"O teatro é um espaço de reflexão"

Diretor da Companhia de Teatro de Almada, Rodrigo Francisco assume que mais do que dar respostas ou ditar programas, um festival de teatro é um local de inquietação e colocação de problemas.

Este é ano marca o regresso em pleno do FTA?
Tínhamos assumido o compromisso de retomar o festival no seu formato tradicional logo que isso fosse possível. Este ano assinalamos esse regresso com uma programação reforçada de espectáculos de música de entrada livre, que vão acontecer todos os dias num ciclo de músicas do Mundo, com projetos muito diferentes, que se inicia no dia 4 com um concerto do Conservatório de Música do Afeganistão, um grupo de jovens que estão refugiados em Lisboa.

A questão da identidade está presente em vários espectáculos deste ano. Foi uma escolha ou um acaso?
Foi sobretudo uma escolha dos artistas. Acredito que quando se desenha uma programação de um festival não é muito vantajoso procurar um tema porque, automaticamente, se está a procurar ter um discurso artístico com uma programação. Uma programação é, no meu ponto de vista, uma auscultação àquilo que está a acontecer no mundo e no mundo do teatro e das artes de palco.

É impossível não haver essa contaminação.
Sim. Mas que corresponde a um impulso dos artistas mais do que a uma preocupação nossa.

Ainda dentro do âmbito desta contaminação, gostava de saber se consegue dar uma resposta à pergunta que é colocada na edição deste ano do Encontro da Cerca: Que pode o teatro face ao crescimento das extremas direitas?
Nós fazemos esse encontro para colocar a questão, mais do que sair de lá com uma resposta inequívoca. Mas deixe-me destacar a presença, nesse encontro que organizamos com o Le Monde Diplomatique, do Olivier Neveux, o diretor da revista Théâtre/Public, que tem um livro - Contre le théâtre politique - que eu considero seminal. Não que ele defenda que o teatro não possa exercer uma ação na polis mas é contra a instrumentalização do teatro. Ele critica a forma como o sistema neo-liberal e os sucessivos governos franceses têm procurado colocar o teatro ao serviço de alguma coisa. É uma boa oportunidade para se refletir sobre isso. Há quatro anos o Thomas Ostermeier, num dos encontros do festival, disse uma frase que eu subscrevo: "As revoluções fazem-se nas praças, não se fazem nos teatros". O teatro pode constituir um espaço de reflexão, de colocação dos problemas mas a ação política faz-se na participação de todos nós enquanto cidadãos.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG