O Urso de Ouro ficaria tão bem no México!

O melhor filme desta edição 73 da Berlinale é um dos favoritos, <em>Tótem</em>, do México, mas João Canijo e o seu<em> Mal Viver</em> podem estar no palmarés. Hoje sabe-se quem vence uma seleção de boa qualidade. No <em>Panorama</em>, o filme que deu que falar veio do Brasil, Propriedade, pronto a tornar-se num caso social.
Publicado a
Atualizado a

O desporto mais radical num grande festival internacional é fazer previsões sobre o palmarés. Hoje é anunciado o Urso de Ouro mas poucos são os que apostam declaradamente num filme, mesmo apesar da imprensa berrar por Tótem, de Lila Avilez, o mais belo objeto de cinema a concurso, e por Afire, o novo de Christian Petzold. São os grandes filmes desta competição de qualidade nada duvidosa e sempre equilibrada. Mais uma vez, a equipa do diretor artístico Carlo Chastrian a fazer calar os profetas da desgraça que tentam rebaixar a Berlinale com comparações tolas com Cannes e Veneza, festivais mais comprometidos com uma lógica de notoriedade.

Sabe-se também que João Canijo e a sua diretora de fotografia não voltaram a Portugal, indicador que Mal Viver e Viver Mal podem ter prémios, este último um caso de amores fortes com a crítica na secção Encontros. O cinema português poderá estar à beira de uma nova glória, algo que não é de todo de espantar se atendermos ao caráter provocante deste díptico que desmonta uma ideia da funcionalidade da família portuguesa. Mais do que nunca, Canijo concretiza a ferro e fogo essa vontade de explorar uma maldade muito portuguesa e transmissível de geração em geração. Um Canijo rejuvenescido pela luz de Leonor Teles, que entretanto já voltou de novo a ser diretora de fotografia do próximo de João Cabeleira.

Sobre Tótem há muito a jogar a seu favor. O júri comandado pela atriz americana Kristen Stewart poderá ficar sensível à sua beleza naturalista: a história de uma menina mexicana de sete anos em confronto com a sua realidade familiar: o pai a morrer com cancro e a crise económica de uma família burguesa que é dominada pela força das mulheres. Trata-se de encontrar um centro do olhar infantil num mundo dos adultos, olhar esse que reclama a espessura dos lugares domésticos. A menina observa as conversas das tias, a prática psiquiatra do avô e os animais do jardim. A casa como espelho de uma realidade encantada e com a morte à espreita. Um espetáculo pungente todo ele realizado num processo de captar uma autenticidade harmoniosa. Parece coisa mística e até surge uma personagem a afugentar maus espíritos. Lila Avilez filma tudo isso com amor. E, claro, nestes tempos de igualdade, depois de Carla Simón em Alcarràs, é de bom tom premiar de novo uma mulher.

Mas Afire, o tal jogo de perceções literárias de Petzold, dá também um bravo favorito. Este é dos seus grandes títulos. Um filme dominado pela presença perturbante de Paula Beer e de um desconforto emocional novo. Nos céus vermelhos que dominam este verão filmado à beira mar há uma poesia de observação humana sofisticada e ética. Seria um dos Ursos de Ouro mais elegantes dos últimos anos.

No sempre esperado prémio de interpretação, aqui apenas um - não há divisão entre atriz e ator, receia-se que os jurados caiam no erro de premiar as crianças "queridas". Por muito que a menina trans de 20.000 Especies de Abejas seja notável ou que a protagonista de sete anos de Tótem faça paralisar a câmara, seria deselegante para a classe de atores não premiar um profissional. E aí a atriz de Past Lives , Greta Lee, poderia ganhar um Urso bem justo.

Propriedade, de Daniel Bandeira, diz-se, teve com um pé na seleção do Festival de Veneza. Chegou a Berlim numa secção paralela, o Panorama, porque, entretanto, foi mostrado já em festivais do Brasil. Se tivessem aguentado, com o estatuto de estreia mundial, era certo que estaria na competição principal. Ainda assim, este thriller rural foi um dos filmes com maior boca-a-boca na capital alemã.

Uma mulher fecha-se no seu carro blindado para se proteger dos seus empregados da fazenda após o marido ter querido vender o terreno e ser baleado. Uma revolta do proletariado que é um exame feroz sobre as raízes do desespero da classe trabalhadora brasileira. Bandeira está a filmar um estado de saturação de um país e as razões da sua violência. Gente boa a tornar-se assassina numa situação de imensa violência física - no final da sessão havia espetadores a suar e a tremer.

Propriedade é um petardo político e, simultaneamente, um ato de reverência a tudo o que representa John Carpenter. O cinema pernambucano tem um novo Assalto à 13.ª Esquadra... Este arremesso de protesto dentro de "filme de género" já tem distribuição garantida em Portugal.

dnot@dn.pt

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt