O nosso corpo, a nossa liberdade

Memórias da França dos anos 1960 e dos abortos clandestinos. O Acontecimento, de Audrey Diwan, supostamente recusado em Cannes, e vencedor da Mostra de Veneza, é a primeira estreia significativa do ano, numa altura em que as vendas de bilhetes caem 80%.

Coisa de corpos. Do corpo feminino, da nossa relação com o corpo e da maneira como a sociedade toma conta dele. O Acontecimento, Leão de Ouro em Veneza, é só por si um acontecimento. Um filme sobre os abortos ilegais nos anos 1960 que não se esgota no tema. Aliás, não deixa de dizer muito o facto de um filme que em 2021 aborda este tema provocar um desconforto geral, conforme a realizadora Audrey Diwan ontem aqui comentava numa entrevista que está disponível online. Que dias são estes em que um olhar que expõe os horrores dos abortos clandestinos ainda causa uma sensação de tabu? De alguma maneira, para além dos seus méritos cinematográficos, trata-se de uma obra capaz de relançar uma reflexão coletiva, sobretudo acerca do peso que o silêncio carregado pelas das mulheres vítimas de um preconceito intemporal. Falando do passado, O Acontecimento está a olhar para os dias de hoje e a perguntar que legado esta questão carrega.

Baseada no romance homónimo de Annie Ernaux, esta é a história de Anne, uma jovem aluna que na França de 1963 segue uma carreira académica. Aluna brilhante e com futuro promissor, mesmo sendo de origens sociais humildes, descobre estar grávida depois de uma noite de sexo casual. O seu futuro fica comprometido, estando em causa a possibilidade de terminar os estudos. Mesmo perante a vergonha social e a possibilidade de ser presa, decide agir para interromper a gravidez, ainda que não consiga a ajuda das amigas nem dos médicos. Uma situação de humilhação que a afeta psicologicamente e que faz que arrisque a vida através de métodos de aborto primitivos. Uma mulher sozinha contra um destino cruel, alguém cuja ideia de um curso superior não era um passo para arranjar um casamento, mas sim para um ideal de emancipação...

Voltando aos corpos, a câmara de Audrey fixa-se na vibração do corpo da protagonista, Anne, interpretada com um sentido de sufoco por essa tremenda revelação que é Anamaria Vartolomei. Como acontece nos melhores momentos dos irmãos Dardenne - referência não assim tão óbvia - há uma aproximação aos gestos, ao movimento. Mas o que fica é essa sensação de se passar uma intimidade feminina tão corporal como invisível. Como se a câmara não interrompesse um fluxo naturalista, capaz de detalhes vitais de vida e de fúria de juventude. Um corpo e a sua liberdade captado com um requinte que não anula o realismo. Ao contrário do que se passa em muitos filmes que vestem o "fato de cerimónias" do realismo militante, o olhar de Diwan sabe dar espaço àquilo que é necessário para um avanço narrativo e aí sente-se o tempo e a angústia a passar, sobretudo quando a gravidez se torna mais palpável. E o admirável é o modo como dor, angústia, prazer e desejo se fundem nessa linguagem do que há de mais íntimo. Nesse relato explícito do horror físico de um aborto a ferros cabe, sem hipérboles, uma atitude política da realizadora, por muito que seja fácil a colagem com essa ideia de "cinema feminista". Por outro lado, mais do que nunca, este é um filme só possível através de uma sensibilidade feminina.

Preciso, clínico e frio, O Acontecimento tem outra mais-valia: dispensa as conformidades do "filme de época". Quer isto dizer que não se agarra às formalidades do ideal da reconstituição de época, quase como se a bandeira de Diwan fosse uma neutralidade de estilo, um pouco como acontecia quando Louis Malle abordava temas do passado.

Convém também sempre sublinhar que os momentos mais dramáticos e porventura "chocantes" do filme são geridos por uma mise-en-scène discreta e com soluções de gosto refinado, algo que tinha passado ao lado de todos no primeiro filme da realizadora, olimpicamente ignorado em Portugal - quem quis descobrir nos videoclubes das operadoras À Beira da Loucura, filme de 2019, em 2020? Outra pista falsa do seu trabalho é a sua proveniência como argumentista e aí conhecemos o seu trabalho para o seu ex-companheiro, Cédric Jimenez, em filmes como o recente Marselha Debaixo de Fogo ou A Rede do Crime - nada que ver com isto, mainstream puro e duro e com a arte correta do storytelling. A surpresa em O Acontecimento é que não se trata de um filme de argumentista, de mera argumentista, pelo menos é de cineasta, por inteiro...

O único problema pode estar em certas convenções de um respeito à adaptação literária, sente-se, por vezes, alguma dificuldade de libertação para uma área mais interior, mais abstrata. E, nesses casos, há uma certa dificuldade em sermos transportados por inteiro. Ainda assim, não é filme que fique reduzido ao "tema", neste caso, a exposição do aborto clandestino. Vai mais além, sobretudo quando ensaia nos limites uma experiência física de imaginarmos um assalto ao interior do nosso corpo e à forma como podemos sempre resistir às regras - está nesse ponto a urgência essencial de um relato que incita à liberdade individual. Será pois difícil de sair da sala de cinema igual... No final, o rosto desta extraordinária jovem atriz fica cravado na alma, isso de certeza!

dnot@dn.pt

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