael Fassbender sobre um memorável jogo de futebol.


Chloé Zhao
The Rider (2017)


Antes de chegar a Nomadland - Sobreviver na América e ser a favorita dos Óscares, antes de dirigir Angelina Jolie no filme de super-heróis Eternals, nos cinemas, se tudo correr bem, ainda este ano a cineasta chinesa Chloé Zhao tinha dado ao mundo um filme que em 2017 foi a sensação dos circuito dos festivais. The Rider não tinha estrelas nem um orçamento digno, mas tornou-se respeitado por entrar com realismo na cultura dos cavaleiros de rodeo, neste caso acompanhando um jovem cavaleiro proibido de competir devido a uma grave lesão na cabeça.
O filme foi ignorado pelo sistema de distribuição em Portugal. Porventura, poderá um dia destes cair nas novidades invisíveis da Netflix, caso se confirme o triunfo desta cineasta na cerimónia da Academia no próximo dia 25.


Robert Eggers
A Bruxa - A Lenda de New England (2015)


O terror com folk-tales americanos tem agora um novo especialista. Após a aclamação em Cannes com O Farol, Robert Eggers ganhou um peso na indústria que o tornou também num dos cineastas mais venerados por uma certa crítica, ao ponto de agora ter tido luz verde para outra sofisticação de horror de luxo, The Northman, com Nicole Kidman, Anya Taylor-Joy, Claes Bang e Ethan Hawke. Mas para chegar a este estatuto temos de ir até 2015, data desse assombroso The Witch, filme que revelaria a menina Anya Taylor-Joy, um conto de bruxas em New England, em 1860, onde um grupo de colonos é afrontado por fenómenos de possessão e bruxedo puro. Era uma obra toda ela repleta de uma linguagem capaz de refrescar as referências sensoriais do género, ou seja, bruxas sem clichés dos efeitos visuais e uma genuína montagem do medo.
Chegou a Portugal apenas nos videoclubes das operadoras e agora só pelo rasto da Amazon...


Barry Jenkins
Medicine for Melancoly (2008)


Aí está um filme raríssimo, mas mesmo nos EUA acabou por ter uma difusão limitada. Trata-se da obra de apresentação do cineasta de Moonlight, Barry Jenkins, aqui a filmar um casal depois da sua primeira noite. Carta de amor a San Francisco com recados contra a gentrificação e o preconceito racial. Se foi aqui que Jenkins ganhou a embalagem para a glória dos Óscares? Difícil de dizer, mas os poucos que repararam nele no South by Southwest e no Toronto International Film Festival endeusavam este pequeno romance low-cost.
Resta esperar que qualquer dia uma plataforma em Portugal o reabilite.


Todd Phillips
Os Traficantes (2016)


Disponível na Apple Tv está este War Dogs, o antecessor de Joker na carreira de Todd Phillips, uma excelente dramatização de um caso verdadeiro sobre dois jovens americanos que se tornaram traficantes de armas um pouco por acaso. Um olhar ácido e crítico sobre um ideal de imperialismo americano, filmado com a habitual "panache" visual deste cineasta. Foi por aqui que começou a ser visto como algo mais do que o cineasta das comédias, como a franquia A Ressaca e Road Trip.
Os Traficantes mostrava também já o cuidado com os atores: Ana de Armas destaca-se, bem como Miles Teller e Jonah Hill. Philips provava que Hollywood pode ainda fazer filmes de estúdio com uma visão de autor. Este é um filme que vai ganhar com a passagem do tempo, pois não merecia ter passado ao lado do público quando se estreou nos cinemas.


Noah Baumbach
Mistress America - Quase Irmãs (2015)


Um dos príncipes do cinema americano atual tem tido um ritmo de trabalho bem considerável. Na avalancha dos seus últimos filmes houve um do qual poucos souberam do paradeiro. De facto, Noah Baumbach é venerado por filmes como A Lula e a Baleia, Frances Ha ou, mais recentemente, Marriage Story, mas são poucos, mesmo nos EUA, que viram Mistress America, escrito a meias por Greta Gerwig, a companheira do realizador.
Comédia dramática sobre duas irmãs adotivas que se conhecem numa Nova Iorque noturna e algo boémia. Análise sobre neuras femininas, o filme tem mais da essência de Gerwig do que Baumbach, mas toca em pontos éticos fundamentais. Baumbach não sabe fazer mau cinema e Gerwig tem aqui uma das suas melhores interpretações.
Em Portugal foi direto para os clubes de vídeo virtuais.

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