A temporada deste ano do Festival Terras Sem Sombra começa neste fim-de-semana de 28 de fevereiro e 1 de março em Arronches. E com músicos da Polónia, que é o país convidado da edição de 2026. Quem são e o que vão tocar?Trata-se do Zarębski Piano Duo, um ensemble de Cracóvia, formado por pianistas de excepção, Grzegorz Mania e Piotr Różański, cujas invulgares carreiras os situam na primeira linha da música internacional. As suas recentes digressões nos EUA causaram furor. O concerto tem em palco um só piano – e que senhor piano! –, tocado a quatro mãos. São interpretadas obras de compositoras polacas e portuguesas dos séculos XX e XXI: um tributo ao papel da mulher na criação contemporânea, nem sempre devidamente conhecido e reconhecido. Ouvir tais peças constitui algo raro. Isto, aliado a estarmos na igreja matriz de Arronches, monumento nacional, peça de referência do Manuelino, torna a ocasião especialíssima.O Festival tem novos concelhos aderentes e também vai sair este ano um pouco dos limites do Alentejo. Pode explicar? O Terras sem Sombra protagoniza a temporada musical que o Alentejo, a mais vasta região de Portugal, com 43 concelhos, nunca teve. Foi preciso a sociedade civil auto-organizar-se para ele não continuar, nessa e noutras dimensões da vida colectiva, ao deus-dará. Agrega-se-lhe a sub-região da Lezíria do Tejo, já no Ribatejo. É este o território natural do festival, que percorre, em cada ano, cerca de 30 localidades. Em 2026, dá-se a estreia de Alcácer do Sal e voltam Grândola, Santiago do Cacém e Viana do Alentejo. Haverá ainda dois concertos-mistério, em concelhos-mistério. No ano em que recebemos a Polónia na qualidade de País Convidado – há um convidado todos os anos –, incrementa-se também a presença em Espanha.A ópera Maria Stuart, em Beja, mais adiante, promete ser um momento alto, pois creio ser um género pouco encenado no Alentejo?Apresentar uma ópera encenada em Beja, maximizando o Teatro Pax Julia, o seu histórico equipamento, é algo inédito. Composta por Martin Hennessy a partir do libreto de Irma Correa, baseado numa biografia de Stefan Zweig, a obra assenta como uma luva à linha programática do TSS. Estamos perante a interpretação moderna da vida de uma rainha que não vergou sob o peso da coroa. Temas actuais, como o poder despótico, a violência ou o desprezo pelos outros surgem aqui com força, imprimindo à peça uma fantástica dimensão humana. A parceria com a Fundación La Joven permite trazer a Portugal um elenco brilhante, que já triunfou no Teatro Real de Madrid, aquando da estreia. . Há também um salto do Festival às Astúrias e o regresso do Prémio Internacional Terras Sem Sombra. Qual o objetivo?Desde os seus primórdios, em 2003, que o Terras sem Sombra desenvolve um trabalho regular com Espanha. Somos um festival luso-espanhol. O recente acordo com o Festival Ibérico de Música de Badajoz, subscrito na Diputación Provincial desta cidade, reforça a dimensão peninsular, que é a nossa. Estamos focados em aproximar o Alentejo e o Ribatejo de diversas comunidades do país vizinho – e em acolhê-las, por seu turno, entre nós. Além de questões prementes, como o acesso à cultura, há outras áreas em que a cooperação transfronteiriça se revela um poderoso instrumento mobilizador. Iremos efectuar um Terras sem Sombra nas Astúrias, em Ribera de Arriba (Oviedo). Queremos construir pontes com os parceiros europeus, e não só, para a internacionalização de territórios de baixa densidade, que enfrentam problemas comuns. Se o Estado, absurdamente centralista, pouco quer saber do que se passa fora de Lisboa ou do Porto, não cruzamos os braços: vamos combater Leviatã.Pode explicar um pouco o conceito deste Festival que junta música clássica com património e ambiente? O Terras Sem Sombra é um festival algo peculiar, na medida em que assenta em três pilares: a música erudita (não apenas a música dita «clássica», seja lá o que isso for, mas também a música antiga, a música tradicional e a criação contemporânea); o património cultural; e a biodiversidade, entendida num sentido amplo, com ligação aos recursos naturais. programação cultural qualificada. Como festival de território, assumimos o compromisso de esbater diferenças no acesso a uma programação cultural qualificada. Hoje, o país vive, em larga medida, à conta do interior, mas tende a secundarizá-lo. Lutamos contra isso todos os dias.A seguir a Arronches, que concelho acolhe o Terras e com que programa?Santiago do Cacém recebe, a 28 de Março, a cerimónia do Prémio Internacional Terras sem Sombra. Este destina-se, tradicionalmente, a homenagear uma personalidade ou instituição que se tenha salientado, a nível global, na promoção da Música, na valorização do Património Cultural e na salvaguarda da Biodiversidade. Foram criadas, em 2026, duas outras categorias: Cooperação Internacional/Serviço Público e Sons sem Sombra/Novos Talentos. Eis um sinal de renovação. Preside ao Prémio a princesa D. Maria Francisca de Bragança, duquesa de Coimbra, jovem empenhada e sensível. O seu carisma aponta para um Portugal diferente, mais completo..Terras sem Sombra no país das uvas.Contralto norte-americana Ellen Rabiner atua em Barrancos no Terras Sem Sombra