"Os árabes de Lisboa e de Portugal sempre estiveram por aqui"

O terceiro volume com que Sérgio Luís de Carvalho vem fazendo a história da capital portuguesa é dedicado à presença árabe em Lisboa: "Uma viagem maravilhosa por um legado com mais de mil anos de história". Outras novidades: Afropeu de Johny Pitts e Oh, William! de Elizabeth Strout

O historiador Sérgio Luís de Carvalho tem vindo a publicar uma série de livros em que o tema é a história de Lisboa. Após Lisboa Nazi e Lisboa Judaica, lança agora Lisboa Árabe. Quando se lhe pergunta qual dos três volumes seduzirá mais os leitores, considera que, apesar do interesse específico de cada um, admite que Lisboa Nazi possa "ter os ingredientes para cativar desde logo um leitor interessado em temas históricos, no geral. É um assunto mais "perto" de nós e cujos ecos e feridas ainda se poderão fazer sentir". Quanto aos outros dois, que têm uma componente religiosa maior, refere que "terão mais fôlego em termos diacrónicos, o que levará a uma visão mais "prolongada" temporalmente". O trio sobre Lisboa não deverá terminar com esta nova investigação e adianta que "é possível, até provável" novos títulos. No entanto, diz, "no caso plausível de haver continuação, tenho de pensar bem como manter o nível e a coerência do projeto".

Sentiu-se como um leitor de As mil e uma noites ao confrontar-se com todas as lendas e factos que resultam da antiga presença árabe em Portugal?
As lendas são um universo um pouco marginal ao historiador, com mais interesse antropológico e literário que histórico. Não sendo de ignorar, as lendas não podem ser tomadas como narrativas a levar em conta na análise e explanação dos acontecimentos do passado. É certo que nos dão uma certa imagem desse passado, mas é uma imagem efabulada e mitificada. Porém, transparece uma visão que, sendo efabulada e mitificada, nos revela uma certa cosmovisão: o fascínio das "mouras" - tantas vezes "encantadas" -, uma relação com o árabe/mouro oscilando entre a animosidade e a tolerância, e por aí fora. Afinal, se bem analisada e se bem descrita, a realidade tem mais de 1001 noites... Embora, ao contrário do que se diz, eu creia que a ficção/arte supera sempre a realidade. Ou, dito de outra maneira, a arte é a realidade, mas em bom.

A presença árabe e muçulmana em Lisboa nem sempre atrai a atenção dos portugueses do século XXI devido aos acontecimentos terroristas com que esta religião tem sido conotada nas últimas duas décadas. Este livro pode alterar essa perceção nacional?
Se puder dar um contributo, por pequenino que seja... Todos os povos, culturas, civilizações e religiões têm coisas brilhantes e coisa tenebrosas. Não tomemos a árvore pela floresta, pois todas as generalizações são perigosas e desvirtuadoras. Apesar de óbvia força mediática - arma que os fundamentalistas manipulam bem -, o terrorismo não é a civilização árabe nem o Islão. São manifestações minoritárias e marginais dessa civilização e dessa religião. O que têm é muita visibilidade...

Falou-se muito há uns anos do choque entre religiões. Estas duas Lisboas que retratou - a árabe e a judaica, sob o pano de fundo da cristã - são um bom exemplo de essa colisão ser eterna?
Sou cético em relação ao discurso do choque das religiões, pois parte da premissa básica de que há duas (ou três) forças irredutíveis e irreconciliáveis entre si, cujo destino é chocarem-se. O que não falta são exemplos de tolerância mútua e de convívio pacífico. Não vejo essa colisão como eterna, nem pouco mais ou menos. Nem creio, de resto, que haja uma colisão, ou pelo menos que haja outra colisão que não a que advém do fanatismo e do preconceito. Colisão há, sim, entre a inteligência e a ignorância. Lisboa - como Portugal - é muito fruto desses encontros e mútuas influências - árabe, judaica e cristã -, apesar de alguns períodos mais persecutórios, e isso também contribui para a tornar única.

Refere que a presença árabe foi "multissecular", mas muitas vezes "varrida para debaixo do tapete" por uma certa historiografia. Quis repor essa falha?
Tentei dar o meu modesto contributo. Mas relembro que muitos e bons historiadores - que cito amiúde no livro e cujos livros arrolo na bibliografia - têm desmistificado o mito da "eterna oposição", da "guerra santa", do "nós contra eles".

Não evita referir na Introdução o "caso do fundacional famoso milagre de Ourique", que considera ter sido "forjado três séculos depois". Também houve na presença árabe mistificações históricas?
As muitas fontes árabes conhecidas e que o famoso Portugal na Espanha Árabe - do professor Borges Coelho recolhe - mostram mais o fascínio que os árabes sentiam pelo Al-Andaluz em geral e pelo Garb em particular - e por Lisboa - do que a pulsão para mistificações deliberadas. Claro que, à medida que a Reconquista cristã avançava, as mesmas fontes não são parcas em adjetivos depreciativos em relação aos reconquistadores... mas não podemos confundir isso com mistificação ou falsificações deliberadas.

Considera que na História nem sempre é tudo a preto e branco. Quais foram os principais cinzentos com que se deparou?
Entre um suposto paraíso que teria sido o Al-Andaluz - não foi, nem isso faz sentido -, e o alegado inferno que o Al-Andaluz terá sido antes da Reconquista - não foi, nem isso tem ponta por onde se lhe pegue -, temos uma época de luzes e sombras, de grande produção artística, cultural e científica, mas também de instabilidade e de períodos de paz alternados por períodos de confronto. Para se ter uma ideia de como as coisas não são a preto ou a branco, basta dizer que, muitas vezes, as forças em confronto tinham cristãos e árabes num lado, contra outra coligação cristã-árabe do outro lado. Quando, em 1147, Lisboa está cercada e os muçulmanos de Lisboa pedem ajuda ao governador árabe de Évora, este afirma que não os pode socorrer por ter um acordo com o rei Afonso Henriques. Quando, em 1169, o nosso primeiro rei ataca os muçulmanos em Badajoz, é obrigado a retirar devido à intervenção de um exército cristão leonês, que tinha uma aliança com os muçulmanos de Badajoz. Nada aqui é a preto e branco! Hoje, parece que se chama a isto geopolítica...

"Apesar de óbvia força mediática - arma que os fundamentalistas manipulam bem -, o terrorismo não é a civilização árabe nem o Islão. São manifestações minoritárias e marginais dessa civilização e dessa religião."

A Lisboa Árabe vem desde o início do século VIII e só termina no século XII. Como foi a busca por "provas" dessa influência civilizacional ao fim de tanto tempo?
As provas estão recolhidas há muito: fontes documentais, dados da arqueologia, evidências do dia-a-dia - como os muitos instrumentos agrários, científicos e artesanais que nos deixaram -, o nosso idioma - as muitas palavras portuguesas de raiz árabe -, os tratados - de Ciências, de Geografia, de História, de Matemática, de Medicina -, a poesia, a influência urbanística, a gastronomia, as artes - como a azulejaria ou a tapeçaria -, os monumentos... a lista de influências é imensa e está aí, ao alcance dos olhos e das mãos. Quem gosta de arroz-doce, de aletria doce ou de açorda - para só falar destes - sabe do que falo, pois aos árabes os devemos. E não é a eles que devemos a numeração "árabe"?

A recuperação de Lisboa pós-terramoto de 1755 sepultou muito do património árabe. Encontrou vestígios no urbanismo e nos costumes?
O terramoto foi avassalador, e não só para os vestígios árabes. Subsistem alguns vestígios, mais ao nível da arqueologia que do urbanismo, embora em alguns bairros ainda subsistam vestígios. Ao nível dos costumes, não tanto, a não ser em alguma produção artística e artesanal, que se manteve.

Pode dizer-se que a "mouraria" para onde foram relegados os árabes após a reconquista pouco teria a ver geograficamente com o bairro que mantém esse nome atualmente?
Lá está... Há vestígios, deteta-se, aqui e ali, um certo "aroma". Mas o tempo passa, as pessoas intervêm e alteram, por vezes, desvirtua-se, até. Veja-se o que hoje se passa nesse bairro -como noutros -, com o fenómeno da gentrificação,

Trezentos anos após a reconquista, a Expansão portuguesa faz com que muitos árabes regressem a Lisboa. Estava esquecida a ocupação anterior?
Os árabes nunca abandonaram Lisboa. Depois do édito manuelino de expulsão, quantos não permaneceram, convertidos à força? Quantos dos escravos oriundos de África ou da Índia durante a Expansão não eram muçulmanos e, desses, quantos não eram árabes? A questão é que a comunidade se manteve silenciosa devido às proibições e à repressão inquisitorial, entre o século XVI e o início do XIX. Quando uma certa liberdade religiosa voltou, no século XIX, com o liberalismo, a comunidade continua cá, embora sempre discreta, sempre um bocadito à margem, até porque muitos eram gente modesta. A partir da década de 60 a comunidade foi crescendo. Com a descolonização, muitos retornaram a Portugal e acentuou-se o projeto de reconstituição mais formal da comunidade e da construção da mesquita central da cidade. Mas, na realidade, de forma mais ou menos discreta, os árabes de Lisboa e de Portugal sempre estiveram por aqui.

Essa presença não foi ignorada nos éditos reais ou na ação da Inquisição. É uma perseguição tão violenta com a feita aos judeus?
Não. Os judeus sofreram mais. Por um lado, eram um alvo mais evidente para os cristãos, havia uma maior animosidade - afinal, eram um povo "deicida", entre outros insultos e falsidades do género; por outro lado, havia o fator económico, pois os judeus (cristãos-novos) tinham, em geral, mais cabedais que os mouros, eram mais "apetecíveis" como grupo perseguido, já que a Inquisição ficava, as mais das vezes, com os bens dos acusados. O número de mouros vítimas de autos-de-fé do Santo Ofício não chega a 10% do número de judeus.

Imagina possível a reedição de um Al-Andaluz?
Não sou dado a futurologias. É uma questão de formação. Os tempos são outros, as mentalidades são outras, as dinâmicas sociais, políticas, geoestratégicas, técnicas e culturais são bem diferentes. Não vejo uma reedição do Al-Andaluz, com esse nome ou outro. Mas a única lição da História é que as pessoas nunca aprendem com as lições da História. Por isso, as forças destrutivas da Humanidade - o preconceito, a ignorância, a ganância - sobrevivem sempre, e nunca se sabe o que pode acontecer... Há uns tempos houve um senhor que garantiu que o alegado triunfo da denominada "democracia liberal" era o fim da História, e que doravante viver-se-ia uma época sem conflitos nem choques, de prosperidade e paz. Viu-se... é o que dá fazer futurologia.

Lisboa Árabe
Sérgio Luís de Carvalho
Edições Parsifal
228 páginas

Outras novidades

O viajante solitário visita a Europa negra

No último capítulo de Afropeu, o autor, Johny Pitts, reflete sobre os "cinco meses de viagens autofinanciadas" pela Europa com presença de descendentes africanos. É desse périplo que começa na cidade inglesa de Sheffield, continua por Paris, Bruxelas, Amesterdão, Berlim, Estocolmo, Moscovo, Marselha e a Riviera Francesa, e que tem um ponto final em Lisboa. É da capital portuguesa, em pleno Carnaval, que regressa para passar ao papel o relato do que observou durante esse tempo, narrativa que tenta fazer com o apoio da "sanidade mental muito firme que tantos homens e mulheres negras conseguiram manter [neste continente] apesar de viverem frequentemente em condições bizarras".

O texto não é um ensaio, antes uma investigação em movimento, de que resulta um road book com as suas experiências e o seu jovem passado, moldado por uma cultura de "uma geração que atingiu a maioridade após a queda da URSS" e que foi condicionada por um novo tempo, adornado por livros de auto-ajuda e várias outras ilusões. Pitts cunhou este conceito, Afropeu, para contar o que observou, a que não podia faltar a visão em pessoa de um país colonialista e onde vivem descendentes desses antigos territórios ultramarinos. A conclusão desmistifica o "suposto talento espetacular de Portugal para se misturar com os Africanos", situação que já vinha sendo radiografada através das paragens anteriores noutros países. Afropeu é uma reportagem gigante sobre uma realidade ainda maior, na qual tenta por via de relatos, entrevistas e história, mostrar o seu propósito inicial.

Afropeu
Johny Pitts
Editora Temas e Debates
435 páginas

Uma escavação arqueológica literária sobre o casamento

O sucesso que a escritora Elizabeth Strout vem adquirindo em Portugal não acontece por acaso, e este Oh, William! vem complementá-lo. Um romance focado na vida da protagonista que é repetente na sua obra, sob o nome Lucy Barton, em que através de várias situações mostra como pode ser misteriosa a relação com um antigo marido. A narrativa desliza, em muito por mérito de uma excelente tradução de Tânia Ganho, ao longo de vários episódios de um regresso ao passado e da tentativa de explicar situações bastante nebulosas. Como se se estivesse numa escavação arqueológica, a autora permite ao leitor acompanhar o que a sua protagonista pretende: destapar uma realidade que sempre se lhe apresentou como insuficiente e em muito incompreensível.

O que fica escondido num casamento, as relações entre o casal, e, principalmente, o que é um homem sob o olhar de uma mulher. Raramente se observa hoje uma interpretação do sexo masculino como aqui se verifica, muito distante de todos os estereótipos do politicamente correto imposto nos últimos tempos e que, por facilitismo sectário, distorce a realidade. Com o benefício de a ação ir decorrendo por vários lugares dos Estados Unidos, desde a conhecida Nova Iorque até a lugares recônditos daquele país. Há um segredo que é perseguido e até ao fim, sem elaborações forçadas, a protagonista vai esclarecendo de uma forma curiosa e de leitura muito agradável. Que remata com o melhor título possível: Oh, William!

Oh, William!
Elizabeth Strout
Editora Alfaguara
220 páginas

dnot@dn.pt

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