O transmontano de 79 anos que brinca com a sua coleção de música mecânica

Brunch com Luiz Cangueiro, empresário e dono do Museu da Música Mecânica.

Quando Luiz Cangueiro sugeriu uma casa de chá na Volta da Pedra para a nossa conversa, confesso que fiquei surpreendido. Como setubalense, estou habituado a passar por aquela pequena localidade do concelho de Palmela, mas se conhecia alguns restaurantes e cafés à beira da estrada, a verdade é que desconhecia este acolhedor recanto, com móveis rústicos e sofás de couro, e uma tentadora variedade de chás e de doces. Luiz, que entre muitas coisas é o colecionador que construiu o Museu da Música Mecânica, está já sentado quando chego e com um livro para me oferecer, que revela logo duas outras curiosidades sobre este transmontano de 79 anos: trata-se de fotografias dos anos 1964-1974 em Prado Gatão, a aldeia natal, vizinha de Miranda do Douro, tiradas pelo próprio; e o título do livro é Lhuç Miranda sendo lhuç a palavra para "luz" em mirandês, a segunda língua oficial de Portugal e que Luiz conhece, pois era o que se falava na sua meninice, mesmo que em casa lhe exigissem que "falasse grave".

Professor em Almada durante muitos anos, depois empresário na área da publicidade com a Autedor, foi com o museu que criou em Arraiados, outra aldeia do concelho de Palmela, perto do Pinhal Novo, que Luiz se tornou uma figura pública. Dá-me exemplos de entrevistas que já deu, de reportagens em que apareceu a explicar a sua paixão pela música mecânica, também do programa Uma Questão de ADN, da TSF, em que, juntamente com a filha mais nova, Teresa Margarida, se abriu um pouco mais sobre a parte pessoal, o seu percurso de vida, quase oito décadas.

"Cresci em Prado Gatão. Brincava com os outros meninos. Lembro-me de ter um triciclo de ferro e de todos quererem empurrar", conta. O triciclo, o único da aldeia, é um pormenor importante. Luiz explica que teve muita sorte com a sua madrinha Fábia. Era uma mulher já nos 40 e poucos anos, muito religiosa e solteira sem filhos, quando a família a pôs a gerir a casa que tinha em Prado Gatão, assim como os terrenos associados. Para a ajudar, veio uma adolescente da terra, Ana, a futura mãe de Luiz. Mais tarde, depois de um namoro atribulado, Ana casou com José Luiz e o futuro pai de Luiz passou também a trabalhar na casa, a maior da aldeia, quase senhorial. Quando a 8 de maio de 1942, anos duros por causa da guerra mundial mesmo que Salazar tivesse optado pela neutralidade, nasceu Luiz, a madrinha afeiçoou-se ao bebé tanto "que eu quando chegava a casa já sabia que a tinha de ir beijar antes até da minha mãe", relembra o afilhado. Com a ajuda da madrinha, mulher com posses, a inteligência precoce de Luiz começou a ganhar mundo, com a ida para o seminário de Vinhais estudar e depois para Bragança ("mas nunca quis ser padre, sempre fui de ter namoradas"). Aluno destacado, teve mesmo assim de fazer mais dois anos no liceu para poder seguir estudos superiores. E acabou por ir para a Universidade de Coimbra estudar Filologia Clássica. "Descobri pela primeira vez uma grande cidade. Nunca lá tinha ido, nem ao Porto, nem a Lisboa. E decidi que mais do que ser bom aluno, queria aprender. Foi quando ganhei o gosto pela fotografia, e na época isso significava saber tudo, até revelar, e também pelo canto coral. Tinha aprendido a cantar no seminário e tinha jeito. Ainda hoje tenho e às vezes canto para a família", diz, entre risos. E se foi a fotografia que mais se enredou na vida futura de Luiz, diga-se que graças ao grupo coral viajou pela Europa, e numa ida à Alemanha, incluindo Berlim, até fez uma curta visita turística à metade comunista da cidade, pois o famoso muro ainda não era um separador total, pelo menos para estrangeiros.

Trazem-nos um café, para o Luiz, e um chá preto e um scone, para mim. "Já pedirei uma sobremesa, mais daqui a pouco", diz à empregada. Percebe-se que se trata de um cliente habitual, mesmo que a pandemia tenha obrigado toda a gente a fazer uma pausa em muitos hábitos.

Esta minha conversa nasceu de ter conhecido o Luiz há duas semanas na sua Quinta do Rei, em Arraiados. Ia em busca de uma nova escola de equitação para a minha filha e de repente dou por mim a negligenciar as instruções do GPS em favor das placas a indicar o Museu da Música Mecânica. Na verdade, fiquei entretanto a saber, Luiz é dono tanto da escola como do museu, e bastaram duas conversas prévias para perceber que se tratava de alguém com um percurso cheio de histórias. Aliás, e tive autorização para contar isto, uma biografia está mesmo a ser finalizada para apresentação pública daqui a uns meses, no dia do 80.º aniversário. "A escritora é da minha aldeia, a Cremilde Esteves. Isso permitiu-lhe compreender muito bem o meio em que cresci, o que era a vida na época", diz.

Em Coimbra, na Faculdade de Letras, Luiz era um dos que estavam do contra. "Não gostava do regime, mas também lhe digo que 95% não gostavam. Acabei, porém, por não ser ativo na contestação. Terminado o curso fui chamado para a tropa. Primeiro Mafra e depois Santarém, na Escola Prática de Cavalaria, onde conheci o Salgueiro Maia. Tínhamos blindados, mas para manter a tradição fomos obrigados a montar. Sabia na altura o que tinha aprendido na aldeia, pouco mais do que subir para o cavalo."

Ainda houve a hipótese de ir para Timor, mas acabou por fazer dois anos em Moçambique. O alferes Cangueiro que estava a servir o país não quis dar desgostos a ninguém e admite que nunca lhe passou pela cabeça desertar, mesmo que hoje seja evidente que era uma guerra contra os ventos da história. "Estive na operação Nó Górdio, do Kaúlza de Arriaga. Dois meses terríveis no norte de Moçambique, em Cabo Delgado. Morreu um dos condutores dos carros de combate e para tentar socorrê-lo morreu também o meu comandante. Eram minas de 50 quilos, novas para nós. Antes, eles usavam outras menos potentes, e nós passávamos na picada e só se ouvia uns puffs. Estas não. Matavam mesmo. Foi muito dramático. Tirei algumas fotos impressionantes." Luiz, que nunca largava a sua Nikon, teve depois tempos mais calmos e ainda em Moçambique conheceu Maria Amélia, que viria a ser a primeira mulher e também mãe de Ana Isabel, que vive hoje em Inglaterra e há dois anos teve Dylan. "É o meu primeiro neto."

De regresso à vida civil, e a Trás-os-Montes, surge a hipótese de dar aulas no Liceu de Bragança. E quando começa a ter outras ambições, até um contrato para ir para Macau, surge o convite para ser diretor da Residência de Estudantes Calouste Gulbenkian e os dois salários acumulados fazem-no continuar uns tempos pela região de origem, mesmo que Maria Amélia, com quem se casara entretanto, sonhasse ir para a capital.

Almada acaba por ser o destino e não Lisboa, e Luiz vai viver para perto da Escola Secundária Emídio Navarro, onde dá aulas a partir de 1976. A paixão pela fotografia mantém-se, participa até em exposições, e de certa forma o passatempo dá-lhe algum rendimento a somar ao de funcionário do Ministério da Educação. Sabe latim e grego mas ensina sobretudo literatura, o que seria hoje a disciplina de Português. Se a vida de professor lhe traz satisfação ("adorei ser professor"), assim que surge o desafio para se tornar empresário, a decisão não tarda. De repente, algo que se adequava ao inconformismo da pessoa, algo que exigia grande perspicácia, todo um mundo de novidades. "Como se costuma dizer, em terra de cego quem tem um olho é rei e eu tinha dois", relembra, a rir, esses anos 1990 que mudaram a sua vida (deixou de ser professor em 1989). Os painéis exteriores, os outdoors, eram o segredo do sucesso da Autedor, empresa sem rival no distrito de Setúbal e que hoje permanece em atividade. Também a vida pessoal teve alterações, com Luiz a casar-se uma segunda vez, agora com Teresa, uma médica que tinha sido sua aluna no Liceu de Bragança e que reencontrou em Lisboa. É a mãe de Teresa Margarida e de Luís Nuno.

A conversa vai longa. Peço um café e Luiz uma fatia de bolo. Chegamos ao momento de falar da coleção que vai dar origem ao museu. Luiz data de 1987 o início, com compras em antiquários e em leilões. Também o irmão Armando que vive em França (tem igualmente uma irmã, Maria Clara, "20 anos mais nova")o ajuda a identificar peças lá fora. O gosto pela música é antigo, e no seminário aprendeu a ler pautas, mas esta é uma música especial, mecânica, engenhosa. "Há uma caixa que toca os sucessivos hinos de Portugal", realça. É com os lucros da Autedor que Luiz consegue aumentar a coleção a um ritmo que o salário de professor nunca permitiria. Tem hoje umas 600 peças, no Museu da Música Mecânica que começou a construir em 2013 e foi inaugurado a 4 de outubro de 2016 "com a presença do senhor Presidente da República, o professor Marcelo Rebelo de Sousa".

Das 600 peças, Luiz recusa-se a dizer se tem preferidas. Explica que é como se fossem filhos e filhas. Mas acrescenta que "há peças muito simples de centenas de euros que entusiasmam mais os visitantes do que outras de milhares de euros". Muito popular é o Seybold, de 1925, nome do francês que criou uma orquestra juntando um piano mecânico, um acordeão, tambores e címbalos. "Quando o pomos a tocar, há a tendência para as pessoas se porem a dançar", realça. Conto ver hoje esse espetáculo, pois programei visitar o museu com a família. É uma visita guiada, às 15h30, que se realiza sempre aos sábados e domingos. Para grupos, pode ser durante a semana, com marcação, esclarece Luiz, que me conta que chegam a aparecer grupos de ciclistas, de motards, de caravanistas até.Está na hora de nos despedirmos. Volto ao tema do mirandês, língua que Luiz diz compreender mas que não costuma falar, por causa de uma palavra que usou quando falava da sua meninice na aldeia, jolda. "Ah, sim. Jolda é a brincadeira dos miúdos. Andar na jolda, nem sei como me saiu." Agora, ainda que tratado com muita seriedade, o Museu da Música Mecânica é a jolda, a grande "brincadeira", de Luiz.

leonidio.ferreira@dn.pt

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