O #MeToo e a nossa verdade na Idade Média

O Último Duelo, épico histórico que é um regresso à boa forma de um cineasta octogenário, Ridley Scott. Com uns excelentes Adam Driver, Jodie Comer, Matt Damon e Ben Affleck. O último duelo oficial em França em 1386 filmado com discurso de ativismo #MeToo.

Uma tese diacrónica sobre o ato continuo da agressão masculina às mulheres. Manifesto feminista? Teoria de um mal social endémico e eterno? O argumento dos amigos Matt Damon e Ben Affleck, feito com a convidada Nicole Holofcener para dar "perspetiva" feminina, não tenta encontrar respostas a essas perguntas, tende antes a provocar inquietações. The Last Duel, em última instância, é mesmo o grande filme de Hollywood que nasce a partir do fenómeno do Time"sUp e do #MeToo e questiona a herança do machismo, tomando como ponto de partida a história verdadeira de Marguerite Carrouge, dama do século XIV que teve coragem na corte de Carlos VI de acusar um escudeiro de violação. Uma espécie de ensaio medieval sobre o poder feminino perante a toxicidade machista reinante. Ridley Scott pega neste material e faz um excelente compromisso entre o espetáculo épico, que inclui um duelo de lanças a cavalo que dura o tempo que tem de durar, e uma reflexão sobre um tema sério, daqueles em que Hollywood já não costuma pegar. Aliás, o falhanço comercial do filme nos EUA leva a pensar que este tipo de filmes para adultos com orçamento avultado pode ter os dias contados para um estúdio como a Disney.

Aos 83 anos, Scott não se inibe de mostrar um conto de violência contra as mulheres sem os subterfúgios do "invisível". De alguma forma, é um filme que não poderia ser mais explícito e que talvez seja a versão medieval de Acusados, de Jonathan Kaplan, onde sentíamos o peso de uma violação. E por esta história ser contada em diversos pontos de vista, um pouco a Às Portas do Inferno, o clássico de 1950 de Kurosawa, temos uma sequência de violação filmada sem filtros nem ligeirezas.

É a prova de coragem de um cineasta que muitas vezes é acusado de ser um esteta vazio mas que ao longo da sua carreira tem momentos onde soube ser vital no espaço do mainstream, tendo uma apetência para encontrar verdade nas personagens femininas, que o diga Telma e Louise (1991) ou G.I.Jane - Até ao Limite (1997).

Se é verdade que O Último Duelo é daqueles filmes com uma temática madura para um público que dispensa divertimentos de super-heróis, a sua lógica intimista, por muita opulência do desenho de produção que possa sugerir o contrário, está em consonância com os factos relatados, neste caso a verdade de uma mulher que quis falar perante uma violação. Madame Carrouge, terá sido violada por Jacques Le Gris, amigo de armas do marido, o cavaleiro Jean de Carrouge, depois da relação entre os dois ter sofrido um declínio após Jacques ter sido favorecido pelo conde Pierre d"Alençon. Após o relato da mulher, Jean decide pedir ao rei Carlos VI um duelo em praça pública com Jacques, mesmo com a negação deste. Ao espectador é dada a versão dos acontecimentos de cada uma destas três personagens nas quais os argumentistas Damon e Affleck retiraram a psicologia do livro de não-ficção de Eric Jager e polvilharam a coisa num formato que às vezes pressupõe a lógica do drama de tribunal. Felizmente, a realização de Scott tem o condão de tornar a reivindicação feminista numa parábola sofisticada sobre os nossos dias, convocando com inteligência o peso das fake news, da herança de abuso masculino e do silenciamento feminino. E aí decorre um processo tão insinuante como provocante, tal como já se ensaiava em O Conselheiro, filme de 2013, em que o corpo feminino poderia ser uma arma letal... Sobretudo por isso, este é um dos seus filmes mais perturbadores não só por convocar algo "desconfortável" para lá do peso das imagens, mas também por refletir acerca dos limites da verdade da ética.

Sólido e com uma base de construção narrativa que pode não ser fácil para um espectador habituado apenas à linguagem formatada dos épicos de Hollywood, O Último Duelo é, mais do que tudo, um teste sobre a capacidade do espectador em digerir o peso do "ponto de vista". O ponto de vista das personagens e da própria câmara. E, nesse capítulo, é um objeto experimental, nomeadamente pelo efeito de repetição das mesmas cenas, todas elas filmadas com quatro câmaras em simultâneo, sendo que nas sequências de batalha e do longo duelo tenham surgido seis! Tem muito que se lhe diga essa forma de captar as possibilidades do outro "olhar". Até porque num olhar diferente pode estar uma outra verdade. Num filme que aborda a honra como estremecimento vital, toda essa complexidade permite o surgimento de novas camadas.

Scott também está a filmar o processo de sociabilização ocidental como algo onde a ética pode ser uma forma de corrupção moral, mas essa já é uma outra leitura que chega de boleia. Nada que choque com o poder visual de uma obra que aproveita e bem os cenários naturais providenciados pelos castelos e paisagens medievais de França e da Irlanda.

Um filme francamente convincente e inquietante que faz da sua dureza uma aliada feroz. Fica apenas no ar a dúvida se todo aquele polimento digital de luz na pós-produção não era mais compatível para filmes como Robin Hood ou mesmo Reino dos Céus...

dnot@dn.pt

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