Os emergentes do cinema

Alguns dos talentos emergentes do cinema português que vão dar cartas em Portugal e internacionalmente. Apostas para um ano em que o cinema nacional vai voltar aos grandes festivais internacionais. Iris Cayatte, Rafael Morais, Gonçalo Galvão Teles, Joana Peralta e Bruno Ferreira.

Parece uma evidência: o cinema português é bem exportável em festivais internacionais de lista A, mesmo quando é invisível em muitos dos mercados e continua a ser ignorado na Academia de Hollywood, valha o que isso valer... Em 2022 há pistas para acreditar que alguns dos novos filmes vão ter uma boa vida lá fora. Nesse sentido, vale a pena tentar perceber quem são os talentos emergentes deste ano. São muitos mais dos que aqui estão e podem, com alguma sorte, dar cartas internacionalmente. Estes são talentos que este ano vão ter mais exposição, da realização à produção, passando pela interpretação.

Joana Peralta - Uma produtora cineasta

Começam a surgir cada vez mais nomes femininos na produção de filmes em Portugal. Joana Peralta, 30 anos, é parte dessa nova força, desse novo sangue jovem, capaz de pôr de pé projetos sem financiamento considerável e apelar a um espírito de desenrasca. De certa maneira, é alguém que pode vir a ter um peso na forma de produzir com criatividade. Em breve, um dos seus bebés, Simon Chama, de Marta Sousa Ribeiro, deve ter ordem de estreia nas salas. Trata-se de um filme filmado ao longo do tempo e narra o processo de crescimento de um adolescente na periferia de Lisboa. O Festival de San Sebastián já reparou nele e selecionou-o em 2020.

"Trata-se de um filme com que qualquer um se pode facilmente identificar. Tanto com o Simon, um puto a tentar descobrir-se longe do controlo da mãe ou com a relação problemática dos pais quando se começam a relacionar, bem como por vermos a nossa mãe naquela mãe ou a nós próprios no pai que está em constante fuga para ser livre", publicita assim este filme feito em espírito coletivo, tal como já tinha acontecido com o muito falado e pouco visto Verão Danado, de Pedro Cabeleira, da produtora de colegas da Escola de Cinema, a Videolotion. Aliás, Joana deu tudo por esta produtora que prometia uma ideia de cinema "punk". A propósito de promessas, Joana garante que agora quer também realizar.

Para o futuro da internacionalização do cinema português, garante que o segredo é encontrar soluções para uma maior distribuição dos filmes: "Acho que passa muito pela união de forças. Quando comecei a trabalhar percebi que era bastante raro as produtoras se juntarem ou sequer comunicarem entre si. Agora, isso começa a mudar e penso que a solução passa pelas produtoras e associações do cinema se juntarem e pensarem em planos de distribuição lá para fora". Vamos ouvir falar muito de Joana Peralta...

Bruno Ferreira - Das curtas para o surrealismo do real

Outro caso de um produtor que é também cineasta. Alguém que foi formado entre Nova Iorque e Lisboa e cujo nome talvez seja mais conhecido pelos telediscos que dirigiu para gente como os Paus, Youthless ou Riding Panico, mas que já foi selecionado no Curtas Vila do Conde com Pas de Confetis, relato realista de uma vivência de adolescência. Seja como for, o seu mais recente cartão de visita é Rastro, uma curta-metragem rodada na zona de Setúbal sobre um guarda-redes de futebol que se insurge contra os plásticos na praia. Um filme de mensagem ecológica mas com um punhado de ideias de cinema que não são comuns em Portugal. Rastro tem também a particularidade de ser financiado pela Betclic. Uma marca a financiar ficção cinematográfica? Bruno Ferreira obviamente não considera uma heresia: "Tenho zero vergonha de o ter feito. Aliás, estou muito grato por isso. Fiz cinema com o dinheiro de uma instituição que não me pediu nada em troca a não ser fazer arte. O que mais poderia pedir? Se estes apoios vierem sem armadilhas para os realizadores e produtores, não vejo mal nenhum que as marcas que queiram ter conteúdos apoiem financeiramente. Se é um processo transparente e claro parece-me que todos têm a ganhar e, acima de tudo, quem ganha mais é o público que tem mais oferta e diversidade de filmes para ver".

Em 2022, Bruno volta a trabalhar com personagens de um outro filme seu. Vai voltar a insistir nas curtas e em formato de "spinoff" - está muito entusiasmado e sem pressas de chegar às longas, sobretudo porque continua a ser um dos realizadores de publicidade mais desejados em Portugal através da sua casa de produção, a Casper.

Como cineasta, tem um desejo: "Quero comunicar as pessoas. As diferenças delas e o que as faz reagir de maneira tão diferente ao mesmo conflito. Quero comunicar música no cinema, comunicar dança e coreografia. Misturar as pessoas e as artes no objecto visual que é um filme. Quero o surrealismo que é viver a realidade."

Gonçalo Galvão Teles - Tudo a acontecer

2021 esteve para ser o seu ano mas a Ómicron trocou-lhe as voltas: Nunca Nada Aconteceu, a sua primeira longa a solo só estreia em 2022. É um filme poderoso, com um calafrio de tragédia que rumina num mal-estar lusitano. Gonçalo Galvão Teles já não é esperança, mas este é mesmo o seu primeiro filme sozinho, depois de em Gelo ter coassinado a direção com o pai, Luís Galvão Teles e, mais recentemente, ter dirigido a meias com Jorge Paixão da Costa Soldado Milhões.

"O Nunca Nada Aconteceu é o filme da minha vida. Por razões humanas, artísticas, pela dor da perda e a alegria de ter conseguido fazer exatamente aquilo a que me propus - ou o ter superado, pela contribuição de toda uma equipa que tornou o todo superior à soma das partes. E porque, mesmo com 27 anos de carreira e muito trabalho de que me orgulho é o meu primeiro filme a solo. É um filme que me representa, e que espero que possa abrir portas a outros, sem que isso seja uma obsessão", confessa. Para trás, está também uma curta que marcou a primeira década do cinema português, Antes de Amanhã, precisamente com dois dos atores desta nova longa, Beatriz Batarda e o falecido Filipe Duarte.

Quanto à internacionalização do filme, GGT, assim é chamado pelos seus alunos de cinema na Lusófona, assume: "A internacionalização do cinema português é um facto, atestado pelo sucesso em festivais. Este filme aposta claramente nesse objetivo, não só no esforço de qualidade artística e técnica, mas também na universalidade de uma história, bem portuguesa sim, mas com ecos que podem chegar a todos na sua simplicidade - uma família que perdeu a capacidade de comunicar. Se há uma coisa que os últimos tempos nos veio relembrar é que sofremos todos com as mesmas coisas e de formas semelhantes, e que uma boa história bem contada com fundo local pode ter apelo global".

Iris Cayatte - A atriz da espantosa voz grave

Estudou em Londres e está neste momento em todo o lado. Os mais atentos já tinham reparado em Iris Cayatte, atriz de uma fragilidade que é ao mesmo tempo potente. Quem a viu em Caminhos Magnétikos, de Edgar Pêra já tinha percebido que aquela voz dura dava para muito. E é muito que ela nos deu o ano passado na curta-metragem de Ana Moreira, Cassandra Bitter Tongue. Mas é este ano que de revelação passará para confirmação. Tem Evadidos, de Bruno Gascon, onde é uma espécie de vilã, e em Sombras Brancas, de Fernando Vendrell, é uma das filhas de Cardoso Pires num admirável filme sobre a recuperação de um AVC de um grande da Literatura portuguesa. Em Hollywood, mas via Algarve, local das filmagens de The Infernal Machine, thriller onde dá réplica a Guy Pearce, também vai ser notada, isto depois de ter sido uma das protagonistas de Kamikaze, série nórdica para ser vista quando a HBO Max por cá chegar.

O segredo para aqui chegar? Acreditar e olhar para este ano sem se preocupar muito com o dia de amanhã: "Claro que sofro quando não tenho terra à vista. Há sempre aquela questão: desisto agora ou acredito que vai sempre aparecer qualquer coisa? A moeda de troca de qualquer artista é acreditar, ter esperança". Iris tem um rosto fascinante, mas mais fascinante é o seu espírito, como se percebe quando é confrontada pela gravidade do som da voz: "Pois, isso de ter a voz assim faz com que muitas vezes seja "typed cast" - nunca me escolhem para princesa doce. Aliás, não sei se isso me interessaria... Tinha de ser uma princesa fixe. A verdade é que brinco mais com a tonalidade da voz em inglês". A boa notícia é que mesmo com os apelos lá de fora, Iris quererá sempre voltar ao cinema português, por entre self tapes e castings em vídeo...

Rafael Morais - E depois de Glória

Outro dos atores nacionais em rota internacional, mas este ano, o ator que foi descoberto por Marco Martins em Como Desenhar um Círculo Perfeito, parece estar cativo dos nossos cineastas. É o seu ano, depois de uma participação ainda fresca em Glória, a primeira série portuguesa da Netflix. Um ator capaz de atingir o pleno da periferia do detalhe para conseguir algo mais vasto. Aguarda-se com expectativa como se porta como Amadeo de Sousa-Cardozo em Amadeo, biopic de Vicente Alves do Ó sobre o artista português. Pelas primeiras imagens vistas, pode ser um dos papéis da sua vida. Ele próprio fala em enorme responsabilidade e diz como foi a pesquisa para o papel: "Foi ver e ler tudo o que há para ver e ler sobre o Amadeo mas também, e acima de tudo, as cartas incríveis que ele escreveu a Lucie e à sua familia. Foi aí que onde consegui ter uma ideia mais clara e pessoal de quem realmente era este homem para além do artista. As suas ambições, mas também os seus receios e a sua constante ansiedade por ser um pioneiro num país que não estava de todo recetivo à sua genialidade. A Marta Soares, investigadora, historiadora e curadora especializada na obra de Amadeo foi uma ajuda preciosa no processo, assim como a Fundação Gulbenkian".

Entre Los Angeles e Portugal, tem também na carteira papéis secundários em Evadidos, de Bruno Gascon, e no muito esperado Mal Viver, de João Canijo. E como não gosta de estar quieto, foi com o irmão gémeo Edgar para a Albânia para protagonizarem A Cup of Coffee and New Shoes, de Gentian Coçi, onde teve de aprender linguagem gestual.

Sobre essa verdade irrecusável de que os atores portugueses são uma "trend" do "acting" internacional, não tem dúvidas e expressa o seu sentimento como vê tudo isso: "Com entusiasmo. Talento sempre existiu em Portugal, mas infelizmente a pouca quantidade de filmes e séries produzidas em Portugal faz com que a possibilidade de visibilidade para além de festivais de cinema seja muito reduzida. Acho que uma das grandes vantagens dos serviços de streaming é precisamente essa, a visibilidade". A seguir ao cinema, vem a ficção televisiva e em breve estará ao lado de Beatriz Batarda, Nuno Lopes ou Anabela Moreira em Hotel do Rio...

dnot@dn.pt

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