Exclusivo O polvo a caminho dos Óscares

Perdido pela Netflix A Sabedoria do Polvo está nomeado ao Óscar de melhor documentário. Um objeto para ficarmos a respeitar um polvo que nos faz acreditar no respeito místico pela ordem natural do universo.

Entre as vénias aos documentários de natureza do National Geographic e o módulo à Attenborough, este documentário sul-africano vai desencantar uma outra filiação que se mistura: a dos documentários ambientais da Walt Disney. Mas quem pensar que se trata de uma salganhada sem alma, desengane-se: o filme respeita a mais solene ordem ética dos contos entre o homem e o reino animal - é emocional de caras, sem remorsos. Um lado emocional que os realizadores assumem e, por vezes, jogam com uma manipulação de elementos como a música e a gestão encenada dos acontecimentos.

Pippa Ehrilich e James Reed conduzem uma história sobre um documentarista sul-africano chamado Craig Foster que, após uma crise de valores, mergulha todos os dias em frente à sua casa no Cabo da Tormentas. Mergulhos de apneia que lhe desvendam segredos da vida marítima e lhe trazem uma inesperada amizade, um pequeno polvo que estabelece com ele um contacto regular e físico. Entre Craig e o polvo cria-se uma relação de proximidade, ao ponto do simpático polvo-comum confiar plenamente na câmara, como se de um contrato se tratasse. Ao longo de hora e meia somos convidados a entrar no seu mundo. Um habitat cheio de perigos em que os tubarões predadores são ameaça constante. À medida que o tempo passa, o elo entre Craig e o polvo cresce até ao ponto do mergulhador começar a perceber que está a receber lições de vida do animal, um extraordinário ser que poucos conhecem as suas capacidade cognitivas, técnicas de sobrevivência e capacidade de brincar com os peixes.

Todo este processo é narrado por Craig cuja voz (e imagem - talvez em duração excessiva) revela a enorme admiração pelo pequeno polvo, a dada altura atacado quase fatalmente por um tubarão. Craig é firme em enaltecer todo o processo de recuperação do tentáculo arrancado e é aí que percebemos que os cineastas não estão interessados no mero documentário ilustrativo de vida marítima. À medida que Craig se vai espantando com as qualidades do novo amigo vai também ganhando uma nova vida, indo ao ponto de deixar o seu filho adolescente mergulhar e ser parte cúmplice dessa descida a um universo de silêncio e de beleza esmagadora. De forma sub-reptícia, My Octopus Teacher assume-se como um drama humano de segundas oportunidades, neste caso de um homem que aprende a viver através de um polvo. Essa é a grande surpresa deste pequeno filme "agrada-multidões" que chega com força à categoria de melhor documentário nos Óscares.

Se esta história real de amizade entre um homem e um polvo tem um alcance de fábula acerca do sentido da vida, é preciso também olhar para uma das muitas lições deste feito: para além do elogio ao tesouro da vida aquática não poluída e livre de plásticos (se há filme verdadeiramente ecológico é este...), importa perceber uma variante nesta relação. De certa maneira, é o homem quem se torna no "animal" de estimação do polvo. No seu mundo próprio e camuflado, o respeito ao seu ecossistema é mantido e elevado até a um grau muito perto do sagrado ou não fosse este um filme de ficção literalmente científica ou biológica.

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