Os fantasmas aqui tão perto

Cineasta profundamente americano, Abel Ferrara continua a viver e trabalhar na Europa: o seu novo filme, Sibéria, é uma aventura interior de muitos assombramentos em que, pela sexta vez, dirige o ator Willem Dafoe.

Convenhamos que o novo filme do americano Abel Ferrara, Sibéria, não será o exemplo típico de objeto para a quadra natalícia. O que, entenda-se, não o impede de ser uma das mais desconcertantes e fascinantes estreias dos últimos meses.

Em boa verdade, nenhuma quadra seria "ideal" para o seu lançamento, quanto mais não seja porque Ferrara, revelado há uns bons quarenta anos - com thrillers selvagens como The Driller Killer (1979) e Vingança Duma Mulher (1981) -, sempre foi um criador das margens. Mesmo quando se envolveu com os grandes estúdios - lembremos o admirável Dangerous Game (1993), com Madonna e Harvey Keitel, visão cáustica dos bastidores do próprio cinema, nunca estreado nas salas portuguesas -, Abel Ferrara permaneceu um obstinado independente, capaz de recriar os modelos clássicos de Hollywood de forma original e ousada, explorando as suas zonas mais obscuras e, por assim dizer, convivendo com os seus fantasmas.

De fantasmas, justamente, é necessário falar a propósito de Sibéria. Esta é, de facto, uma viagem protagonizada por uma personagem de muitos assombramentos. Chama-se Clint e tem um bar nas montanhas, uma espécie de refúgio poético (a direção fotográfica de Stefano Falivene faz maravilhas com a paisagem coberta de neve) em que tudo o que acontece define uma intimidade impossível de caracterizar através das categorias psicológicas mais tradicionais.

De tal modo que Clint pode descer à cave e dialogar com o seu "duplo" sobre tudo aquilo que falhou na sua existência para, mais tarde, se descobrir no cenário de uma gruta onde encontra o fantasma do pai (ironicamente, com o rosto ensaboado, a preparar-se para fazer a barba...). Até mesmo os cães (huskies) que vivem com ele na neve podem reaparecer numa cena nas areias de um deserto, acompanhando a sua deambulação sob um sol escaldante.

Exílio, solidão, frio

Não estamos, de facto, perante um filme que se possa definir através de um conjunto de peripécias que nos conduzam a uma coleção racional de efeitos e consequências. Quando o filme foi apresentado no Festival de Berlim (em fevereiro, derradeiro grande certame de cinema antes da pandemia), Ferrara fez uma curiosa observação sobre o título, não o considerando sequer uma identificação geográfica: "Há elementos que podem vir de qualquer parte. O próprio título não sei de onde veio... Para mim, para muitos americanos, Sibéria representa exílio, solidão, frio, um lugar exótico e mágico..."

Sibéria é, assim, uma experiência sensorial que, para lá do seu motor dramático - o confronto de Clint com os silêncios do passado e os enigmas da sua personalidade -, devolve o cinema a um gosto experimental que está longe de ser vanguardista.

O paradoxo, desconcertante e sedutor, é esse mesmo: trata-se de procurar uma dimensão primitiva da arte de filmar que faz do ecrã não uma janela aberta para a vida visível, mas uma composição em movimento, perturbante e sensual, apostada em lidar com o invisível. Se podemos aproximar a vibração surreal de Sibéria de algum dos anteriores trabalhos de Ferrara, será, por certo, dessa insólita experiência que dá pelo nome de Os Viciosos (1995), um filme de... vampiros.

De Nova Iorque para Roma

A filmografia de Ferrara está recheada de experiências que nos remetem para a história e o imaginário made in USA - citemos apenas o caso simbólico de Polícia sem Lei (1992), porventura o seu filme mais célebre, retrato de um polícia corrupto de Nova Iorque interpretado por Harvey Keitel. Ao mesmo tempo, os seus universos narrativos parecem pertencer a uma sensibilidade exilada, empenhada na procura de um lugar alternativo para viver. Confirmando ou não tal bilhete de identidade, recordemos que o nova-iorquino Ferrara deixou os EUA pouco depois do 11 de Setembro: vive em Roma e, de uma maneira ou de outra, todos os seus filmes dos últimos anos são produções de raiz italiana.

Enfim, importa não esquecer que tudo o que acontece no cinema de Ferrara envolve uma relação muito particular, de metódica cumplicidade, com os atores. Os exemplos são múltiplos: Christopher Walken compondo um alucinado líder do crime, em O Rei de Nova Iorque (1990); Juliette Binoche revisitando a herança da Bíblia, em Maria Madalena (2005); Gérard Depardieu numa personagem inspirada no escândalo Dominique Strauss-Kahn, em Bem-Vindo a Nova Iorque (2014).

E ainda, claro, Willem Dafoe, intérprete de todos os riscos, compondo o atormentado Clint de Sibéria. É a sexta vez que trabalham juntos, depois de títulos como 4:44, Último Dia na Terra (2011), uma amarga história de amor em ambiente de ficção científica, ou Pasolini (2014), centrado no dia em que o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini foi assassinado. Na visão de Ferrara, como na disponibilidade de Dafoe, prevalece um estranho e envolvente realismo: para conhecermos o que somos, é forçoso lidar com o medo do que não conhecemos.

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