O romance do traveca assassinado por gunas desalmados

O novo romance de Afonso Reis Cabral, Pão de Açúcar, conta a história da morte de Gisberta, transexual que vários jovens mataram em 2006, atirando-a para um poço ainda viva num prédio abandonado no centro do Porto.

Quando tudo aconteceu o autor do romance Pão de Açúcar, Afonso Reis Cabral, tinha uma idade próxima à dos assassinos de Gisberta, transexual que um bando de jovens chamava de "traveca" e atirou para dentro de um poço de betão, deixando-a ainda viva em agonia espetada numa farpa de aço de um edifício abandonado bem no meio na cidade do Porto. Está tudo no relatório da autópsia... tudo, menos os sentimentos que levaram os meninos a violentar até quase ao fim da vida um brasileiro de 45 anos, Gisberta Salce Júnior, que se refugiava no edifício cuja construção fora embargada. Pior, no início desta relação entre os jovens e o transformista durante algumas semanas, eles foram gentis e até lhe levaram comida. Depois, o espírito de matilha juvenil transformou-se e em vez de arroz ou esparguete alimentaram-no de muita pancada.

A história do que aconteceu em 2006 nunca foi contada por inteiro na investigação policial e na cobertura da imprensa, nem as penas deixaram de ser leves devido à idade dos autores do crime. Gisberta morta, deixou de despertar atenção com o passar do tempo até agora, momento em que o mais jovem escritor galardoado com o Prémio Leya publica um romance inevitável após ter ouvido falar do caso nas evocações do décimo aniversário do crime. Afonso Reis Cabral estava a escrever o sempre difícil segundo romance para um autor premiado e interrompeu a escrita em que estava. Este era sem dúvida o verdadeiro tema para uma narrativa: o que levara um bom princípio de uma "amizade" entre os miúdos e Gisberta a terminar num fim tão horrível que só a ficção poderia recriar.

Dois anos depois, há uma mosca que chateia o autor nos poucos metros quadrados onde escreve, ali para as bandas da lisboeta Marvila, rodeado de um quase cenário de construções numa zona industrial em muito parecida à do prédio onde deveria ter nascido um supermercado Pão de Açúcar, três palavras que acabaram por dar título a este romance. Há na divisão um quadro onde estão todas as páginas das várias versões que redigiu nos últimos dois anos até atingir a que desejava como final, bem como a estátua de um Camões a declamar, provavelmente a difícil lírica do sentimento humano. Pouco mais decora o espaço.

Pão de Açúcar é um romance surpreendente e praticamente inédito na sua forma na literatura portuguesa. No entanto, recorda uma tradição que Truman Capote utilizou para o seu A Sangue Frio, outro relato em que o assassinato de inocentes está presente. Entre as obras de Capote e de Cabral dista meio século, mas o português recusa tornar-se uma personagem entre os autores do crime como faz o americano cabotino, antes aposta em recriar o que não se sabe, principalmente sobre os dias que vão de 15 a 22 de fevereiro 2006. Uma situação une os dois autores, a de investigarem a fundo os acontecimentos e o texto que resulta pretender explicar o máximo possível da tragédia, como esclarece Cabral: "O livro tem de ter a realidade em conta: o local, o tempo e algumas características das personagens. A realidade ajudou-me a construir uma estrutura própria sobre a qual assenta a parte da ficção."

É certo que nos 52 anos que separam os livros de Capote e de Cabral muita coisa mudou na literatura do género. Tanto assim que Cabral refere outras leituras e verdadeiras influências, designadamente uma entrevista entre os cineastas François Truffaut e Alfred Hitchcock, em que o mestre do suspense ensina como levar o leitor a sofrer pela explicação final. É disso que Pão de Açúcar vive de forma brilhante, pois (também) seguindo a técnica de Hitchcock, o escritor desvenda essa parte do seu livro: "Essa entrevista ajudou-me a perceber a gestão da expectativa segundo o cineasta. Ele diz que é importante mostrar para esconder, como fez em Psycho, em que coloca o cândido rececionista de motel, Norman Bates, a apunhalar a protagonista vai o filme a meio, escondendo o resto."

Em Pão de Açúcar, Afonso Reis Cabral não tinha a hipótese de copiar Hitchcock: "Os leitores sabem o final do caso Gisberta e a estrutura do livro exige um trabalho de contenção, pois a literatura é ter algo para dizer e evitar revelá-lo antes do tempo. Esse handicap do fim já conhecido obrigou a um equilíbrio de forças para evitar que a narrativa seguisse um rumo indesejado." Dá um exemplo: "É como se o escritor estivesse a jogar flipper, em que a pessoa faz saltar a bola de um lado para o outro com o objetivo de chegar ao buraco no fundo e fazer pontos." Por isso, o jogador Afonso Reis Cabral confessa que o modo como enleia as personagens e a história em mais de meia centena de capítulos é fruto de um calculismo total: "Que não transparece na leitura mas foi muito estudado, nunca dizendo nada a mais nem antes do tempo no episódio, guardando factos para o momento certo à frente."

Para achar o tom certo, estudou o processo judicial e percebeu as características possíveis de apreender sobre os jovens envolvidos; leu tudo sobre o tema, até uma tese de doutoramento sobre instituições semelhantes àquela em que o bando vivia [a Oficina São José, que fechou quatro anos depois] para fazer o retrato fiel: "Tento basear-me no concreto porque desconfio de mim próprio e da imaginação."

Chegada a hora de escrever, eram necessários outros instrumentos porque "é um salto difícil de dar quando se quer falar de uma realidade que não se conhece assim tão bem". Pede-se um exemplo, afinal o escritor viveu até aos 18 anos na cidade onde tudo aconteceu: "Embora tenha crescido no Porto, não vivi neste contexto. Então, fiz um pacto com o narrador, o Rafa: eu conto a história por ti. O que ajudava a justificar alguma linguagem mais suave, apesar de incluir todo o calão típico desses bairros que conheço em segunda mão ou através do YouTube, onde se coloca as palavras gunas, Porto e escola, e surge um conjunto de pessoas parecidas a falar e a interagir deste modo."

Outra das dificuldades a superar foi a absorção da alma do lugar onde a morte de Gisberta se deu. Para tal foi até à construção: "Os sítios que estão descritos têm uma personalidade própria e ajudam a enquadrar as personagens. Fui ao local e vi que o abandono do edifício era grande e, tal como os rapazes, saltei pelo muro por onde entravam. Desci à cave e estive ao lado do poço, com paredes de betão grossas que tornam fácil a separação entre dois mundos." Acha que "veriam os rapazes a entrar, mas respeitava-se a imagem do guna, como se chama no Porto aos mitras de Lisboa. O guna faz a sua vida, sabe ao que vai, rouba aqui e ali, mas ninguém liga. Ou seja, houve um alinhamento de circunstâncias que permitiu isto acontecer".

O escritor ofegante e ansioso

Voltemos às influências literárias. Cabral refere que tinha as sequências todas planeadas num guião inicial - "ainda bem que não se nota", diz - e que o sucesso desse eclipse da informação também se deve em muito a leituras que tem feito: "Tenho lido muito livros sobre escrita, Gay Talese por exemplo, e cartas, como fiz recentemente com toda a correspondência do John Steinbeck, em que se pode ouvi-lo enquanto pessoa." Há um outro autor importante, Stephen King: "É um escritor que está a ser reabilitado, em particular na maneira de como contar uma história como explica no seu livro On Writing ou demonstra na novela The Body, na qual um grupo de rapazes que ouvira falar de um corpo à beira de uma linha de comboio faz uma viagem de dia e meio para o encontrar."

Apesar de este corpo ser o de um jovem com a idade dos que assassinaram Gisberta, a narrativa de Afonso Reis Cabral é original e nada tem que ver com os exemplos de autores que tem lido nem com os seus trabalhos, sendo este romance - e a investigação que o suporta - o melhor exemplo do cruzamento entre a ficção e a realidade já tentadas na nossa literatura, mesmo que não deva faltar quem questione porque Pão de Açúcar resulta da vontade do autor em preencher o vazio de informação sobre os acontecimentos e não toma uma posição sobre o ato do bando.

Para Afonso Reis Cabral a justificação é simples: "Não quero moralizar aspeto algum ou o livro seria uma tese. Escrevi enquanto personagem Rafa e houve momentos em que parava por estar ofegante e ansioso. Perguntava como é que isto se passou e ninguém teve intervenção? A ficção consegue ir ao fundo de outra realidade, ou seja é uma realidade em si." Dá um exemplo: "O conceito de coincidência que vemos volta e meia nas nossas vidas é inconcebível na ficção. Uma pessoa pode estar na rua, cair-lhe uma varanda e morrer, porque a realidade é mais excêntrica, mas na ficção os acontecimentos têm determinados limites."

"Já tive 12 anos"

O escritor garante que não tomou partido por personagem alguma das que estão no livro intencionalmente: "Tenho as minhas preferências e um certo carinho por um ou outro, mas nunca o revelo. A minha intenção é contar a história sob a perspetiva do Rafa e estar sempre desconfiado das suas considerações. A partir do capítulo 40 a sequência de violência repete o real e não estou a sonegar nada. Não pretendo justificar seja o que for na violência que existiu, prefiro humanizar as personagens todas. Suponho que ao estar na pele do Rafa possa levar o leitor a solidarizar-se em algum momento com ele, mas é apenas um jogo literário, pérfido de certa modo, mas uma abordagem fundamental para o livro."

O cartaz que promove o romance Pão de Açúcar tem uma frase que diz: "Quando a vida é mais cruel do que a ficção". Afonso Reis Cabral tem uma certeza sobre essa afirmação publicitária: "A ficção não consegue acompanhar a realidade, todos os livros ficam aquém." Uma questão fundamental para dar o segundo passo após o romance de estreia, quando a escolha do tema era uma decisão complexa: "Depois de O Meu Irmão tinha o desafio do segundo livro. O que fazer? Quando redescobri o caso Gisberta achei que era 'a' história e poderia ser 'o' romance, além de que me confrontava com a minha escrita. O anterior narrador tinha 40 e tal anos, este era o oposto, um rapaz, e um desafio maior. Eu já tive 12 anos, usei experiências apesar de serem realidades diferentes, mas sei o quanto é importante o pressuposto do espírito de grupo e da constante tentativa de equilíbrio entre quem lidera, o estarem à solta e serem uma versão sem amarras deles próprios. Também eu tive de lhes dar rédea solta. Se é conseguido, não sei ainda. Só serei leitor de Pão de Açúcar daqui a uns vinte anos."

Pão de Açúcar

Afonso Reis Cabral

Editora D. Quixote

264 páginas