O romance no ecrã. Sete filmes para dizer "sim" a São Valentim

Há um ou outro clássico, mas não são os mesmos títulos de sempre. Neste dia em que os corações batem mais forte e o sofá está apetecível, eis um sortido de cinema romântico para entrar no espírito e fugir ao óbvio.

Loving - Uma História de Amor, de Jeff Nichols

HBO

Fixe-se estes nomes: Mildred e Richard Loving. Os dois não podiam saber que iam estar no centro de uma decisão histórica quando, em 1958, saíram do estado da Virgínia em direção a Washington, D.C. para ir casar-se ao registo. Um par humilde - ela grávida e dona de casa, ele um trabalhador da construção civil - movido apenas pelo amor, que foi preso pouco depois dessa secreta troca de alianças. A saber, o xerife, que recebeu uma denúncia anónima, arrancou-os da cama a meio da noite alegando o impedimento por lei da sua união conjugal naquele estado americano. Porquê? Mildred era negra (na realidade, mestiça) e Richard um homem branco. O seu caso de justiça ficou conhecido como "Loving v. Virginia" e deu origem a uma pequena grande revolução, em 1967, quando seguiu para o Supremo Tribunal dos EUA e tornou inconstitucional a proibição do casamento inter-racial.

Esta é a história verídica na base de Loving (2016), o filme de Jeff Nichols que junta Ruth Negga e Joel Edgerton num comovente drama amoroso. Um caso mediático, aliás, que deu uma bela reportagem fotográfica da revista Life, e que a lente de Nichols capta como a imagem mais pura do romance alheio à consciência política: a delicadeza e timidez dela encontra o encaixe perfeito na simplicidade e resistência dele. Nada estava acima do sentimento de um pelo outro. Algo que se ilustra bem no único pedido que Richard fez ao advogado, quando se recusou a pôr os pés no tribunal, cético de que pudesse sair de lá com o direito de estar casado com Mildred: "Pode dizer ao juiz que eu amo a minha mulher." Só isto.

Loving - Uma História de Amor é um inédito nas salas portuguesas e a proposta mais terna para o Dia de São Valentim.

Os Despojos do Dia, de James Ivory

Netflix

Magnífica adaptação do romance homónimo de Kazuo Ishiguro, este é o filme que apresenta uma das mais inesquecíveis interpretações de Anthony Hopkins (dois anos depois de O Silêncio dos Inocentes). Ele é um mordomo a debater-se, por um lado, com memórias da sua dedicação cega a Lord Darlington, um pusilânime aristocrata com simpatias pela Alemanha nazi, e por outro, com a nostalgia romântica da presença de uma governanta, Miss Kenton (Emma Thompson), que servira ao seu lado na casa desse lord. Tudo isto concorre na cabeça de Stevens - que mantém a postura de mordomo mesmo quando não está de serviço - enquanto segue viagem para ir visitar a tal governanta... Os Despojos do Dia (1993) é a subtileza extrema de um amor platónico assente na habilidade de dois atores (tanto Hopkins como Thompson foram nomeados para o Óscar), e uma reflexão ultramelancólica sobre a vida não vivida. James Ivory no seu melhor.

Nós, ao Anoitecer, de Ritesh Batra

Netflix

Com uma melancolia mais leve e confortável, Nós, ao Anoitecer (2017) é cinema para aquecer os pés e a alma. Meio século depois da comédia Barefoot in the Park, de Gene Saks, em que interpretavam um par de recém-casados, Jane Fonda e Robert Redford reúnem-se para celebrar a velhice de uma maneira, à partida, pouco convencional. Neste filme de Ritesh Batra eles são viúvos, vivem na mesma rua, mas nunca trocaram meia dúzia de palavras. Um dia ela bate-lhe à porta e sugere que façam companhia um ao outro todas as noites, dentro dos lençóis, sem segundas intenções. "Não se trata de sexo. É para aguentarmos a noite", diz. A estranheza do convite dá lugar à doçura dos encontros - estes inicialmente atrapalhados da parte dele, que não é grande conversador. Mas há o passado de cada um e o falatório da vizinhança para mexer com os ânimos e alavancar a pequena revolução dos afetos. É um bálsamo ver estes dois juntos na sua bolha de charme sem idade.


A Feiticeira do Amor, de Anna Biller

Filmin

Para espectadores a precisar de algo completamente diferente, A Feiticeira do Amor (2016) é a definitiva escolha fora da caixa. Esta produção independente americana, assinada por Anna Biller - que se encarrega de todos os detalhes artísticos, desde o argumento ao guarda-roupa e à maquilhagem -, é um exemplar raro de cinema série B contemporâneo, na linha de um Roger Corman e do trash de John Waters. A narrativa resume-se a isto: na ausência de Cupido, uma feiticeira usa poções mágicas para fazer que os homens se apaixonem por ela. A partir daí Biller deixa a protagonista entregue à sua livre atuação sobre as vítimas masculinas, enquanto dá azo ao estilo rétro açucarado, num registo de comédia de terror (filmada em película de 35 mm) que enfeitiça por uma combinação de cores capaz de fazer corar Almodóvar. De resto, tudo parece pintado à mão neste conto de marcada índole feminista. Cada imagem tem a fórmula mágica da bruxa.

A Criada, de Park Chan-wook

Filmin

Inspirado num livro de Sarah Waters, aqui está um dos melhores retratos do amor lésbico dos últimos anos. Em A Criada (2016), o romance e o romanesco existem tão-só para subverter o jogo narrativo, que começa com a chegada dessa personagem titular a uma mansão habitada por uma jovem mulher órfã, herdeira de uma fortuna, nos anos 1930, quando a Coreia se encontrava subjugada ao Japão. A empregada tem como missão ajudar um impostor a casar-se com a sua senhora, para depois a meter num hospício e ficar com a herança... Mas o que à partida parecia ser um plano trigo limpo ganha contornos mais complexos com a inesperada proximidade carnal das duas mulheres. Park Chan-wook, nome forte do cinema coreano, filma-as com um requinte a meio caminho entre o gosto vitoriano e o voyeurismo de Hitchcock, levando-nos numa voluptuosa matriosca divertidamente concebida a partir de um formalismo visual de cair o queixo. A aventura dos sentidos é garantida.


Sintonia de Amor, de Nora Ephron

Netflix

Devemos a Nora Ephron (1941-2012) o resgate da comédia romântica de qualidade numa altura em que a idade de ouro desse género já estava longínqua. Sintonia de Amor (1993), Você Tem Uma Mensagem (1998) e Um Amor Inevitável (1989) - este último realizado por Rob Reiner, mas com argumento original dela - formam a santíssima trindade das produções protagonizadas por Meg Ryan que ficaram no imaginário coletivo com o cunho de Ephron. Revisitar qualquer uma delas, no caso, Sintonia de Amor, é reencontrar a arte da boa escrita, com coração e ironia afinada. Aqui, a possibilidade do romance nasce quando Annie Reed (Ryan), de casamento marcado, escuta no rádio do carro o desabafo de uma criança de 8 anos que quer arranjar uma namorada para o pai viúvo. Annie ainda não conhece Sam Baldwin (Tom Hanks), mas depois de ouvir a sua voz já está noutra sintonia diferente da do noivado... Encontro marcado no Empire State Building? Sim, como nos clássicos.


Noites Brancas, de Luchino Visconti

Filmin

Por falar em clássicos, eis o ideal para quem acredita na poesia do acaso. Noites Brancas, o mais belo conto de Dostoievski, é matéria para um dos mais belos filmes sobre o encontro entre um homem e uma mulher. Visconti filmou-o em 1957 e pôs Marcello Mastroinanni a vaguear solitário numa espécie de Veneza pobre (os estúdios Cinecittà), onde descobre Maria Schell na pele de uma jovem igualmente solitária, inocente e apaixonada por um homem que não sabe se regressa. A espera será, por isso, uma estranha bênção para ambos, porque abre a porta ao amor vigiado pelas estrelas, refém de deambulações românticas que podem não corresponder a nada: ela não se esquece do outro. Este é o filme para nos perdemos no encanto noturno da fotografia a preto e branco de Giuseppe Rotunno e na banda sonora de Nino Rota, o compositor que deu música aos sonhos de Fellini.

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