O homem que viveu duas vezes

O cinema de Ryusuke Hamaguchi deu-se a conhecer o ano passado no circuito português com um magistral filme de cinco horas: Happy Hour. Chega agora Asako I & II, um mais modesto drama urbano, mas com a mesma sensibilidade.

Vem diretamente do Japão e é um objeto muito delicado. Asako I & II apresentou-se na competição do Festival de Cannes em 2018, e passou também pela última edição do Lisbon & Sintra Film Festival. Tem agora estreia comercial entre nós e importa enquadrá-lo: esta é uma íntima sinfonia urbana, à semelhança da anterior obra-prima do nipónico Ryusuke Hamaguchi, Happy Hour: Hora Feliz, mas desta feita com uma menor exigência temporal. Se Happy Hour crescia ao longo das suas mais de cinco horas (divididas em três partes) como uma subtil crónica do Japão contemporâneo, o novo filme dá prioridade aos impasses do coração.

Asako I & II, tal como o título sugere, representa uma narrativa em duplicado. No início estamos em Osaka, onde uma jovem estudante - Asako - se apaixona perdidamente, e à primeira vista, por um belo e indomável rapaz, Baku. Um dia, ele desaparece sem deixar rasto. Dois anos depois, Asako está a viver em Tóquio, trabalhando numa cafetaria que presta serviços de catering a uma empresa da mesma rua, e a dada altura, ao entrar na sala de reuniões dessa empresa para ir buscar uma cafeteira, depara-se com um rosto demasiado familiar: num homem de fato aprumado ela identifica Baku. Mas este, apesar de fisicamente igual (é interpretado pelo mesmo ator, Masahiro Higashide), chama-se Ryohei e tem uma personalidade em tudo distinta dessa antiga paixão de Asako.

O tempo vai passando, com as elegantes variações da vida citadina que Hamaguchi tão bem sabe explorar, até que uma rutura do quotidiano faz a protagonista pender para os braços do "duplo" de Baku. Esse momento é simbolicamente assinalado por um terramoto (o de 2011) que os une num abraço, dir-se-ia mágico, no meio da multidão. Porém, de novo cinco anos mais tarde, uma outra "réplica" ameaça a estabilidade emocional que Asako alcançou ao lado do pacato Ryohei: Baku reaparece em cena, reclamando a sua atenção e baralhando as coordenadas sentimentais.

Nas mãos de um cineasta menos sensível ao tecido do dia-a-dia, esta história de um ser duplicado - que chega a evocar A Mulher Que Viveu Duas Vezes (1958), de Hitchcock - poderia cair no simplismo de um dilema amoroso sem espessura real, ou sequer cinematográfica. Ora, pelo contrário, o que Hamaguchi faz, tendo por base um romance de Tomoka Shibasaki, é cruzar uma linguagem de gestos, silêncios e repetições com a mística que se esconde nas costuras da realidade. E não há nada de artificial ou falso nessa suavidade enigmática acompanhada pela câmara. A precisão com que este japonês labora os detalhes é a de um estudioso da vivência urbana, capaz de depurar o trivial com a mais extraordinária serenidade e sensibilidade.

Não por acaso, nota-se que isso é algo que já vinha do seu trabalho por trás de Happy Hour, a saber, a atenção firme às nuances do argumento, para que uma respiração natural se insinue em cada cena - ainda mais num filme que assenta no impulso de várias fugas e convulsões íntimas. Asako I & II tem a beleza de um toque de pele em plena atmosfera da cidade, a particularidade de um olhar gracioso e a sabedoria de um movimento interior. Razões de sobra para seguir o trabalho desta voz singular da atual cinematografia japonesa.

*** Bom