"O que nos propomos a fazer é um cantinho de Portugal no novo Museu Nacional no Rio, seria muito bacana"

Diretor do Museu Nacional no Rio de Janeiro, palácio que chegou a ser casa de D. João VI no Brasil e ardeu em 2018, esteve em Lisboa, Porto e Coimbra para convencer os museus a doar peças. Alexander Kellner está entusiasmado e tem regresso marcado para 2022.

Visitei o Museu Nacional do Rio de Janeiro em setembro de 2017, um ano antes do incêndio. O edifício, que foi palácio da família real portuguesa e da imperial brasileira, continua destruído ou há algum tipo de reconstrução em curso?
Não. A destruição foi muito grande. Não há ponto do palácio, que tem uma área de 12 mil m2, que não tenha sido afetado pelo incêndio, então foi uma coisa muito devastadora para nós. Tendo esse contexto, o palácio tinha três pisos e todos caíram. O resultado é uma grande área de escombros. E no meio dos escombros havia algum material que podia ser recuperado. Nesse contexto, no que foi a parte interior do palácio, foram pouquíssimas áreas, como as escadas da entrada, preservadas por não terem andares em cima. O restante teve um efeito muito forte. O que sobrou foi a fachada e um pouco da escada.

A ideia será reconstruir o exterior mas ao mesmo tempo vão tentar um interior diferente, mais adaptado às funções de um museu?
É mais ou menos nessa linha. O Museu Nacional nasceu dentro de uma estrutura, uma edificação, que era uma casa que pertenceu a um mercador, antes de D. João VI chegar ao Brasil, que veio a reformular essa casa para sua habitação e foi sendo reconstruída até se transformar no castelo da Quinta da Boavista, com D. Pedro I e D. Pedro II. Depois de D. Pedro II não houve grandes mudanças. Retiraram um observatório que D. Pedro II tinha no torreão norte. A ideia agora é manter a fachada original, restaurar os telhados mais parecidos possíveis com o que era, com produtos modernos, e dentro do interior uma coisa contemporânea. Porém, queremos recuperar as salas históricas, porque no nosso circuito temos quatro linhas principais que pretendemos expor, e uma delas é a histórica, que vai contar não apenas a história do Brasil mas também tudo que aconteceu naquela edificação ao longo do tempo.

Entre todo o espólio de História Natural, havia também salas que tinham móveis da família real. Continuará, pois, a haver salas dedicadas à memória da família imperial?
Nas salas históricas pretendemos fazer algumas coisas. Por exemplo: queremos recuperar a sala do trono, a sala dos embaixadores, queremos recuperar o gabinete de D. Pedro II, que não tínhamos, e queremos ter um espaço dedicado à imperatriz Leopoldina. Essas áreas estão no nosso plano, isso queremos fazer.

Esta sua visita a Portugal para obter peças para o Museu não se limitou a objetos relacionadas com os Bragança , estamos a falar também da possível doação de peças de âmbito mais científico, certo?
Perfeitamente. O Museu Nacional é um museu de História Natural e Antropologia e tínhamos peças de todo o mundo. O maior desafio que temos é justamente refazer as nossas coleções, então precisamos de material diverso como minerais, fósseis, materiais geográficos, plantas, enfim, toda uma diversidade de material e não apenas do Brasil. O museu não é local, por isso é que precisamos dessa intensa colaboração do exterior e esse foi o principal motivo da minha viagem. Pretendo voltar a Portugal já em fevereiro de 2022, e vou voltar com a equipa técnica que está à frente das novas exposições. A ideia é trazer três pessoas para fazerem um workshop no Museu de História Natural e das Ciências, da Universidade do Porto. Já conversámos com os responsáveis e eles concordaram em receber-nos para passarmos lá uma semana a trabalhar em conjunto com eles e fazer esse intercâmbio, que é salutar para ambas as instituições.

Desta sua visita a Portugal, sei que houve do Museu da Universidade de Coimbra compromisso de doações. Houve mais promessas?
Houve mais, isto foi só o início. Sabemos o quão difícil é receber doações. Todos os museus são muito ciosos das suas peças e tem de ser assim, mas também é verdade que os museus têm muitas peças, milhões, às vezes, e muitas delas dentro de uma gaveta. E talvez essas peças estejam melhor em exposição, noutro país, a contar a história e cultura portuguesa.

Têm tido recetividade dos museus?
Nestes momentos eles têm muito material para trabalhar e estamos a estudar viabilidades. O Brasil tem de merecer essas novas coleções e só vamos merecer se fizermos a nossa parte - e estamos a fazer. E foi para dar essa segurança às instituições portuguesas que eu vim aqui, e que devo voltar em fevereiro e fazer uma apresentação também em Coimbra. Já tinha feito uma primeira em Lisboa, e até talvez faça uma no Porto, levando à comunidade brasileira e portugueses que queiram saber mais sobre o Museu Nacional.

Tem falado com instituições de outros países além de Portugal para as doações. Aqui conta muito a solidariedade científica internacional ou, apesar de tudo, a ligação histórica de Portugal ao Brasil conta muito?
Para dizer a verdade, temos solidariedade muito grande de vários países. Por exemplo, já 26 instituições alemãs fizeram cartas abertas de compromisso em ajudar o Museu Nacional em questões de acervo. Temos uma campanha no site "recompoe.mn.frj.br", muito fácil de encontrar, e ali pode-se ver essa carta publicada.

A comunidade científica internacional sente obrigação moral de ajudar um país como o Brasil e um museu como o do Rio de Janeiro?
Na realidade, a situação que colocámos é que feliz ou infelizmente o Museu Nacional transformou-se num projeto que pode mostrar ao mundo o que é que a solidariedade internacional no campo científico e cultural pode produzir, então somos uma grande oportunidade. Em relação a Portugal, claro que os laços afetivos fazem-nos esperar a ajuda de Portugal. Íamos ter uma reunião com a Ministra da Cultura, que não aconteceu devido à situação política, mas Graça Fonseca já transmitiu solidariedade e de que forma efetiva as instituições portuguesas poderão vir a ajudar o Museu Nacional.

Acha que é possível com essas doações, e com o que sobreviveu, o Museu Nacional voltar a ser instituição de destaque nas Américas?
Mas com certeza. É justamente a nossa oportunidade e o grande objetivo que temos, este de fazer no Brasil com o Museu Nacional uma instituição na qual outras instituições sul-americanas poderão estar representadas. Se isso der certo, a partir daí podemos ter um movimento internacional de ajuda a várias outras instituições, para evitar que outra tragédia como a que nos aconteceu se repita.

O enorme meteorito que estava à entrada resistiu bem ao fogo?<
Com toda a certeza. Para o Bendegó, que é o maior meteorito no Brasil, com mais de cinco toneladas, aquilo foi só um calorzinho a mais.

Neste momento está guardado?
Está na posição onde sempre esteve, devidamente protegido.

Este é um Museu Nacional mas é gerido pela Universidade do Rio de Janeiro. Continua a ser esse o estatuto?
Perfeitamente. Existem muitas vantagens em um museu nacional estar ligado a uma universidade, que no caso é a Universidade Federal do Rio de Janeiro. É importante que se perceba que temos a característica de um museu, que é ter acervo, guardar peças importantes para a Humanidade, mas também geramos conhecimento, fazemos pesquisa e formamos cientistas através dos programas de pós-graduação que temos. E isso é uma vantagem tremenda para qualquer instituição e o Museu Nacional orgulha-se muito de fazer parte da UFRJ.

O Estado brasileiro central está a financiar a reconstrução?
Médio. Hoje em dia, sem me alongar, todos os trabalhos de reconstrução estão acoplados no Projeto Museu Nacional Vive, que tem uma estrutura muito interessante de governança, que une o público e o privado. Temos três comités ou comissões. O primeiro comité é o executivo, que tem a responsabilidade da reconstrução. Ali temos a universidade, o museu, um instituto cultural particular, a UNESCO e um representante da sociedade civil. É importante darmos transparência a todas as atividades do museu. Depois temos o comité institucional, cuja função é assessorar o comité executivo, apresentar propostas, soluções e ideias. E dentro dele, que é mais amplo e que tem a Academia Brasileira de Ciências, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, tem o IPHAN, que é parecido com a DGPC daqui, tem o Instituto Goethe, tem também o governo de Portugal e o Instituto Camões. E por último temos um grupo de trabalho de sustentabilidade pós-inauguração do museu, que é dirigido pelo BNDES, um banco de desenvolvimento institucional, e é justamente este grupo de trabalho que pensa no museu depois de cortar a fita e abrir todas as salas como é que uma estrutura que está no meio universitário se mantém. Isso mostra de forma clara que nós aprendemos, estamos a fazer a coisa certa e o museu está num excelente caminho.

Mas não há problemas de financiamento?
Neste momento o dinheiro não é problema. O custo que estimamos para a reconstrução do museu está nos 380 milhões de reais [59 milhões de euros], e agora já temos 65% assegurados. Neste momento estamos com uma situação peculiar no Brasil, em que há limitações grandes nas ajudas à ciência e à cultura.

Limitação ideológica?
Não vou adjetivar.

Só para esclarecer o sentido da limitação: não é legal, é política?
Exatamente. Estamos à espera de ser recebidos pelo secretário da Cultura, porque extinguiram o Ministério da Cultura, para podermos mostrar os projetos e avançar nessa data tão marcante que é o bicentenário da independência do Brasil.

Qual é o objetivo para 7 de Setembro de 2022, bicentenário do Grito do Ipiranga? Em que ponto é que o Museu pode estar nessa altura?
Abrindo os seus jardins, tanto o frontal como o das Princesas. E é muito bom salientar que as obras do palácio já se iniciaram.

Como cientista a sua especialidade são os dinossauros, certo?
Médio. São répteis extintos, sobretudo da era Mesozóica: dinossauros, crocodilomorfos e pterossauros, que são uma espécie de primos dos dinossauros.

Esses fósseis encontram-se muito no Brasil?
Sim, no Brasil, mas por acaso estou a trabalhar num fóssil de pterossauro, encontrado em Portugal, com um colega da Lourinhã.

Esse tipo de réptil alado existia tanto nas Américas como na Europa?
Existia em todo o mundo em diferentes tempos, até mesmo na Antártida, onde tenho um projeto de pesquisa de material colhido lá. Eram animais cosmopolitas, de diferentes espécies ao longo do tempo, e tenho uma parte de pesquisa sobre isso, sobretudo no Brasil mas estudei de todos os continentes.

Consegue conciliar a investigação com a gestão do museu?
Estou neste momento a fazer uma atividade de campo em Minas Gerais. Claro que as minhas responsabilidades na direção do museu limitam muito a questão da pesquisa, mas tenho continuado a fazer porque tenho um bom grupo de trabalho e vários colegas com os quais colaboro ao longo dos anos, em especial da China, onde tenho um trabalho muito sólido.

Um último apelo aos portugueses no sentido de ajudar o Museu?

Queria só reiterar a ideia de que precisamos de ajuda de particulares, tanto de brasileiros radicados em Portugal, como de portugueses. Temos quatro circuitos positivos (universo e vida; histórico; diversidade cultural e ambientes brasileiros) e queremos sempre fazer paralelo com o que acontece em outros continentes. O que nos propomos a fazer é um cantinho de Portugal no novo Museu Nacional, seria muito bacana se conseguíssemos. E por isso precisamos de ajuda não só das instituições portuguesas mas também de coleções particulares.

leonidio.ferreira@dn.pt

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