Com a chegada do verão, surgem as iniciativas que tentam recuperar o gosto dos filmes em projeções ao ar livre. Em Lisboa, na Cinemateca, estão de volta as tradicionais “Sessões da Esplanada”, incluindo uma parte dos títulos de uma proposta tão inesperada quanto interessante. A saber: um ciclo dedicado a Bruce Springsteen - começa hoje e inclui vinte e dois filmes, até ao dia 31. Entretanto, ao longo do mês, a Esplanada acolhe outras sessões de diferentes ciclos, em particular aquele que evoca Hugo Fregonese, cineasta argentino que realizou uma parte significativa da sua obra em Hollywood. Haveria uma forma linear de conceber o evento, mostrando os filmes para os quais The Boss compôs canções, a par de alguns dos muitos que integraram outras composições antecipadamente editadas. De modo sugestivo, o texto de apresentação esclarece o que estava em jogo: “(...) se não é no cinema que se pensa logo quando se fala de Springsteen, isso não quer dizer que Springsteen não pense no cinema, e que o cinema não pense em Springsteen.” . Assim, será possível ver ou rever o emblemático Filadélfia (1993), de Jonathan Demme, com Tom Hanks, um dos primeiros filmes a enfrentar, com invulgar subtileza dramática, as questões íntimas e sociais suscitadas pela sida — a canção original, Streets of Philadelphia, valeu um Óscar a Springsteen. Não falta também Badlands/Os Noivos Sangrentos (1973), primeira longa-metragem de Terrence Malick, com Martin Sheen e Sissy Spacek, referência marcante para Springsteen que viria a abrir o seu álbum Darkness on the Edge of Town (1978) com um tema intitulado Badlands. A herança do imaginário clássico de Hollywood está também presente através de clássicos como A Desaparecida (1956), de John Ford, e Um Rosto na Multidão (1957), de Elia Kazan. O ciclo termina com o filme Springsteen: Deliver me from Nowhere, de Scott Cooper, lançado há cerca de um ano, com Jeremy Allen White a compor, com assinalável sobriedade, a figura do autor de Born in the USA. Entre as alternativas que ficam por mostrar (sem que isso diminua o valor deste ciclo), recordemos duas referências importantes: No Nukes (1980), documentário sobre um concerto de 1979, contra a proliferação da energia nuclear, em que encontramos um dos mais espantosos registos de Springsteen ao vivo, incluindo a estreia da canção The River (o álbum homónimo seria editado cerca de um ano mais tarde); e A Última Caminhada (1995), de Tim Robbins, com Sean Penn e Susan Sarandon, cuja canção-título (Dead Man Walkin’) deu a Springsteen uma segunda nomeação para os Óscares. . Da coleção de filmes a exibir na Cinemateca, aqui ficam mais alguns destaques. A LUZ DO DIA (1987) Realizado já depois dos sucessos de American Gigolo (1980) e A Felina (1982), este Light of Day é, por certo, um dos títulos mais mal amados da filmografia do seu realizador, Paul Schrader. Será também um dos mais atípicos, sobretudo se tivermos em conta a sua construção como um clássico drama familiar. Os papéis principais pertencem a Michael J. Fox e Joan Jett (na sua estreia cinematográfica), irmãos divididos entre a sua banda rock (The Barbusters) e as convulsões financeiras de uma família desavinda em que a mãe, a cargo de Gena Rowlands, tem um papel determinante. Fox e Jett interpretam a canção-título, composta por Bruce Springsteen. PALOMBELLA ROSSA (1989) As subtilezas dramáticas e simbólicas do cinema de Nanni Moretti passam, muitas vezes, pela utilização de canções que não servem apenas de “pano de fundo” da acção, uma vez que se impõem como figuras imponderáveis, dir-se-ia personagens invisíveis, dessa mesma acção. Assim acontece nesta comédia surreal, no cenário de uma piscina em que se disputa uma partida de pólo aquático transfigurada em fresco social e político da Itália... até que, vinda de um transistor, surge uma canção de Bruce Springsteen, I’m on Fire (do álbum Born in the USA), a “interromper” os acontecimentos — com Moretti, as canções dizem aquilo que as personagens não sabem ou não querem dizer. . AMERICAN DREAM (1990) Barbara Kopple (n. 1946) é uma das figuras emblemáticas do moderno documentarismo dos EUA, muito influenciada pelas tendências europeias do chamado “cinéma-vérité”. Dois títulos garantem-lhe um lugar especial na história desse género: Harlan County, USA (1976) e este American Dream, com o nome de Bruce Springsteen a surgir na respectiva ficha de financiadores. Trata-se de acompanhar uma greve dos trabalhadores da Hormel Foods, uma fábrica de processamento de carne da cidade de Austin, Minnesota (ao longo de mais de um ano, de 1985 para 1986). A câmara de Kopple distingue-se por uma espantosa proximidade física e anímica dos protagonistas, projectando-nos num reconhecimento realista e numa dúvida política. Dito de outro modo: este é, de facto, o “Sonho Americano” a viver através das suas convulsões, mas será possível cumpri-lo? THE INDIAN RUNNER (1991) Lançado entre nós com um título infeliz, União de Sangue (é mesmo do contrário que se trata), esta é a saga de dois irmãos assombrados por conflitos em que as tensões familiares e os dramas legais se cruzam com os traumas da guerra do Vietname. Faz sentido classificá-lo como um genuíno “filme de actores”: primeiro pela eficácia de um inusitado elenco (David Morse, Viggo Mortensen, Valeria Golino, Patricia Arquette, Charles Bronson, Dennis Hopper, etc.); depois, porque se trata do primeiro trabalho de Sean Penn como realizador. Com uma particularidade que justifica a sua inclusão neste ciclo: se há filmes que motivaram algumas canções de Bruce Springsteen, este é um projecto que, segundo Penn, se inspira em Highway Patrolman, do álbum Nebraska (1982). COP LAND – ZONA EXCLUSIVA (1997) Eis um filme com o qual Bruce Springsteen não teve qualquer relação directa. A banda sonora original é de Howard Shore, mas há duas canções do álbum The River (Stolen Car e Drive All Night) que “encaixam” muito bem no retrato do xerife de uma pequena cidade de New Jersey que, contra tudo e contra todos, tenta expor a cumplicidade de alguns membros da polícia com um bando de mafiosos. Realizado por James Mangold, trata-se um verdadeiro “western” encenado em cenários do presente, além do mais oferecendo ao actor principal, Sylvester Stallone, uma das melhores composições da sua carreira. O elenco é de luxo, incluindo ainda, entre outros, Harvey Keitel, Ray Liotta e Robert De Niro. ALTA FIDELIDADE (2000) Entre os filmes de Stephen Frears a meio caminho entre os retratos intimistas e um certo tom de comédia de costumes, este High Fidelity é, seguramente, um dos mais sofisticados e envolventes. O desencantado herói, interpretado por John Cusack, possui uma loja de discos (de vinyl, bem entendido!) onde gosta de “evitar” que os seus clientes façam escolhas que desagradam ao seu próprio gosto... ao mesmo tempo que procura soluções para lidar com os enigmas do mundo feminino. Em permanente ziguezague entre o imaginário das canções e a contundência da vida real, ele irá encontrar uns breves momentos de consolação num “sonho acordado” em que dialoga com um guitarrista capaz de compreender os seus dramas existenciais — esse guitarrista é Bruce Springsteen que surge, como se costuma dizer, “no seu próprio papel”. . A ÚLTIMA HORA (2002) Falando de Spike Lee, aplica-se muitas vezes o rótulo automático de cineasta atento às memórias histórias e aos dramas contemporâneos dos negros dos EUA. Não que faça sentido negar a fundamental presença de tais temáticas nas suas narrativas, mas importa recusar o simplismo inerente a semelhante rótulo. Contraponto possível será este 25th Hour, retrato das 24 horas de um “dealer” antes de entrar na prisão para cumprir uma pena que tem tanto de tragédia íntima (Edward Norton é admirável na personagem central) como de fresco trágico sobre um momento muito particular da sociedade americana — é um dos primeiros filmes a integrar imagens do “Ground Zero”, o terreno devastado onde existiram as torres do World Trade Center. Para o genérico final, Bruce Springsteen produziu uma nova mistura da canção The Fuse (do álbum The Rising, também de 2002, reflectindo, justamente, a herança do 11 de Setembro).