O livro que Hitler mandaria para a fogueira 

Norman Lebrecht O autor de Génio e Ansiedade fez contas ao número de judeus que mudaram a face do mundo entre 1847 e 1947. O resultado é surpreendente e bem defendido. Alberto Manguel, William Melvin Kelley e Maria João Medeiros também têm livros novos.

O título do livro, Génio e Ansiedade, só se compreende com a leitura do subtítulo: Como os judeus mudaram o mundo - 1847-1947. É disso que se trata, desses homens e mulheres que se impuseram nesse século entre séculos devido à importância do seu trabalho. O autor, Norman Lebrecht, justifica esta odisseia intelectual com a seguinte afirmação: "Eles não esperavam ser aceites. Pelo contrário, sabendo que as suas ideias iriam ser rejeitadas, sentiam-se livres para pensar o impensável."

Daí que em mais de 500 páginas arrole muitas das figuras que conhecemos e em que, na maior parte, se esquece a questão da "proveniência" religiosa: Freud, Einstein, Kafka, Sarah Bernhardt, Proust, Marx, entre mais umas dezenas de famosos que Lebrecht encaixa numa espécie de gueto para justificar o mote do volume. Olhando com distanciamento, podia ver-se o volume como propaganda, no entanto o génio do autor, aliado à ansiedade em se libertar de tal rótulo, resulta numa obra não questionável a esse respeito. Nada que obstasse Hitler a enviá-lo para a fogueira nazi noutros tempos.

Não se pode deixar de começar por lhe perguntar na entrevista a propósito da tradução em Portugal se só um judeu poderia escrever este livro. "Provavelmente" é o que responde de imediato. Acrescenta: "Contudo, só quem pensou nisto durante metade da vida é que o faria, afinal não é uma proposta fácil e terá sempre de vir do interior do autor. Além disso, é necessário ter um conhecimento do que se poderia chamar de uma "cultura coletiva inconsciente" e do passado dos judeus de forma a perceber certas implicações." Dá um exemplo: "Admiro Freud desde sempre, mas não desconfiava que os princípios da psicanálise teriam algo em comum com explicações que estão no texto da Bíblia. Quando os ponho lado a lado, confirmo isso. Freud recusaria esse legado da cultura judia e diria que não era verdade, mas creio que desconhecia certos princípios que existem na Bíblia em que sustento a minha opinião e tê-lo-á feito de forma inconsciente."

Génio e Ansiedade não é o tipo de livros que Norman Lebrecht tenha escrito ao longo da vida e que lhe deram sucesso mundial, pois a dúzia de edições já publicadas são mais na área da música clássica e só três dos mais recentes são romances. Esta viragem foi uma decisão tardia mas consciente, diz: "Quando entrei nos 60 prometi que só iria escrever livros que estivessem na minha cabeça há muito tempo. Foi o caso de Porquê Mahler?, em que descrevo as razões por que é considerado importante nos nossos dias enquanto no seu tempo de vida foi menos valorizado. Foi assim que cheguei a esta investigação, ao reparar que desde metade do século XIX e o mesmo período do XX existiam dezenas de indivíduos que mudaram a forma como se via o mundo e que permitiram viver como se o faz atualmente. Ao fazer as contas vi que metade eram judeus e perguntei: como é possível se são uma percentagem ínfima da população mundial? O que une Marx, Sarah Bernhardt e Einstein neste século?"

Encontrar as personalidades da lista final que preenchem os capítulos obrigaram Lebrecht a fugir aos suspeitos do costume, como os que acaba de referir: "O grande problema foi excluir nomes e encontrar um equilíbrio entre os mais famosos e os completamente esquecidos, apesar de o seu trabalho ter os efeitos que destaco. É o caso de quem possibilitou as transfusões de sangue ao descobrir que existiam diferentes tipos de sangue e que é completamente ignorado até por especialistas: Karl Landsteiner. É certo que se converteu ao cristianismo, mas decerto que no seu inconsciente existiam várias narrativas inscritas no Talmude que referem que o sangue não é igual em todas os seres humanos."

Para Norman Lebrecht era preciso interromper o livro num ano e escolheu o de 1947. Primeira razão: "Tinha de parar em algum ano!" Segunda razão: "1948 foi o ano em que tem início o Estado de Israel e é tanto o fim de uma história como o princípio de outra. Os judeus deixaram de estar como nos anteriores dois mil anos e começaram um novo capítulo." Admite: "Poderia ter continuado pois houve vários contributos de judeus para a civilização até aos dias de hoje, contudo a concentração, que é o propósito do livro, seria difícil de encontrar."

"Para alguém que nasceu após a Segunda Guerra Mundial, posso dizer que nunca vi durante a maior parte da minha vida tanto antissemitismo como nos últimos sete anos."

A data de início, 1847, foi devido à publicação do Manifesto Comunista por Karl Marx: "Foi fácil, mesmo que a maioria dos historiadores optasse pelo ano seguinte, de várias revoluções." Questiona-se a escolha de Marx porque, refere no livro, "via-se a si próprio como um falhanço". Teriam na sua época noção do trabalho feito? Concorda, ressalvando a herança judia: "Alguns deles sim, mesmo que Marx negasse em público qualquer ligação ao judaísmo, até atacava os judeus como sendo a fonte do capitalismo, mas sabe-se que em cartas às filhas pedia-lhes para quando se dirigiam aos trabalhadores, como muitos eram judeus, dizerem-lhes que eram comunistas e judias."

Uma afirmação inicial no livro descreve muitas destas figuras com a faculdade de "pensarem rápido". O que significa? "Eles trabalhavam sob uma grande ansiedade por serem judeus e não terem segurança no emprego, poderem ser expulsos e até mesmo mortos. O génio neste tempo é temperado por ameaças e sabiam que estavam vivos devido à graça de Deus", explica.

Para defender a tese do livro, Lebrecht recupera ataques a judeus, como o de Wagner a Mendelssohn: "Sim, Wagner foi o primeiro indivíduo que quis a legitimação cultural antissemita. É um grande compositor, mas detestava judeus e queria que fossem removidos da civilização europeia, o que era um passo para chegar ao que Hitler fez. Não creio que eu o faça como ataque, é apenas a descrição de como era e do que Mendelssohn sofreu."

Génio e Ansiedade não escapa ao regresso de um antissemitismo muito forte nos dias que correm e Lebrecht prefere dar um testemunho pessoal: "Para alguém que nasceu após a Segunda Guerra Mundial, posso dizer que nunca vi durante a maior parte da minha vida tanto antissemitismo como nos últimos sete anos. É uma situação que parece impossível após o Holocausto a de alguém manter este tipo de comportamento, mas regressou. Essa foi uma sombra sobre mim enquanto escrevia e fez-me lembrar o que teriam sentido Mendelssohn e Mahler, por exemplo, criando em mim uma grande afinidade para com eles. Felizmente, em Portugal isso não se vê, também por os judeus serem minoria."

Ao referir essa sombra, questiona-se Lebrecht porque quase passa ao lado do Holocausto no livro? "Tenho um capítulo que trata do Holocausto, no entanto este é um assunto demasiado grande para um livro deste género - já o tratei num romance - e distorceria a temática. Olho apenas para a questão teológica de onde estava Deus em Auschwitz e de como cada judeu interpretou a sua existência ou não existência durante esse tempo terrível", explica.

Para Norman Lebrecht, essa foi uma situação que moldou os milhões de judeus que sobreviveram: "Mais do que moldar, fez desaparecer muitos valores. Um dia em conversa com um amigo do mundo da música, ele disse-me que faltavam novos violinistas nas orquestras porque duas gerações tinha desaparecido em Auschwitz e quase eliminado a grande tradição de violinistas entre os judeus. Tal como se matou ainda em criança futuros médicos, cientistas, pensadores."

Será que a versão final do livro foi a que Lebrecht imaginava? "Não, fui conduzido para direções inesperadas e em Einstein, por exemplo, foi difícil encontrar o foco." Se tivesse de eleger uma destas personalidades qual seria? "Teria muito para conversar com Mahler e queria conhecer melhor Modigliani. Ou Max Brod, de quem vivi perto e não conversei sobre Kafka - de que me arrependo muito."

Génio e Ansiedade

Norman Lebrecht

Bertrand Editora

567 páginas

Outras noviddes literárias



Uma História da Leitura, de Alberto Manguel, foi editado no fim do ano passado em Portugal, como que a registar a sua transferência para o nosso país, alteração na sua vida que o autor refere na nova introdução exaustivamente e que, por ser um tempo em que os livros estão confinados por lei, é importante. Aliás, a biblioteca que Manguel traz para Lisboa ainda está em muito encaixotada, situação que numa segunda introdução poderá servir para um paralelo com o recente fecho das livrarias efetuado a nível oficial - até nas grandes superfícies. E se o livro recentemente lançado data do final do segundo milénio, 1998, ainda vai a tempo de ser oferecido a quem não lê ou não dá importância a esta tão antiga forma de conhecimento humano.

É muito sobre o valor do livro que Uma História da Leitura trata, bem como do quanto se aprende e ensina através desta invenção que foi passada das tabuinhas de argila para papiros, peles e volumes que anteciparam o que nos últimos séculos o leitor pode ter em mãos para que tudo lhe aconteça sem sair do lugar. Conta Manguel que tinha 4 anos quando descobriu que conseguia ler, relata depois que as letras dos livros se replicaram num cartaz e soube melhor o que representavam. Seguiu-se uma fase: "Cada livro era um mundo em si mesmo." A encaminhar-se para o fim das mais de quatrocentas páginas desta história, Manguel tem um capítulo intitulado "Leituras proibidas", onde recorda que o general Pinochet interditou o Dom Quixote no Chile porque o "livro advogava a liberdade individual e atacava a autoridade convencional". A História da Leitura, felizmente, não tem fim" diz na última frase deste livro.

Uma História da Leitura

Alberto Manguel

Editora Tinta da China

Um ano após morrer, 2017, o romance de William Melvin Kelley foi de novo um sucesso, tanto assim que chega agora ao mundo literário português. Intitulado Um Tambor Diferente, foi o seu primeiro trabalho publicado e o maior sucesso entre a meia dúzia de títulos que viram a luz do dia.

Na capa da edição nacional está uma citação da The New Yorker: "O gigante perdido da literatura americana". É forte, mas o artigo que está na base desta caracterização também não se fica por menos e a grande pergunta da autora, Kathryn Schulz, é "Como é que ele desapareceu?" Confessa que "tal como milhões de americanos" desconhecia quem era William Kelley até ter encontrado este seu livro numa espécie de alfarrabista ao custo de um dólar.

O relativo sucesso de Kelley fora em 1962, aos 24 anos, momento em que foi comparado aos grandes autores antes de ser esquecido: William Faulkner, Isaac Bashevis Singer ou James Baldwin. A razão, como diz Schulz, era simples: "Quando li Um Tambor Diferente percebi o porquê."

Tudo começa em 1957, quando numa tarde infernal de calor um jovem agricultor negro, Tucker Caliban, mata o seu cavalo, pega fogo à casa e parte em direção ao norte com a família. A repercussão na população negra é grande e o livro relata-a sob vários pontos de vista. Como refere o tradutor Salvato Teles de Menezes, "com uma trama (aparentemente) simples, quase esquelética, é um romance de dimensão coral. (...) Torna-se difícil acreditar que o autor escreve o livro com 23 anos".

Um Tambor Diferente

William Melvin Kelley

Editora Quetzal

A história de Portugal contém tantos crimes como feitos heroicos, nem que aqueles se transformem em gestos de que ninguém se esquece, como será o assassínio de Inês de Castro e o lugar com que Pedro ficou nos anais. Mas nem toda a maldade portuguesa ao longo dos séculos teve direito a ficar registada de forma enciclopédica, daí que certos livros como este, Almanaque do Crime Português, tenha um lugar próprio.

De leitura rápida e com várias camadas de leitura, Maria João Medeiros investiga e remete essas situações para uma longa lista de casos. Não deixa de repescar a "criatividade" com que muitos deles foram cometidos, o que espanta por várias vezes. A maioria ficou resolvida, teve direito a linchamento, investigação policial e julgamento oficial - até fugas espetaculares -, alguns estão até ao momento por esclarecer. Entre os últimos, o caso Maddie tem um destaque absoluto. Entre os primeiros, o desfile é um nunca acabar de exemplos. Distribuído pelos meses em que foram cometidos, encontramos exemplos que merecem uma releitura.

Diz a introdução que o leitor tem direito a uma participação enquanto detetive em causa alheia; se não quiser entrar no jogo, basta ler e, principalmente, recordar a enormidade de crimes com que temos convivido nos últimos anos e que a vertigem dos tempos nos faz esquecer. O primeiro data de janeiro de 2011, protagonizado por portugueses em Nova Iorque, e o último, de dezembro de 1869, conta uma fuga da Cadeia do Limoeiro. Pelo meio, não faltam surpresas e recordações que vão pulando de época para época, confirmando que o crime não tem fim.

Almanaque do Crime português

Maria João Medeiros

Editora Guerra & Paz

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