O pesadelo dos que ficaram fechados em casa

Outro êxito espanhol na Netflix, La Trinchera Infinita, baseado numa história verdadeira de um homem que se escondeu em casa por mais de 30 anos. Para sobreviver havia que ficar em casa em tempos do franquismo, tal como agora em plena pandemia global.

A génese do medo em tempo do franquismo. Passado em plena Guerra Civil e três décadas depois, o filme coqueluche do cinema espanhol em 2019 narra a história verdadeira de um perseguido de Franco numa aldeia da Andaluzia, um homem que para não sofrer retaliações do regime escondeu-se em casa durante 30 anos. Um "topo" conforme foram apelidadas estas vítimas. O filme é um ensaio sobre a vida em confinamento mas é também um convite a um pensamento profundo: para nos livrarmos da morte, às vezes, deixamos passar a vida.

Higinio (um genial Antonio de la Torre) é um republicano que na sua aldeia se vê perseguido pelos nacionalistas. Depois de tentar fugir, acaba por regressar a casa e esconder-se numa parede falsa. Cedo percebe que a partir do momento em que pisar o chão da rua será instantaneamente fuzilado. Com a ajuda da mulher, vai conseguindo sobreviver de forma invisível. Mas o tempo passa e Higinio nunca se atreve a ultrapassar a porta. A vida deste casal parece normal mas é de pura clandestinidade, mesmo quando têm um filho que é apresentado à aldeia como um sobrinho de um outro povoado. Esta história verdadeira é apenas uma de muitas que foram descobertas nos anos 1970 - exilados nos próprios lares num Estado fascista que demorou a deixar para trás traumas de guerra.

La Trinchera Infinita é ainda uma tese de ódios e vinganças recalcadas, metáfora direta e sem paninhos quentes dos tempos em que o mundo hoje está. Jon Garaño, Jose Mari Goenega e Aitor Arregi filmam o esconderijo deste homem a quem o tempo consumiu com uma intensidade marcante. Nas suas duas horas e meia nunca fazem abrandar uma tensão que aborda diretamente o pesadelo da falta de liberdade. A sensação de claustrofobia e o trabalho de escuridão da luz, bem como os silêncios, preconizam uma sensação de horror próxima aos filmes de terror. Aliás, o suspense puramente cinematográfico tem também o toque de Luiso Berdejo, argumentista ligado ao cinema de género (Rec, Quarentena, Insensíveis). Não é mesmo por acaso que a inquietação encenada acabe por ganhar um tempero do surreal, mesmo quando os mecanismos do suspense são do mais puro que o cinema nos pode dar, de uma espreitadela por um buraco ao som de uma pegada no chão...

Mas se o filme é um compêndio na criação de angústia e de tristeza, a câmara deste trio espanhol interessa-se também muito pelas cenas da intimidade deste casal. Uma conjugalidade que é seca mas sincera, desesperada mas sentida. Uma história de amor que não atrapalha a mensagem de resistência. Uma mensagem premente numa altura em que o aparecimento de novos fascismos importa saber preservar o ato de resistir. Os fantasmas de uma Espanha cruel criaram um jogo conceptual de cinema que coloca no ar a importância de escolhermos olhar. O medo come a alma mas a vida segue, mesmo quando é sabotada.

Vencedor de dois Goya (incluindo melhor atriz), o filme foi ainda galardoado com a Concha de Prata no Festival de San Sebastián. Seguramente, nos antípodas desse académico Enquanto a Guerra Durar, de Alejendro Amenábar, esse estreado nos cinemas portugueses.

**** Muito bom

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