O medo devora a alma num buraco espanhol

É um dos títulos virais na Netflix, A Plataforma, que nos fala de um edifício onde vale tudo para sobreviver. Um "reality show" dos horrores ou o filme que os açambarcadores de supermercados não queriam que existisse.

Vencedor no Festival de cinema Fantástico de Sitjes, em Espanha, o espanhol El Hoyo, em português, The Platform, foi compra certeira da Netflix. Certeira sobretudo neste momento de recolhimento global.Afinal, de contas, a história imagina uma sociedade onde as pessoas se submetem a uma espécie de prisão em formato de edifício em buraco. Um poço onde existem os de cima e os de baixo.

Todos os meses os "hóspedes" mudam de andar e têm de viver através da comida que chega de cima para baixo: um banquete que os de baixo talvez não tenham acesso. A lei da sobrevivência não se compadece com noções de solidariedade, mas depois de chegar um "messias" com um livro (Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes) a cadeia de egoísmo pode sofrer um revés...

Exemplo de um cinema espanhol com pretensões "mainstream" no qual não se subestima a inteligência do espetador, El Hoyo é uma crítica à sociedade egoísta e às camadas de luta de classes num sistema capitalista. A sua forma engenhosa não deixa de ser "fórmula", sobretudo dentro de um contexto de filme-conceito, tal como já era um Cubo, de Vincenzo Natali, estreado em Portugal há 20 anos. Minimal no seu dispositivo, faz com que a sua metáfora subjacente permita uma reflexão sobre a ganância de todos nós mas é ainda uma lição de como sabermos viver com pouco (e também connosco próprios).

O protagonista vai mudando de piso e aprende a adaptar-se à miséria humana e à companhia do invisível bafejar da morte. Tem sempre as palavras de Cervantes a ajudarem para o bom-senso do lugar do humanismo. A lei do mais forte tem aqui "twists" bem esgalhados, o argumento, entre outros méritos, não nos faz querer sair deste "huis clos". O espetador fica também fechado neste inferno escuro onde a fome é um jogo complexo com noções de complexidade óptica/sensorial/neurológica e correspondentemente de um mundo perdido deste capitalismo verdadeiro.

Dentro do poço vemos o desprezo dos humanos uns pelos outros e vemos também o pior de nós. O estreante realizador Galder Gatzelu-Urrutia nunca perde o fio à meada, mesmo quando encena cenas de canibalismo com uma violência gráfica de nos meter em sentido. É um cineasta que parece perceber o fundamento principal desta parábola na qual o medo (e a fome) devoram a alma. E consegue também com que a hora e meia de duração do filme passe num ápice de tal forma é possível ficarmos colados a isto
tudo. Paralelamente, partilha com Parasitas a noção de uma sociedade sem valores, desta feita proposta com uma tensão assinalável, mesmo quando para o fim o jogo lúdico de um final em aberto seja uma faca de dois gumes.

A Plataforma só não atinge um simbolismo alegórico mais refinado porque o olhar sobre o açambarcamento é, por vezes, pouco subtil. Somos o que comemos, mas neste buraco as bestas humanas podem redimir-se à base do lema "somos o que não comemos".

*** Bom

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