Omar Sy - o que é ser africano

Yao, comédia de afetos acabada de estrear em Portugal em plena correria da Festa do Cinema Francês. Poderá passar ao lado e é uma pena. Uma pequena surpresa protagonizada por Omar Sy e com realização de Phillipe Godeau.

Uma aventura humanista pelos confins do Senegal. As intenções de Philip Godeau, realizador de 11.6 - Desvio de Milhões (2013), são as melhores, sobretudo porque não cai no lugar comum da ilustração do bilhete postal. Yao é a história de Seydou Tall, uma estrela de cinema francesa com raízes no Senegal que viaja até ao país dos seus pais para ser homenageado. Sozinho, acaba por se encantar com um jovem fã que fez centenas de quilómetros apenas para o conhecer. Um menino de 13 anos chamado Yao e que acaba por o fazer mudar de ideias: em vez de Seydou voltar para Paris o plano acaba por fazer uma travessia de carro pelas províncias do país até à aldeia de Yao. Uma viagem sem as mordomias que a estrela de cinema está habituada e com uma amizade improvável a nascer.

Omar Sy, conhecido de Amigos Improváveis e de outras comédias populares do cinema francês, é o protagonista, jogando-se em permanência com a perceção do espetador, sobretudo com a hipótese de confissão verídica: o ator é precisamente de ascendência senegalesa. De alguma maneira, é uma viagem de apaziguamento, de iniciação a um continente e a uma forma de estar na vida, onde o ritmo é outro e há tempo para comer com calma, olhar para as estrelas e dançar sem pensar na imprensa ou nas selfies dos fãs...

Mas o mais curioso nesta boleia é estarmos perante uma África com gente verdadeira lá dentro e sem a savana do costume. A paisagem que vemos evita também o miserabilismo habitual, conservando um realismo convincente e uma noção de "road movie" algo naturalista, mesmo quando as atribulações destes dois novos amigos parecem deambular ao sabor do vento. Do vento e dos diálogos que descrevem o ar de superioridade do francês e a forma como o rapaz senegalês desmonta essa presunção do 1º Mundo, sobretudo quando pergunta por que razão nunca tinha vindo ao Senegal. Nesse sentido, é um olhar muito preciso sobre os abismos da diferença desta Europa de hoje e de uma África autêntica, filmada com poeira que jamais ofusca uma filosofia de qualidade de vida que pode servir de lição.

Se o marketing vindo de França faria supor estarmos presente uma comédia populista a explorar a ternura do menino pobre e a redenção sentimental do afro-europeu, o resultado final aponta antes para um estudo comportamental suave e com valores dramáticos sóbrios. Godeau filma uma viagem africana sem sensacionalismos nem gagues escondidos - quando há humor é quase sempre subtil e nada forçado. No ar fica a pergunta: o que é ser africano? O segredo está partilhado nesta agradável surpresa que é embalada ao som unificador de Bob Marley. As boas vibrações de um "blockbuster" francês que fugiu do confrangedor rebanho da indústria.

Classificação: *** (Interessante)

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